Inspirado num fragmento de “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio.
Lido em 3 de junho de 2008.
“Minha suíte está em obras, hospedei esse tal Eduardo Nortom, durante as filmagens desse filme de monstro. Beleza! Aí está passeando com o labrador do Pedro Aguinaga, encontra a Narcisa saindo da Polonesa, resolve fazer do meu triplex o Mariuzim! A Tamborindégue, vá lá, mas o Chato-briã, não, que aí vira La Cueva y é fueda!”
(Seria injusto descrevê-la como uma pedinte, posto que, nestes últimos 38 anos, ela nunca pediu. As roupas dão margem ao equívoco, mas tampouco são sujas ou esfarrapadas. A lavanderia improvisada na grade que cerca o prédio da esquina com a Barata Ribeiro não é tão eficaz quanto o Cinq À-Sec no 373, mas o pessoal da Lotérica não deixa faltar sabão e empresta a mangueira. É velha, sim, mas berra agudo e energicamente como uma professora recém formada colocando ordem no recreio de um jardim de infância. Suas crianças se espalham do Pavão Azul até quase a já fechada Casa Pedro. O carinho que dá autoridade às suas broncas só lhe foge quando o alvo é aquele negro esquálido, cheio de ginga. “Grã-fino de araque, vá de retro, ô capeta!”)
“Opa, se liga aí, dá licença pra Dona Maria… Mas o Bruno bagunçou a cobertura? Explica aí…” O rapaz oferece uma patanisca, por reflexo, sem nem esperar pela recusa antes de levar á própria boca. Desde seu primeiro happy hour na Meca dos Pásteis de Copacabana, ainda num carrinho de bebê, que ele vê o sorridente negro apenas fumando e bebendo. Se o flagrasse ingerindo sólidos, talvez temesse pelo fim do seu rebolado tão leve e elegante, como das bailarinas, 1,60m e 40 quilos.
“Seguinte: Monique Evans.”
“Monique Evans, do Lobão?”
“Eita, começou a lr coluna social com a Rildegarde Angel? Os pentelhos-caução da Monique são do Pedrinho Aguinaga!!! Moniques e oxigenadas não se bicam! você acha que a Evans vai pedir socorro pra Vidal? Anda com a pensão atrasada, ela entra disfarçada de Regina Poltergáisti, junto com o Fáuceti, e arma um barraco! Quebrou um Tunga até, mas até aí, ficou de pé o pedaço menos feinho, vou até dizer que é da Lígia Clarque… Mas não tem nada, não, o 109 é de planta ampla, comprei o sétimo, agora faço um ´quadriplex´, ora pois”
(Dona Maria enxerga até bem, apesar dos arames segurando as pálpebras no estilo indiano-condenado-pelo-Islã. É do ouvido que anda mal. Já tinha dificuldades, anos atrás, para saber de que boca vinha cada palavra. Conversa de botequim é como uma excelente orquestra regida por dúzias de maestros ao mesmo tempo, boas idéias desperdiçadas pela falta absoluta de condução. Sua quase nenhuma instrução consegue até montar parágrafos, mas numa colcha de retalhos que retira fragmentos de um e de outro falante. Não teria a citação ao Tunga vindo daquela baixinha de cabelos lisos espivetada que acabou de voltar da Europa? O negro magro, de bigode aparado como só senhores de fina estirpe sabem aparar, não estava a falar obscenidades? Ou seria o contrário? Para Dona Maria, não importava. Havia ensinado à única filha: “Palavreado bunito num enche geladeira. Coração só bate forte si a barriga tá cheia, pobre casa primeiro e ama despois!”)
