Inspirado no conto “Escorpião”, de Paul Bowles.
Lido em 23 de setembro de 2008.
Ah, Senhor, hoje eu estou exausta, exausta mesmo. Ah, senhor, cuide bem da alma do Dr. theobaldo. Ele era um homem bom, muito bom mesmo. Minhas pernas estão me matando, meu são Judas. Bem que ele e a doutora dizem que eu tenho que operar as varizes. Mas eu tenho medo que me pelo. Ah, Senhor, tomara que me deixem ficar aqui um pouco quieta, aqui no meu quartinho.Eu nunca fecho a porta, mas dei uma encostada. Ainda bem que as meninas estão aí, ajudando a servir. Todo mundo veio para cá depois do enterro. Essas semanas foram tão cansativas. A doutora, que mal pode andar, teve que ir ao hospital todo dia para visitá-lo. Eu ajudo ela, mas as minhas pernas também não estão mais agüentando. Quantos anos trabalhando pra eles, mais de cinqüenta. Eles tinham acabado de casar. Eu dei muita sorte. Ah, que cafezinho bom…com bastante açúcar, do jeito que eu gosto. Era isso que eu estava precisando. Tirar os óculos, esticar as pernas, descansar um pouco. E essas costas também estão me matando, eu estou cada dia mais encurvada, encolhendo que nem a dona Bartira, que morreu pequenininha, a doutora já falou. Mas fazer o quê, é da idade, mesmo. Da lida. Cozinhar, lavar, clarear os jalecos, passar a roupa. Eu não reclamo, não. Deus me livre, meu santo. Seria até blasfêmia. Eles são tão educados…até quando o doutor tomava o uísque dele nunca perdia a linha. Nunca. Ele deixava escondido aqui no meu quarto, a bebida e o cigarro.Pra doutora não ver.Ria, piscava o olho, fazia um sinal pra eu ficar quieta. Eu ficava, né. Mas agora me sinto mal, será que eu ajudei o doutor a morrer antes do estabelecido? A cidinha diz que não, pra eu não me preocupar. Ela é uma filha muito amorosa, fez o que pôde pelo pai. E ela me disse que sabia que ele bebia e fumava escondido, mas é que o cancro já tava grande, mesmo, não tinha mais jeito, já tava espalhado. Ai, que frio que eu tô sentindo, vou me embrulhar bem no meu xale, no xale que a dona Neide me deu. Ela mesmo que tricotou, tão boa, também…não sei porquê, to me lembrando de quando eu era garota. Eu chorava tanto, não queria ser preta, nem pobre. Cada lugar horrível, meu Deus, não gosto nem de lembrar o que eu penei até chegar aqui nessa casa. E achei tão engraçado, dois doutores pretos.Eu achava que preto não podia ser doutor! Como eu era ignorante. E foi bom, eles nunca terem mudado daqui. Tem gente que vive com a casa nas costas. A cidinha e o dé bem que tentaram, queriam ir pra zona sul. Mas o doutor disse que tinha nascido em Cascadura, tinha clientela em Cascadura e que ia morrer em Cascadura.A doutora concordou. Nunca vi um casal tão unido, parece até casal de novela. Mas novela é mentira, né, meu santo, e eles são unidos mesmo. Só falam em voz baixa , são tão calmos. E quando a doutora ralhava , ele reclamava um pouquinho e depois ria. E aí ela ria, também. Ah, meu Deus, to ouvindo o dezinho chorando…gostava tanto daquele pai…ta todo mundo aqui que nem criança, sabe, todo mundo, as crianças, a doutora, até eu, que tô com um nó aqui na garganta, acho que é choro preso,e um frio, um frio, uma ausência aqui no peito, uma dor que vai formigando pelo braço, uma pontada forte no coração, um pretume no olho.
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