Inspirado na crônica “O amor acaba”, de Paulo Mendes Campos.
Lido em 17 de março de 2009.
Olha, é que…
É o que, meu bem? Marcando encontro aqui. Você que é tão natureba.
É que… Bem, é que eu tenho uma coisa para te falar.
Que coisa?
Olha, não é nada contigo.
Ih, lá vem. Se não é comigo, por que está falando justamente comigo?
Não. É… É contigo mesmo, mas eu quero dizer que a culpa não é sua.
Culpa? Que papo é esse? Você está querendo…?
É mais ou menos isso.
Isso o que?
O que você disse.
Eu não disse nada. Você é quem quer dizer alguma coisa.
Mas você sabe, não é?
Sei o quê?
Pára. Você sabe exatamente o que é.
Escuta não me peça para facilitar nada para você. Eu já estou achando que não quero ouvir nada. Se for falar, fale logo.
Eu quero terminar.
Quer terminar? Mas por quê? Poxa nós estamos nos dando tão bem.
Sim estamos. Estas duas semanas foram super legais, mas…
Mas o que? Ontem mesmo estava tudo ótimo.
Cara, poxa, você é uma pessoa muito legal, muito interessante, muito…
Não. Não vem com essa de me por para cima. De onde você tirou que eu tenho algum problema de auto-estima? Conheço todas as minhas qualidades.
Eu sei.
Sabe mas não concorda. Pelo jeito não está achando graça nenhuma nelas.
Não é bem assim. É que já deu.
Já deu? Que porra é esta?
Calma!
Desculpe! Você me pegou de surpresa.
Tudo bem, sem erro. Não fique chateado.
Não ficar chateado? Como? Eu estava achando tudo tão bom e agora ouço que vai acabar e você quer que eu nem fique chateado? Devia estar sendo péssimo, não?
Não. Eu estava curtindo muito também.
Curtindo, que palavra é essa, parece que eu sou um sorvete.
Só foram duas semanas. O que achou? Já era casamento?
Nessas coisas o tempo não conta e sim o envolvimento.
Cara, eu estava me envolvendo muito também ou vai dizer que não?
Não sei. Não sou eu quem quer terminar de uma hora para outra.
Se não estivesse totalmente dentro da relação eu não teria este papo contigo. Simplesmente não te ligava mais.
Estou achando que enlouqueci. Parecia que você estava adorando tudo.
Não dá para adorar tudo.
Não faz isso vai? Vamos continuar. Esquece este papo. Me dá um beijo?
Não, não quero mais.
Eu beijo mal? Tenho mau hálito? Pelos no nariz?
Pára, cara. Você é muito bonitinho.
Bonitinho é o caralho.
Que grosseria. Babaca.
Grosseria? Eu sou um feio ajeitadinho e um grosseirão? Devo ser um merda mesmo.
É você quem está dizendo.
Ah, você concorda, não é?
Dá para parar. As pessoas já estão olhando para cá.
Que se foda. Vai todo o mundo se fuder. Caguei solene.
Está vendo?
Vendo o que?
Como você não sabe conversar?
Como assim?
Eu venho aqui te comunicar que o nosso lance não vai mais para frente.
Ah, agora é lance. Quando estava lá em casa era outra coisa.
Bem, agora você chegou no verdadeiro problema.
O que foi? Vai me dizer que tudo aquilo era fingimento?
Não é isso. Não sou nenhuma vadia para ficar trepando forçada. Fiz porque estava curtindo ver você se sentindo.
Cara, eu vendo o céu e você fazendo unha.
Não foi nada disso. Já disse: a trepada foi ótima.
O que foi então?
Nada, deixa para lá.
Não. Olha, já me acalmei. Desculpa a grosseria. Me diga o que foi que aconteceu lá em casa que te fez mudar de idéia? Tem alguma coisa que eu possa fazer?
Cara, deixa isso para lá, vamos cada um para o seu lado e pronto.
Mas será que foi tão ruim assim que não valha nem uma conversa?
Vamos mudar de assunto. Deixa eu te perguntar uma coisa. O que você menos gostou em mim?
Vai mudar o jogo? Agora quer que eu fale primeiro? Está bem, eu falo.
Diga, vai em frente.
Este lance de ser Ovolactovegetariana por exemplo.
Está vendo? Nada é perfeito, embora não veja mal nenhum em não comer carne.
Agora é você. Fala! O que foi que te incomodou?
Várias coisas.
Várias?
Não, digamos algumas.
Tais como?
Logo que te conheci gostei do seu visual despojado, casual, o tênis meio gasto. Este tênis que você não troca nunca.
Consumista! Só quer saber…
Vai deixar eu falar?
Vai, fala.
Depois o perfume. Cara vou te dar uma dica, Stylleto já está fora de moda há séculos.
Só consumo, você é uma vazia….
Não vem com essa. Você sabe muito bem que eu não sou assim. Estou lhe dizendo as coisas que me fizeram desistir deste namoro. Estou sendo muito sincera e mais detalhista possível, para ver se fica claro, de uma vez por todas que não vai rolar.
O que mais na sua listinha nefasta?
Na sua casa…
Agora vai dizer que é fedida, que não tem cheiro de Glayd’s sachê?
Não, muito pelo contrario. Fiquei surpresa com a higiene e a arrumação. É até um pouco demais, para o meu gosto.
Foi o que então?
Duas coisas praticamente.
O que?
Você não gosta que entrem de sapatos na sua casa.
Para não levarem a sujeira da rua lá para dentro.
Eu sei mas detesto usar chinelos dos outros e você me fez usar os seus. Eca!
Eca?
Sim, eeeecaaaa!
Ok, o que mais?
Aquele pôster enorme da sua mãe no corredor.
Cara. Não acredito. Tudo é muito superficial. Eu amarradão e você encanando com o pôster da mamãe?
Bem que não queira falar nada. Você foi quem insistiu.
Lógico, queria saber dos seus motivos, mas é tudo tão bobo.
Não é bobo não. Eu vejo a longo prazo. Tento visualizar o futuro e é justamente com aquela merda de pôster que eu, um dia, vou quebrar a sua cara. Puta da vida com o seu jeito desleixado e casual de ser e todas as outras coisas.
Isso é uma maluquice, tudo é muito pequeno. Você não me deu motivo algum.
Bicho, o amor acaba num tênis, num chinelo, num pôster, são as pequenas coisas que o matam.
É, você tem razão, o amor acaba no McDonald’s.
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