Inspirado num trecho do romance “Uma longa queda”, de Nicky Hornby.
Lido em 31 de março de 2009.
Marly disse “boa-noite, meu filho” e desligou o telefone, como todas as noites, mas ao olhar pelas janelas abertas pensou em como as luzes acesas da cidade eram convidativas. Trocou as pantufas por sapatos e desligou a TV. O porteiro estranhou, mas intimidou-se com a firmeza da velha senhora. A rua estava fresca e o jornaleiro recolhia revistas com capas parecidas. Burlando sua rotina, sentia-se como de férias numa cidade desconhecida. Sentou-se num bar onde havia alguns estrangeiros bebendo, rindo e falando em voz alta. Pediu ao garçon um drinque igual ao primeiro que seus olhinhos avistaram na mesa ao lado. Abriu a bolsa e confirmou que havia dinheiro suficiente para seus excessos preferidos, isto é, drinques e friturinhas. Há tempos precisava dessa reunião consigo mesma num ambiente neutro, sem os vícios e as influências dos filhos, netos e bisnetos. Na verdade os bisnetos estavam fora dessa acusação, pois o mais velho tinha cinco anos e portanto menos juízo que ela. Na verdade os netos também estavam fora dessa acusação, pois eram tão ocupados com suas graduações, pós-graduações e separações que só a viam nos Natais. Na verdade os filhos também estavam fora dessa acusação , pois nem estavam atualizados em suas questões como o fato de que a idade é contada de forma regressiva à medida que se aproxima de um século. Ela lembrou que também esteve distante e alienada de seus pais e avós, certamente por egoísmo, mas também por medo de vivenciar tão intimamente o final da vida deles. Vai-se enrolando o idoso sem tocar em assuntos relevantes ou fazendo abordagens desastrosas, como o episódio que uma amiga sua, já falecida, lhe contou. Estava esta amiga se submetendo a sessões de quimioterapia e era acompanhada por suas filhas, que se alternavam. Ocorreu que uma delas lhe disse uma certa vez, enquanto se dirigiam para a clínica, que gostaria de ser cremada quando morresse, e então perguntou a ela qual era a sua opinião, ao que sua amiga respondeu que não gostaria de falar sobre este assunto.
Quando pensou que a contagem regressiva era incímoda, indigesta, inevitável, onipresente e real, Marly já estava no terceiro drinque. Suas faces estavam coradas e seus neurínios pareciam o jóquei em dia de corrida, com as idéias galopantes e focadas no final feliz.
E que idéias! Para que esperar que a morte a surpreendesse, que tivesse que acordar a família de madrugada para que todos fossem obrigados a correr para um hospital? E no dia seguinte irem direto para seus trabalhos com olheiras indisfarçáveis? Nada disso. Marly teve seus quatro filhos de parto normal e com isso já tinha dado sua cota de naturalidade à vida. Merecia um suicídio de primeiro mundo, de primeira linha e de primeira dama.
Lavou seu vestido preferido com Àla, não sem antes experimentá-lo. Precisava perder uns 2 quilos para que ficasse folgadinho, confortável. Diminuiu as calorias e fez caminhadas mais longas. Imaginou-se dentro do caixão, olhada de um em um pela família e os muitos amigos. Precisava também de uma boa hidratação da pele do corpo inteiro e um bom corte de cabelo. Não faria economia em nada. Ah, comprou sapatos novos e foi à funerária fazer sua encomenda.
Ela agendou a morte em segredo, como quem agenda uma viagem que alguém poderá invejar. Seu planejamento era viver mais seis meses, suficiente para conviver mais intensamente e também despedir-se, ainda que de forma velada, de cada um de seus descendentes: Aloísio, Jerínimo, Paloma, Sebastião, Mirela, Janaína, Saul, Irene, Lívia, Anita, Vivian, Julio, Guilherme, Carmen, Dani, Mauricio e Daniel.
Realizou também um plano especial, o mais audacioso e sonhado: ter seu corpo desenhado com flores. Tatuou uma delicada bandana no alto da testa, como uma tiara, e nas costas, ombros e antebraços alguns arranjos.
Chegado o dia agendado, depois de um banho demorado, colocou seu vestido perfumado. Tomou seu último café da manhã ouvindo Edith Piaf. Estava linda, serena e segura, com a sensação de missão cumprida e hora certa. Pegou um frasco cheio e engoliu-os todos.
Sorriu, procurando uma expressão estética para sua posteridade. Esperou. Edith Piaf cantava “Je ne regrette rien”, com sua voz profunda num vibrato passional. Marly nada sentia de diferente. Prestou atenção em seus movimentos intestinais. Nada. Sacudiu o frasco de cabeça para baixo sobre a palma da mão. O frasco estava vazio. Verificou a etiqueta do frasco e levou um susto! Eram vitaminas…
Então, desistiu. Achou melhor acordar a família numa madrugada dessas e deixá-los com olheiras indisfarçáveis no dia seguinte.
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2 respostas
Deborah, não sei mais o que dizer dos seus contos sem chover no molhado repetidamente!!! Vc nos brinda com mais um texto lindo e com aquelas sutis ironias que vc sabe usar tão bem. Mas posso dizer mais: adorei a brincadeira com os descendentes da idosa suicida e vaidosa e ver meu nome ali estampado, e o da galera tb! Arrepiei-me ao imaginá-la ouvindo “Je ne regrette rien”. E adorei o lapso da personagem tomando vitaminas e adorei sua histeria mal-disfarçada. Muito bom! Mas ainda gosto muito do tÃtulo original que inclui o “tatuada”, embora a tatuagem não apareça tanto no conto. Esse conto é muito inspirador!
E por falar em tatuagem, devo dizer que me senti totalmente preparada para viajar.
Me senti linda e preparada, a não ser que gostaria de antes dansar uma dansinha qualquer
com o Nureyev…só isso
Concordo que o conto é inspirador!
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