Inspirado num trecho de “Na Patagínia”, de Bruce Chatwin.
Lido em 18 de novembro de 2008.
Primeiro veio a idéia. Sim, é bom quando as idéias precedem os atos. Não necessariamente, claro. Atos impulsivos podem ser inesquecíveis, mas no meu caso a maioria dos atos impulsivos me trouxe graves consequências e grandes arrependimentos. Melhor não.
No meu sonho mais recorrente vislumbro por uma pequena janela uma paisagem selvagem e deslumbrante, e levanto vío em direção à ela. Mas na verdade aquilo não passa de um lixão, eu caio, morro, e todos pensam erroneamente que me suicidei, mas não é verdade, eu apenas voava ícaramente em direção ao sol.
A idéia veio crescendo lentamente, coisa de anos.
Comecei a me organizar. Juntei algum dinheiro, e nem foi muito difícil. Fui abrindo mão de algumas coisas burguesas que antes achava imprescindíveis, e descobri que podia perfeitamente viver bem e até melhor sem elas. Carro, TV à cabo, banda larga, roupas, jantares, empregada, academia. Fui simplificando e barateando a minha vida. Andando á pé, de ínibus, de metrí. Lendo mais livros usados, dormindo mais cedo, caminhando na praia, nas ruas, reconhecendo a cidade, apurando o olho, comprando o pouco que passei a precisar em feiras e camelís. Tomando cerveja de garrafa, limpando a minha casa, cuidando da minha roupa, preparando a minha comida.
Fiz um bazar em casa e chamei os amigos. Vendi CDS, livros, roupas, os copos herdados, coleções (que patético, hoje, me parece o ato de colecionar!), revistas , móveis, quase tudo. Fiquei com o essencial, com o que eu realmente uso, e mais um dinheiro no banco.
O mais difícil foi roubar os documentos do meu irmão. Como ele é apenas dois anos mais moço que eu, e todos na família somos bem parecidos, eram os documentos perfeitos. Num churrasco de fim-de-semana na casa dele, onde a família toda estava reunida, entrei no quarto morrendo de medo, mas entrei. A carteira estava em cima da mesa de cabeceira, então foi até bem fácil e rápido. Pobre irmão, lhe dei um bom trabalho e muita preocupação. Não entendeu até hoje onde perdeu os documentos, ou porque alguém da família os roubaria. Infelizmente as suspeitas recaíram sobre um primo meio marginalzinho e sua prole de tatuados, mas a culpa da má fama alheia não pode ser creditada à mim.
Fiz um acordo no meu trabalho, pedi demissão e peguei o meu fundo de garantia de dez anos de trabalho. Engordei o cofrinho.
Amanhã entrego o apartamento.
Ontem foi um dia crucial. Fui à um barbeiro no centro, e cortei o meu cabelo bem curto, um corte masculino. Os óculos eu já tinha mandado fazer antes, uma armação bem grossa e fora de moda.
Depois fui à uma loja popular e comprei roupas de homem, poucas, o suficiente para uma mala pequena. Duas calças, uma bermuda, cuecas, um sapato, uma sandália, um casaco, algumas camisas, tudo discreto, inexpressivo.
Estou praticamente irreconhecível.
Na saída da loja comprei uma sacola de viagem barata e um relógio pesado num camelí. Estou pronto. Os amigos sabem que vou viajar, meus pais não. Hoje coloquei uma carta para eles no correio, e à partir de amanhã eles não terão mais como me achar. Nada de celular, nada de e-mail.
Não sei para onde vou, só sei que vou partir.
Sem pernas depiladas, sem tinta no cabelo, sem esmalte nas unhas. Nenhum esforço civilizatório me acompanha.
Estou indo para o desconhecido, estou voando em direção à paisagem selvagem e sedutora que enxergo pela pequena janela, e se meu corpo for achado num lixão, sem problemas: ainda assim estará mais vivo que essa massa entediada que tenho arrastado por aí.
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1 resposta
Carmen, esse conto tem um efeito terapêutico em mim. Me dá uma sensação boa de coerência e de leveza. Ã?tima idéia de deixar só o essencial e começar uma vida mais simples, “sem esforço civilizatório”.
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