Inspirado em “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio.
Lido em 3 de junho de 2008.
ELA:
Seis centímetros de dilatação. Eu estava bem acordada e sentia as contrações. A freqüência estava de dez em dez minutos. Pressentia que seria um menino. Nada senti quando o médico estourou a bolsa com uma espécie de agulha de crochê e a água escorreu silenciosa. Veio o anestesista e me preparou para a peridural. Fui levada para a sala de parto numa maca.
Depois de algumas contrações nasceu um menino grande e saudável, de parto normal. Ele tinha cabelos louros e os olhinhos não pudemos ver naquele momento. Senti-me vitoriosa.
Ao sair da maternidade a enfermeira me entregou aquela trouxinha. Hora crucial, não havia me preparado para isso. “Como assim, nos meus braços, para sempre, quer dizer, longo prazo?” Estava ainda mais assustada do que antes do parto. Como seria conviver com aquele menino?
Chegamos em casa e começou a rotina dorme-mama-fraldasuja. Por motivos óbvios preferia quando ele dormia apesar da interessante comunicação que fomos construindo. Era difícil lidar com o tempo e ele acordava antes das 6 horas da manhã. Eu lhe dava o peito e saíamos, sem rota, para o primeiro passeio do dia. Os passeios eram a melhor parte do dia. Empurrava o carrinho muito depressa, principalmente de manhã quando havia menos gente na rua. Corria para apressar o tempo. O bebê sacolejava na cestinha quando eu passava por buracos ou pedras sem cuidado e sem desacelerar. Só pensava em seguir sem destino, e me sentia sem destino. Queria que o bebê crescesse e não precisasse tanto de mim.
Com seis meses dos nossos passeios as rodas do carrinho estavam bambas e carecas. Mudamos de carrinho, eu ainda atormentada por aquela rotina simbiótica. Até agora não mencionei outras pessoas no nosso universo de mãe e filho. De fato era como se não existissem. Estou tentando lembrar, vinte e nove anos depois, do que havia de bom. O cheirinho do bebê. As roupinhas pequenas. Os pezinhos de anjo. A gengiva sem dentes quando ria. Gostaria de lembrar algo de bom internamente, além do cenário, assim como serenidade, esperança e alegria pela liberdade.
ELE:
Eu estava na penumbra imerso em água morna e pulsante. Não sabia de onde vinha ou como havia chegado lá, apenas sabia que existia e podia girar e me espreguiçar. Acompanhava-me uma voz feminina que cantava e falava comigo. Percebia quando estava cansada, zangada ou contente. Estava crescendo, ficava cada vez mais apertado e eu queria muito sair. Se eu fosse um gênio precisaria de quem abrisse a lâmpada. Se estivesse dentro de um vulcão, este estaria entrando em erupção. Sim, estava e uma forte turbulência me espremeu e expeliu. Contorci-me para passar e alguém já estava me esperando do lado de fora.
Mal pude abrir os olhos com tanta claridade, chorei um pouco, talvez muito. Deitaram-me sobre ela, a dona da voz, linda com seu rosto vermelho e suado. Ela me aninhou e assim parei de chorar. Nada podia manifestar, com meu corpo indefeso e sem recursos, apesar de minha mente estar tão vívida e minha percepção tão aguçada.
Deixamos aquela casa onde cheguei e a moça, que disse se chamar Mamãe, me levou com ela. Não sei porque Mamãe estava angustiada e não tão feliz quanto eu.
Meu berço era bem mais confortável do que na barriga dela. Papai tentava fazer amizade conosco mas, por enquanto, mamãe e eu tínhamos pouco tempo para ele. Nosso dia era ótimo. Mamãe tinha muito leite e fazíamos muitos passeios na rua. Quando ela andava bem depressa e eu via os galhos altos das árvores riscando o azul do céu como um fósforo, eu me divertia pulando e chacoalhando dentro do carrinho.
Estou tentando lembrar, vinte e nove anos depois, de pequenas coisas que não eram boas no cenário dos meus primórdios. Dias de chuva. Vacinas. Papai com ciúme. Fome antes de mamar. Fralda ensopada de manhã. Tias que apertavam bochechas.
Artigos Relacionados
3 respostas
Adorei o “papai tentava fazer amizade conosco mas, por enquanto, mamãe e eu tínhamos pouco tempo para ele”. Isso é ótimo! Coitado do papai!
Que maravilha de texto, Deborah !!! É a relação naturalista e simbiótica entre dois seres. Nota dez.
q bom me relembrar deste conto maravilhoso, com as perspectivas convergentes de mãe e filho narrando o q é impossível de narrar!
Deixe seu comentário