Inspirado num trecho de “Na Patagínia”, de Bruce Chatwin.
Lido em 18 de novembro de 2008.
A cuia de amargo de Antínio deslizou de sua mão até rolar moleca pela relva úmida da cordilheira. O líquido quente se espalhou pela grama gélida em formas concêntricas até chegar a sua nuca. Uma leve sensação de alívio o atinge. Respira em espasmos. Frio e confusão. O grito ecoa em sua mente como ventania noturna.
“Vancê vai morrer”. ” e bang. Tudo muito rápido.
Ordem do coronel Fanfa? Tudo por causa de um bagual assoleado. Ficou com reputação de aldragante. Mentira. O bragado não era do tipo que se podia amanonsiar. Fazer o quê? O aruá caiu de corincho. Coronel no chão, que nem maturrango, diante das tropas. Agora, Antínio morreria em sua querência. Aquela cordilheira com vasta vista para o horizonte, onde a revolução estourava, abaixo do manantial. Não iria aiar. Segura. Vai morrer como homem.
A luz forte do amanhecer bate em seus olhos. O amarelo quase branco o cega e Antínio vira a cabeça. Vê o baio caído no chão, apagado na poça de seu sangue. Bóia na grama preguiçoso, como a vida se esvai de suas mãos, em miangos. Tudo por causa de um bagual que o coronel se embeiçou. O cajetilha insiste que é redomão, não aceitou discordância. O vaqueano chiru é o culpado. “Vancê não apertou o lombilho!” “Vosmecê me desculpa. À o pangaré! Não é flete, eu disse, coronel.” Coronel Fanfa achou que Antínio estivesse de farromeirice. Por isso, cerrava os olhos, imóvel, em meio ao ar gelado de mais uma manhã ensolarada nos pampas.
Tudo que Antínio desejava agora é um amargo. O que tinha derramado já tinha oriado no pajonal. Talvez uma jacuba, enquanto baforava seu baio em tragadas súbitas, só para afastar o frio. Os olhos cerravam mais, sendo levado por um sono que o tocava com a brisa do amanhecer, inevitável e constante. Tudo por causa de um bagual…
Antínio morre. A luz agora é uma cortina alaranjada em suas vistas. Escuta uma voz. Um campesino encontrou seu corpo. Jura vingança. Quem fez isso vai pagar. Mais sangue para adubar a terra sedenta por almas. A grama nunca esteve mais verde desde que a revolução transformou seus filhos em um monte de torenas e trabuzanas tironeados! Todo farroupilha com uma traíra encheu o coração de entono, sem saber que eram um estouro de mancarrões! Tudo por uma carrança utópica! Utópica? Utopia? Isso está certo? Escuta um celular tocando. Justo agora!… Não importa mais por esta noite. As trevas assumiram o palco de vez e era o fim. Mas “utopia” não era moderno demais?
“Ora, tchê, que isso importa? Tu tava lá pra saber?”
Estavam em cartaz há semanas e a temporada terminaria no final do mês. História não é escrita pelo momento, mas pelas gerações futuras. A reencenação a revive de acordo com o gosto do freguês. Foram tomar vinho no bar da esquina e não pensaram mais no passado.
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