Inspirado na crínica “O amor acaba”, de Paulo Mendes Campos.
Lido em 17 de março de 2009.
De novo o pai fica o dia todo lá. Mais uma vez. Sentado, sem fazer nada. Debaixo desse sol, só olhando. Mas mesmo que fosse sombra, ele ainda estava lá, sem fazer nada. Parado. Olhando. Até debaixo de chuva. Não duvido. Se chovesse por aqui.
No começo a mãe ainda tentava tirar ele de lá. Daquele jeito dela, aquele jeito calado que mulher tem. Não diz nada. Só olha, como quem espera alguma resposta. Como cachorro querendo sair de casa, quando o dono tá com a porta trancada. Ela ia levar a comida, ou armava um apoio para dar sombra, e ele nem se mexia. Ela ficava lá, fazendo aquela cara de medo e esperança e ele nem mudava a expressão da cara. Aos poucos o olhar da mãe foi se apagando, e era uma coisa engraçada de se ver que quanto mais o olhar da mãe mais ia se requeimando um fogo nos olhos do pai. Dava até medo de ver. Juro. Ficava vermelhinho cor de sangue. Parecia coisa do demo, Quanto ele olhava pra você, parecia o tinhoso enxergando por dentro da tua alma. E só vendo ódio.
Mas agora ele não olha mais pra quase nada que não seja aquela maldita peça de roupa estendida no varal. Nada mais importa. Nada mais existe. Nem os outros filhos. Nem a mulher. Nem ele.
Às vezes eu tenho ficar perto dele. Não sei porque ainda faço isso. Acho que é porque não tem mais nada pra fazer. No começo, achava que ele ia se conformar. E quantas mães não perdem os filhos logo ao nascer, tantos anjinhos nesse mundão de Deus? O que é um filho a mais? Mas era o filho primeiro , eu sei. O macho mais velho dele. Isso não tem perdão.
Agora ele fica lá, sentado. Não vai mais pra lavoura. Não cuida do gado. Só fica resmungando aquelas coisas lá dele. Não tento mais conversar. Quando ainda me notava, dizia coisas estranhas. Falava de fogo. De enxofre. De sangue. De morte. Dizia que nesse sertão é a quentura do ódio que deixa a gente mais seco que a secura da terra. Mais seco que a caatinga. Mais seco que o agreste. Que só assim a gente é forte.
Mas tem coisas que a quentura da raiva não deixa ver; não é o sertão que faz a gente ser forte com a raiva. À a raiva que seca a gente e faz brotar o deserto brotar em volta. À assim, sempre foi. Sempre vai ser.
Foi assim quando mataram em emboscada o pai dele. E o pai do pai. E o aví do aví. E agora o filho dele. Meu irmão mais velho. Agora ele olha pra mim. Quer que eu treine com a espingarda. Que eu aprenda a andar por aí e me espreitar sem ninguém ver. Que eu tenho que fazer justiça.
Tem vezes que a única justiça que eu queria era a Justiça cega de Deus. Que no final mata e seca tudo. Leva todo mundo sem olhar a diferença. Queria uma doença que levasse todo mundo de uma vez: mãe, pai, irmãos e irmãzinhas. Ou então que os outros descobrissem. Que a gente tá querendo atocaiar eles e viessem na calada da noite rasgar as nossas goelas todas. Acabar com tudo de uma vez.
Ou quem sabe que nem nas histórias de antigamente. Que agora eu sou o filho mais velho. Que eu saía por aí e conhecia moça donzela. Que a gente se gostava. Que a gente se fugia. Que a gente se casava. Que a gente voltava e descobria que ela era filha do inimigo. E que agora não podia mais ter rixa porque ela tava embuchada.
Mas isso tudo é só história maluca que passa na minha cabeça. Coisa de doido. Conto da carochinha. Mas prefiro a minha loucura que a loucura do pai. Todo dia lá. Dias e dias. Diz que precisa vigiar enquanto seca o sangue da roupa do filho. Que depois vem a colheita. A vingança. Mas eu já sei a verdade. Ele não espera o sangue secar. Ele espera o sangue ferver. Ele espera uma espera que não acaba nunca. Porque o ódio nunca acaba. O ódio só cresce e se alimenta. E espera. Até ferver o sangue.
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