Inspirado num trecho de “Na Patagínia”, de Bruce Chatwin.
Lido em 18 de novembro de 2008.
Uma vastidão reta se estendia à frente do carro. Este só oscilava nas tentativas de fugir dos buracos no asfalto velho. Já estavam andando em linha reta, sem parar, há mais de três horas. Poucos carros passavam por eles e menos ainda eram ultrapassados, fato que extremava a sensação de vazio. Música era tudo o que ouviam, mas depois de tantas horas ela acabou se cansando e desligou o som. Restou-lhes o ruído do atrito das rodas com o chão.
Ela virou-se para olhá-lo de perfil. Ainda é bonito, pensou. O nariz altivo de antes agora estava um pouco maior; os olhos claros, quase azuis, ganharam um destaque maior naquela moldura de pequenas rugas que circundavam suas órbitas. Ele era bonito mesmo com as rugas; ficou mais charmoso, grisalho, do que com os cabelos quase palha de antes. Seus braços seguravam o volante e ela viu que ainda eram rígidos, definidos. Os anos foram mais generosos com ele do que com ela. Ele nunca adoecera. Nem pressão alta ele tinha. Enquanto ela tinha que tomar umas cinco pílulas por dia, ele só tomava uma à noite, assim mesmo só para ajudá-lo a pegar no sono. Embora tivessem os mesmo 75 anos, ela se achava muito mais velha do que ele.
Quando se deu conta de que era observado, virou-se em direção a ela com um sorriso. Ela retribuiu e virou-se para a estrada reta e infinita.
Quase não se falavam. Aprenderam a viver sem trocar palavras. Tinham uma rotina tão bem estabelecida que bastavam olhares recíprocos, em certos momentos, e já sabiam que era hora de almoçar, jantar, sentar para ver TV ou ir dormir. Mesmo ali, fora de casa, este hábito se infiltrara e iam, ao longo do deserto, em silêncio.
Olhando para a enorme cadeia de montanhas ao longe lembrou-se de quando ele a encarou e, para sua surpresa, disse: Meu bem você está com um olhar tão triste ultimamente. Só quando o ouviu se deu conta do profundo estado de tristeza em que estava. Escondida nessa rotina de silêncio fora ficando cada vez mais isolada de tudo desde que sua filha. Ainda mais depois que a filha, foi morar na Argentina.
A vida dela era ir e vir a consultas médicas, e só. Não podia culpá-lo, pois era sempre muito atencioso com ela. Passou a levantar-se depois que ele dormia e ficava, í s vezes, a noite toda acordada no escuro, olhando para ele, vigiando sua respiração, seus sonhos, e ficando muito, cada vez mais, alarmada com o fato de que ele ainda tivesse ereções noturnas quando suas trepadas haviam parado há pelo menos 10 anos. Quando flagrava uma ereção, sentia-se extremamente traída.
Quando ele reparou na tristeza de sua esposa, teve a idéia de viajarem ao encontro da filha, só para tentar alegrá-la. Esforçou-se muito para que ela se animasse com os planos. Sugeriu que não fossem só a Rosário, cidade onde a filha morava, mas que estendessem a viagem para outros lugares. Passou a levá-la para ajudá-lo nos preparativos da viagem, mas nada daquilo lhe causava grandes excitações.
Um dia ele a chamou para irem comprar as passagens. Ao chegarem à agência de viagens foram atendidos por uma mocinha muito simpática, com um sotaque portenho e algo começou a incomodá-la. Inicialmente, não distinguiu o motivo, mas lentamente foi entendendo que a maneira como ele falava com a mocinha estava um tanto doce demais. Ficou quieta, sentindo-se meio boba com o ciúme que sentia, mas algo explodiu dentro dela quando viu que ele, assim como quem faz sem querer, aproximou a lateral de sua mão e roçou de leve a mão da moça. Viu o olhar dele, aquele olhar que fora seu um dia. Sentiu-se morta. Substituível como um criado mudo.
Aprofundou-se em si mesma por uns bons dias até que lhe ocorreu a grande idéia que agora, durante a viagem se desenrolava.
Ficou animada subitamente. Começou a participar dos planos, sugeriu que alugassem um carro e descessem até a Patagínia. Quem sabe até comprassem uma barraca de camping para umas noites sob as estrelas? Sentindo-se renovada, entregou-se aos preparativos, tinha muito o que planejar e descobrir para a perfeita execução do seu intento. Mas a Internet tudo ensina e no Rio de Janeiro o ilícito está ali na esquina.
Enquanto iam para dentro da imensidão, com as rodas cantando aquela cantiga hipnótica, viu a tarde ir ficando rosa e o Sol iniciar sua decida. Sabia, desde que acordara, que aquele seria o dia. Agora, finalmente, aproximava-se o momento de por as engrenagens do plano em movimento.
Olhou para ele com mais insistência e prontamente ele procurou um local adequado para deixar o carro e montar a barraca. Quando saíram do carro, sentiram que seria uma noite de ventos mais fortes e mais fria que a anterior, mesmo com o céu completamente sem nuvens. Enquanto ele montava a barraca, prendia os pinos etc., ela pegou o fogareiro e iniciou o preparo de um macarrão instantâneo para os dois. Caprichou no molho, pegou uma garrafa de vinho caro e a entregou junto com o saca-rolha a ele.
Quando se sentaram para jantar, o céu estava completamente vermelho. Brindaram com os copos plásticos e comeram o macarrão. Quando escureceu, acenderam a lamparina e ficaram deitados juntinhos olhando para as estrelas. Após algum tempo ela levantou-se e quebrou o silêncio de quase um dia inteiro, perguntando se ele já queria tomar seu remédio.
Ele fez que sim com a cabeça. Ela lhe estendeu a mão com duas pílulas. Ele a olhou um tanto incerto sobre o que significava aquilo. Ela tinha a absoluta certeza de que ele nada perguntaria e assim foi. Bastou que ela lhe abrisse um sorriso para que ele engolisse as duas pílulas com o restinho do vinho de seu copo. Ela também tomou os mesmos comprimidos.
Beijou-lhe a boca, ficando um longo tempo com os lábios colados. Sentiu-se desejada ao ter as mãos de seu marido descendo por suas costas. Quando a língua dele se insinuou para dentro de sua boca, chupou-a acariciando os seus cabelos.
Ficou de pé e estendeu as mãos para que ele fizesse o mesmo. Nessa hora, uma lua enorme e azulada surgia no céu. Foram para a barraca, mas antes de entrarem, se abraçaram longamente, reiterando suas presenças naquele relacionamento tão longo. Quando entraram, já estava bem frio e cada um, depois de vestido o pijama, se enfiou no seu saco de dormir, puxando, ambos, um grosso edredom, que cobriu os dois. Durante todos estes preparativos não desgrudaram os olhos um do outro. Aquilo foi causando nela uma sensação entre as pernas que há muito não sentia. Seus olhos ficaram semi-abertos e com seu indicador ela iniciou o que há muito não fazia. Enquanto se masturbava, ela o via, em silêncio, em seu adormecer. O vento batia com fúria sobre a barraca. Sentiu os dedos dos pés e das mãos adormecendo, dando-lhe a sensação de que aquela mão em sua vagina não era dela. Este pensamento fez com que soltasse um gemido abafado e, imediatamente, um sono imenso tomou conta de todo o seu corpo. Antes de fechar os olhos, o viu totalmente inerte ao seu lado.
Naquela noite, o vento foi tão forte que arrancou as fixações da barraca. Só não conseguiu arrastá-la porque dois pesos, como pedras, a seguraram.
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