Inspirado num trecho do romance “O dia do gafanhoto”, de Nathaniel West.
Lido em 3 de março de 2009.
… à noite, camaleão.
Passos apressados e pesados no tronco fino. Para. Pisca. Os sulcos rugosos incham e desinflamam desajeitada e febrilmente. Ele observa. Procura alimento. Com a vontade, se torna um desenho em meio ao campo vasto verde-claro cheirando amínia. A fome manda e o resto segue. Sem pensamento ou intenções secretas. Fome. Precisa comer, pois sua vida depende disto. Instinto. Vê algo a distancia. Grande e vermelho. Corre.
Ele o encara. Chove. A noite espelhava o verdadeiro lado dos homens. A água não purificava, mas atrapalhava. Ruim para visão. Ele sabe quem ele é. Ele não sabe quem ele é, mas o notou. Ele segue, sem ideia do que espera. Os pingos rápidos e fortes, aliados ao som surdo e alto do vento, emolduram o quadro preto e absoluto. À hora do julgamento. Crimes serão pagos e o esgoto expulsará mais um dejeto das ruas contaminadas.
Vestiu as roupas, mas percebeu uma pequena mancha de sangue na mão esquerda. Pegou um pedaço de papel higiênico e limpou. Se vira para ela. Quer deitar na cama, mas acabou de se aprontar. Além do mais, não podia demorar. A diversão acabou. Desejava ter tido mais tempo com ela. Cada minuto se tornava agora um segundo. Cada segundo uma fração no tempo. E a fração, lembrança. Queria ter dito que a amava. Ela dissesse eu te amo, enquanto ele deixava suas marcas de afeição; três centímetros de largura por 0,5 de diâmetro. Todo mundo deveria escutar e participar de envolvimento de amantes, mas pano impediu. Lágrimas, no entanto, o relembraram de beleza. Agora, voltaria para casa e dormiria ao lado de esposa sono dos justos.
Determinação. Não há mais volta. À ele. Sua irmã falara nele. Cliente fiel. Educado. Bem vestido. Homem de família. Filho da puta. O mundo estava cego e amordaçado. Uma pequena nota no jornal, abaixo de um engarrafamento após o fim do feriado. Mas ele sabia mais. Tinha visto a face real das ruas e era podre, com gordos vermes se banqueteando em meio a sujeira. Criaturas em busca da maior sensação, os últimos suspiros. Ver corpos emagrecerem com uma breve expiração. Ela não era uma simples engrenagem nesta máquina de sêmen e sangue. Era uma pessoa, a dele. E aquele era mais um verme se deliciando nas entranhas do cadáver. Não faria falta. Nenhum deles. Nada importava, a não ser olho por olho, mesmo num universo cego.
Desce de forma agressiva e chega ao mato. Se move em zigue zague. Está próximo, pode ver. À enorme. Os raios de luz o esquentam e aumentam o desejo. Não está habituado a isto. Algo o manda fazer, uma sensação que jamais compreenderá, mesmo se quisesse. Sobe. Pisa no molhado. O som de outros seres, que dançam ao redor da comida, o ensurdecem. No entanto, ficam no ar, como se guardando a refeição para ele. À dele. A pata escorrega em uma depressão sem final. Se apóia em um objeto amarelado e continua, com calma. Não vai a lugar nenhum.
Ele se vira. Encara o agressor. Em meio a escuridão, vê um brilho, ressaltado pelos pingos d água. Está apontada para ele. À isto. O fim em meio a lama e bichos. Ainda aponta. Sem estouro.
O dedo trava. Por alguma razão, toda coragem parecia esvair junto com a chuva em sua pele. Aperta o gatilho, aperta, aperta, aperta. Fecha os olhos. Uma mão amiga virá e o livrará da agonia. Pronto. Está mais leve. Seus ouvidos zumbem e o interior queima. A tempestade abafou o tiro. Caiu. Se junta a ela. Mais uma nota em meio a anúncios de refrigeradores. Mais comida para vermes. No final, não conseguiu mudar suas cores. Era aquilo e, agora, não seria mais.
Eles se encaram. Olhar objetivo encontra o inerte. Se enganou. Não era comida. Não era bicho. Só uma coisa grande e chamativa em meio um vasto campo cheio de enormidades e estranhezas. Foi procurar moscas. Alimento é instinto vivo. No entanto, í s vezes, a gradação de pele confunde…
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