Inspirado no conto “Shazam”, de Moacyr Scliar.
Lido em 17 de fevereiro de 2009.
No fim da exposição, o velho sentava-se em uma cadeira. Sozinho. Olhar sereno e distante.
“Que interessante isso que você tem aqui.”
“Obrigado.”
“Foi você quem fez tudo?”
“Sim, senhor. Sozinho…”
“Deve ter dado muito trabalho!”
“Ah, nem tanto!”
“Como não? Imagina o esforço e a dedicação que a pessoa precisa ter pra construir algo assim!”
“Não é um trabalho tão difícil…”
“Pode até não ser. Mas não é só isso; hoje em dia as pessoas só querem construir algo que seja “útil”, que traga retorno imediato, que dê lucro, que possa ser aproveitado e medido em termos materiais. Ou, no máximo, se preocupam com a opinião dos outros, querem criar coisas “nobres e dignas”, que dêem status e repercussão na mídia… Ninguém quer fazer como você fez, com tanto capricho e esmero, só por fazer uma coisa bem feita, sem nenhum resultado em mente. Quanto mais pra coisas que são taxadas como “besteira”, “fantasia juvenil”, “fuga da realidade”… E o que você fez aqui é coisa que já não se vê mais hoje em dia, sabe? Talvez por ser alguém tão velh… Ahn… Desculpa… Eu acho que me empolguei e… Ah… Eu quis dizer alguém experiente, vivido. Quer dizer… Droga, que coisa!”
Pela primeira vez a voz do velho ressoou alta, viva, ecoando o ambiente. Seus olhos azuis, quietos e foscos momentos antes, de repente pareciam conter um fogo insuspeito. Soltou uma gargalhada antes de dizer: “Tudo bem, meu rapaz. Você é mesmo jovem, e estes olhos já viram mesmo muita coisa…”
O tom alegre e bem-humorado na voz quase não deixava perceber um quê de algo entre tristeza e melancolia, quem sabe de saudade…
“Falando assim você deixa um pobre velho encabulado…”
“Não, eu é quem fico encabulado diante de um trabalho desses. Coisa de artesão! Dá pra ver o capricho em cada um dos detalhes… Você deve ter tido muita paciência mesmo…”
“Mais do que paciência, é preciso amor pelo que se faz, e não desistir nunca do que se acredita…”
“À verdade. Só com amor mesmo pra uma simples galeria de estátuas de cera ter tanta imponência, tanta majestade… Parece até que estão vivos! Mas onde foi que você encontrou um amor assim por um tema tão menosprezado como personagens de histórias em quadrinhos?”
Pareceu meditar durante alguns segundos, cogitando alguma coisa. Se endireitou na cadeira e disse, quase em tom de confidência:
“Escute… Quer ouvir uma história?”
“Há muito tempo atrás…
Era uma vez todas as histórias em quadrinhos que você já leu. E todas eram verdade. Do jeitinho mesmo que está escrito, sabe? Heróis de uniforme colante e capas povoavam os céus, vingadores noturnos ocultos nas sombras, anjos e demínios andando lado a lado nas ruas. Cada dia era uma aventura, sempre nova, só uma coisa não mudava nunca: A luta contra o bem e o mal era eterna.
Os dias eram repletos de batalhas homéricas pintando o firmamento com raios e explosões nas cores do arco-íris, e de noite os cidadãos podiam dormir sossegados, com a certeza de que seu sono estaria protegido por seus campeões.
E no dia seguinte tudo se repetia, as batalhas eram guerreadas, os adversários derrotados, o mal era vencido. Porque o bem precisa do mal pra existir. Você já parou pra pensar nisso? Nunca? Pois eles também não pensavam. As coisas apenas eram como eram.
Quem não ficava muito satisfeito com a ordem das coisas, claro, eram os inimigos. Mas quem é que prestava atenção neles? Fazia parte do seu papel ficar quieto atrás dos seus peões enquanto o campeão do bem avançava, pra no momento final surgir vociferando, cantando vitória até ser vencido por um gancho de direita bem dado. Cientistas loucos, mandarins, mafiosos, alienígenas, não importa: todos tinham seu bordão característico e sumiam no final da história, presos, fugidos, não importava. E eles sempre voltavam, aquelas eternas nêmesis.
Até que um dia, não se sabe muito bem como, não se sabe bem de onde, algo mudou. Os vilões se rebelaram. Claro que se rebelar era o que sempre se esperava dos vilões, mas eles de alguma forma deram um basta a tudo. À ordem vigente. O mundo parou de fazer sentido, as coisas viraram de pernas pro ar, tão rápido que ninguém teve chance de entender o que estava acontecendo, quanto mais de tomar alguma atitude:
Foi assim: do dia pra noite, os heróis deixaram de existir. Simplesmente não faziam mais parte do mundo. Não é que tenham sumido. Não foi só isso, é algo mais sutil. Veja bem: eles nunca tinham chegado a existir! Ao invés de um mundo de explosões e cores, os dias eram pintados em cinza e preto e branco, e ao invés de monstros e maravilhas, as ruas estavam cheais de policiais, bêbados, trabalhadores e prostitutas. Do dia pra noite o universo perdia seus maiores heróis e nem ao menos ia ficar sabendo disso…
Ciência do mal? Magia negra? Conspiração alienígena? Não importa. Estava feito. Não podia ser evitado. Não havia nada a se fazer. A batalha estava perdida. De uma vez por todas… E, como um gostinho de crueldade, um detalhe macabro, eles (seja lá quem eles forem) fizeram questão de reservar um lugar nesse novo mundo para cada um dos antigos heróis, só que sem os seus poderes, a sua beleza, a sua glória grandiosa. Apenas com memórias belas e amargas, que só eles compartilham…”
“Nossa, que história triste!”
“Triste? Aí é que você se engana!”
“Como assim?”
“Porque ninguém disse que é assim que a história termina. Os vilões conseguiram apagar do mundo a presença dos heróis, mas nunca vão conseguir desfazer as marcas de sua passagem. As pessoas podem se esquecer dos heróis, mas algo sempre vai estar presente no fundo de suas memórias e queimando em seus corações… Sabe porquê? Porque os vilões foram bem-sucedidos em seu ataque contra os heróis, mas esqueceram de ir contra tudo aquilo em que eles acreditavam e pelo que eles lutavam: eles se esqueceram de apagar os sonhos e a esperança.”
* * *
À noite, antes de dormir, ficou pensando na história que o velho tinha lhe contado. Era uma história Engraçada. Bonita e triste ao mesmo tempo. Mas era uma história como qualquer outra.
Apesar disso, não conseguia pensar de pensar naqueles olhos. Olhos que pareciam já ter visto muito mesmo…
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