Inspirado num trecho de “O dia do gafanhoto”, de Nathaniel West.
Lido em 3 de março de 2009.
Uma multidão de pessoas saia pelo portão e emergia sob a terra em direção ao Metrí. Depois de trinta dias ele já sabia que í s 5:30h da matina o movimento era de chegada à Central, ele e poucos faziam o caminho inverso. Foi até o guichê e comprou um bilhete, passou pela roleta e sentiu um esboço de ansiedade em escolher qual destino seguir. Olhou para o sinal luminoso a sua frente e viu que o próximo trem a sair seria o Japerí. Neste mesmo que embarcaria, já tinha feito esta mesma viagem umas três outras vezes. Gostava dela. Era longa, talvez a mais longa que saia dali.
Entrou no trem, escolheu um vagão ao acaso, sentou-se, tirou de sua bolsa o jornal, mas não começou a ler imediatamente, o deixou dobrado sob o colo. Das outras vezes começara a ler na hora que o trem começou a andar e terminou justamente no fim da linha. Queria testar a coincidência novamente.
A espera ficou um pouco longa demais, sua cabeça ficou vazia e parou de prestar atenção tão obstinadamente em tudo ao seu redor. Uma pessoa sentou-se ao seu lado de forma brusca e lhe deu um encontrão.
Tinha ficado parado depois de tocá-la, ficou com o braço colado no dela não sabe dizer por quanto tempo, mas mesmo assim sentia até hoje aquele toque, aquele calor que o corpo humano produz.
Num safanão o trem pís-se a andar, voltou para o presente e a paisagem oscilou de um lado para o outro. Trens parados foram ficando para trás, o jornal também foi ficando parado em seu colo.
No meio de todo aquele caos, sentiu-se bem, quer dizer um pouco aliviado, quando lhe disseram que iria com eles. Pegou a chave de seu carro e deu para um deles. Quando ouviu a porta de seu apartamento se fechar, entendeu que pelo menos para sua esposa e seu filho o pior tinha passado, mesmo que estivessem amarrados e muito machucados, eles estavam vivos. Ver a Av. Brasil correndo pela janela de trás de seu carro lhe trouxe alívio.
Lá fora o Sol ia acordando casinhas humildes muito grudadas na linha. Via pessoas saindo para o trabalho, o cotidiano acordando e dizendo: Olha! Eu também sou legal! Seu vzZinho de poltrona estava um tanto próximo demais dele e isso ia lhe fazendo lembrar.
Tinha ficado impressionado com os peitos dela, estavam bem a mostra, sua camisa rasgada sob o corpo. Estava nua, mas ele só podia olhar para os peitos. Sujos de terra e lama, aliás, como os seus cabelos também. Uma folinha seca estava justamente sobre seu mamilo esquerdo, preso, parecendo uma fantasia de Eva.
Alguns lugares pareciam bem barra pesada, na verdade pareciam pontos de venda de drogas. Deviam ser. Numa das plataformas viu um sujeitinho encapuzado, com um dos pés encostados na parede de uma estação, parecia ser um deles. Já os tinha visto tanto em todo o Mundo e todos os lugares que se habituou a desfazer destas impressões, mas mesmo assim não podia evitar a taquicardia quando elas ocorriam.
Lá no fim da Brasil viraram à direita e ele pode ler Campo Grande numa placa. Ainda seguiram por mais uma meia hora. Finalmente estavam em silêncio, depois de terem vindo fazendo graças sobre as intimidades de sua esposa, sobre os olhos de seu filho, dizendo que ele seria bicha e outras atrocidades, rindo daquilo tudo que para ele tinha sido até então uma merda de pesadelo. Pararam num lugar muito escuro. O cara com casaco de moletom lhe mandou sair do carro, ele saiu. Pode notar que estava no alto de um morro coberto de mata…
Entraram os mais diversos vendedores no vagão. Podia-se comprar de tudo naqueles trens, balas, canetas, lapiseiras, artigos de descascar legumes, chocolates, amendoim, um conjunto de agulhas para qualquer tipo de costura. Gostava dos vendedores eles o distraíam. Gostava mais ainda dos Pastores, eles cantavam alto e desde que você não prestasse muita atenção no que diziam, eram excelentes distrações.
Lembrou-se da primeira viagem de trem que fizera, entrou sem saber justamente no vagão dos Cristãos. Ah, fora uma alegria. O barulho era tamanho, que sua mente foi ocupada totalmente por aquelas pessoas. Deve ser este o propósito Divino destas criaturas.
Depois de olhar bem para os seus peitos, finalmente olhou para sua vagina. Tudo estava sujo de terra, seus pelos eram fartos e tinham pedaços de lama seca presos neles, podia ver também, agora que o Sol lhe atingiu, uma secreção avermelhada e coagulada saindo da vagina. Só parou de olhar para ela quando uma mosca zumbiu perto de seu ouvido e pousou em sua cara. Finalmente teve coragem de se levantar, deixando-a deitada.
Uma das beatas desatou a gritar Aleluias e Améns histéricos, quase se levantou e a beijou agradecido.
Quando se virou novamente para o carro, viu o cara de moletom com uma arma apontada para ele. Ouviu o disparo, sentiu uma tijolada no peito esquerdo seguida de uma longa queda.
Já estavam em Belford Roxo e o jornal ainda não tinha sido aberto. Abriu e olhou para as manchetes, nada ali lhe deu a menor vontade de prosseguir com a leitura. Muito do mesmo, sempre, do mesmo sempre ruim.
Não sabe dizer como, mas acordou. O céu estava clareando. Ficou deitado e quis se mexer, mas imediatamente seu ombro doeu muito, se deixou ficar ali mais um tempo. Foi então que a percebeu ao seu lado, virou a cabeça e viu os seus peitos subindo e descendo numa respiração bem leve. Depois de conseguir sentar-se olhou finalmente para o resto de seu corpo, primeiro foram as pernas que estavam tortas de um jeito estranho, pode ver que na perna direita um osso havia furado a carne e se mostrava pontudo. Tudo estava coberto de coágulos e lama. Tomando coragem olhou para a cabeça, sem encarar seu rosto. Uma ferida aberta mostrava o interior do crânio. Duas moscas estavam pousadas justamente ali. Ficou de pé. Uma urgência o propelia daquele lugar. Apoiado num galho que pegou por ali, olhou finalmente para o rosto dela. A boca de tão inchada não fechava deixando o maxilar esmagado à mostra. Tudo estava tão normal, pássaros cantando, barulho de vento na mata, uma calma imensa e ele olhando para ela, que abriu os olhos.
Assim que saiu do hospital e pode retomar suas atividades, deixou o emprego. Levou sua esposa e filho para a casa da sogra na Região dos Lagos e começou as suas tentativas de deixar de pensar em tudo aquilo. Lembrou-se da fuga pela Av. Brasil e de como, meio que sem querer, sentiu-se calmo com o movimento do carro. Foi então que tentou os trens e, com grande surpresa, viu que podia dar certo. Tudo saiu bem até uns três dias atrás quando as memórias foram voltando de forma insistente e intensa.
Olhou para os olhos dela, viu medo neles. Sem hesitar, pegou sua bengala improvisada, quebrou-a e enfiou uma das metades bem profundamente no interior da ferida em sua cabeça. Sentiu o medo desaparecer dos olhos dela. Sentiu também que algo foi morar para sempre dentro dele.
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