Ele não se cansa de fazer número. Aliás, trata-se do contrário: ele deixou de palhaçada já faz 38 anos. Não por falta de talento. Foi seu espírito brincalhão que lhe tirou do forno e lhe botou no balcão da padaria, onde seus gracejos, sempre na medida, fizeram a fila aumentar até quase a esquina da Siqueira Campos. Deixou o “blaqui-póuer” porque se imaginava o Bim Crosbi, que na época usava boca de sino e tudo. Só quando se encantou por Fátima é que descobriu a necessidade de ser sério. Nem por ela, mas pela sogra. O grand-finale foi o bate-boca com a velha bruaca, no meio da rua. Na frente da patroa, um vexame. a doméstica foi pra rua, o namoro foi pra cucuia. Culpa dele? Sem Fátima, perdeu o motivo para ser sério. Sóbrio, continua esperando que lhe digam que tudo não passou de um sonho. Ébrio, sonha: acha que está no salão da Gafiera onde se conheceram, e dança, como se tivesse o diabo no corpo, pra ver se, mais uma vez, ela se impressiona, e chega ao alcance do seu abraço, para aquela lenta. “So very hard to go”. Tower Of Power. Ademir é mesmo da pesada!
(A velha gostaria de escutar apenas um “muito obrigado”. Saiu de Frutal pra quê? Vendeu cafezinho de garrafa térmica madrugada adentro pras meninas na praia pra quê? Aceitou o assédio do marido da patroa pra quê? Arrastou aquela barriga de faxina em faxina pra quê? É só o que conheceu de nobre na vida: as chagas, o sangue, a cruz do Senhor pelos filhos. Tirada sua única filha, se salvaria nos netos. Sem netos, se salvaria no genro. Mas não foi ela que proibiu o casório? Culpa dela? Não, ele é que tinha o diabo no corpo, fugia do compromisso. Mas se ela foi perdoada, pode também perdoar.)
Eis o que está em cartaz no Cine Pavão Azul. Na tela: um velho negro feliz, dançando uma valsa para escapar de uma velha enfurecida armada de uma vassoura. Na platéia: 2 jovens devorando pataniscas como pipoca.
“Então deixa estar. Um beijinho de amor para vocês, ssssmack, ssssmack, que Xuxa Meneguel está me esperando no helicóptero, alugou a Ilha de Caras para tirar o atraso comigo, ssssmack, sssssmack!”
(A velha quase acerta a vassoura, agora brandindo como uma amazona, “Safado, vai cum tuas nêga, xispa que a minha é moça de família, coisa ruim”, empurrando o velho Olympio e o bronzeado bofe da ocasião. Vem a calhar, já que o gerente do sebo está – mais uma vez, reclamando com o dono da birosca, que já está transferindo as mesas da frente da vitrine para junto do relógio da prefeitura.)
“Sabe o que eu tava imaginando? Tira o fedô da cachaça. Bota uma beca imaginária, concerta o léxico e as concordâncias verbais. Aí, pintou o quadro? Faz uma reprise… Se o jet set ainda circulasse por essa cidade de merda, podia ser o Jorginho Guinle do século 21 di prosa co´ a gente.”
“Ah, delírio, meu. Sabe o que eu ouvi? Pegou a patroa com outro, ficou desgostoso, nunca mais botou o pé no barraco – ali, no Tabajaras. A família ficou com dó, de vez em quando até recebe o coitado, 10 minutos, banho de gato, curativo nas feridas, sabecumé.”
“Sem graça, cumpadi. Prefiro assim: viu o mané mexendo com as filhas da vizinha, ali na saída da Adega Pérola, tava di saco cheio da folga, peitou o sujeito. Era o fodão do bairro Peixoto, saca? Capoeirista, meteu a perna no cuzão, acertou a clavícula. Aí dos fodinhas do bairro Peixoto – que na verdade eram do Morro dos Cabritos, juraram ele de morte. E a turma do tabajaras se mobilizou. Guerra prestes a explodir. O Paulo então propõe um armistício: sai da área, vai pro exílio. Só que não consegue ir longe, fica preso no cruzamento existencial da Barata Ribeiro com a Hilário de Gouveia, dormindo na rua, bebendo, pra ver se eles esquecem. Até que o álcool apaga tudo, até o caminho de volta.”
Ilustrado, é só mais uma prova do seu domínio do idioma este linguajar despojado do rapaz de boné italiano. Aos 12 anos já fazia seus milagres, conversando com os doutores do templo, neste caso o Judiciário. Os amigos do pai, desembargador, a princípio estranhavam a presença do menino na mesa, mas o diabinho fazia bonito: elogiava Marx apesar da falência do socialismo real, preferia o terror do Alan Poe e sua Sci-Fi passava por adaptações do Truffault. Já namorou a filha do embaixador sueco e freqüenta as aulas de mestrado do Márcio Tavares do Amaral por dilentantismo. Mas prefere se entorpecer e desperdiçar sua juventude na companhia do populacho. Menosprezando as glórias passageiras deste mundo, não se dando ao trabalho, se convence intimamente de que seu fracasso é recusa (uma greve de atitudes frente ao absurdo, como diria um amigo condescendente), vende sua paralisia como charme. É estufando a pança que não tem, como se a decadência fosse opção estética, que escreve a última nota num guardanapo:
“Conto: o poeta (anos 30?) mata a amada na frente da mãe (dele). Decide que o velório vai ser na rua, por tempo indeterminado, até a dor passar (Hilário não, sem graça, Prado Júnior, mais glamour) (título: A maldição da Prado Jr.) D. Maria (mãe) monta guarda pra cuidar do filho. Décadas se passam. (OBS: melhor um romance?).”
O rapaz do suspensório (só o boné não o destacaria dentre outros habituês do Don´Ana) perdeu uma bolsa em Barcelona. A vergonha, nunca admitida, é a verdadeira razão do desconforto que sente entre outros Herdeiros com H maiúsculo, ainda que mais grave seja a ofensa ao pai, cuja doença o obrigou a declinar do convite. Um sacrifício tão pequeno, por quem lhe deu tanto, deveria estar em outdoors, não ofuscado pelo brilho artificial do esboço de casório que lhe serviu de desculpa para ficar.
O rapaz teria economizado imaginação, não fosse o Mal de Azheimer do pai. Ultimamente, Dr. Gouveia voltou a se debruçar sobre o Vade-Mécum, estudando para passar no exame da Ordem, amargurado pela sua noiva não ter telefonado, estranhando aquele rapaz para quem seus pais alugaram um quarto, que se atreve a uma intimidade insolente. Em outras manhãs, abrindo o Globo, tem de novo a idéia genial, para quando estiver aposentado (e quem sabe até lá alguém depõe esses milicos de merda), quando pensa estar lendo aquela nota, que, 38 anos atrás, recortou e deu início ao maior registro historiográfico já reunido sobre os Postos 4 e 5 (jogado no lixo quando o filho transformou o gabinete em seu estúdio de gravação):
“Irresponsabilidade no trânsito mata casal em Copacabana: A rua Toneleiro testemunhou uma tragédia envolvendo um jovem casal nesta madrugada. Segundo o depoimento de amigos, o empresário Henrique Cordeiro D´Arruda saiu da boite Le Bateau em seu Opala, por volta das 3:30h, aceitando provocações para um “racha” contra contra outro veículo esportivo não identificado. Sua acompanhante, que faleceu no ato do acidente, foi identificada como a instrutora de dança-de-salão Fátima Lourdes Pereira por um funcionário da Padaria Vale D´Oiro que se identificou como seu noivo. A mãe de Fátima, Maria da Conceição Pereira, negou no entanto que a filha tivesse qualquer relacionamento com o jovem padeiro, Paulo do Nascimento. Policiais da 12a DP tiveram de conter Paulo do Nascimento que, transtornado, foi recolhido à carceragem depois de agredir membros da família Cordeiro D´Arruda.”
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