Este fragmento do romance "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto" foi lido por Vivian no encontro de 5 de maio de 2009.
A meu filho que ainda não nasceu:
não fui sempre mudo, costumava falar e falar e falar e falar, não conseguia manter a boca fechada, o silêncio se apoderou de mim como um câncer, era uma das minhas primeiras refeições na América, tentei dizer ao garçom: "O modo como você acabou de me passar essa faca me lembra...", mas não consegui terminar a frase, o nome dela não vinha, tentei mais uma vez, não vinha, ela estava presa dentro de mim, que estranho, pensei, que frustrante, que patético, que triste, peguei uma caneta do meu bolso e escrevi "Anna" no guardanapo, aconteceu de novo dois dias depois, e de novo no dia seguinte, queria falar somente a respeito dela, continuou acontecendo, quando não tinha uma caneta eu escrevia "Anna" no ar " ao contrário e da direita para esquerda -, para que a pessoa com quem eu estava falando pudesse enxergar, e quando estava ao telefone eu discava os números " 2,6,6,2 ", para que a pessoa pudesse escutar o que eu era incapaz de dizer por conta própria. "E" foi a próxima palavra que perdi, uma palavra tão simples de dizer, uma palavra profunda demais para ser perdida, eu precisava dizer "conjunção", o que soava ridículo, mas fazer o quê, "Gostaria de um café conjunção alguma coisa doce", ninguém seria assim por opção. "Querer" foi uma palavra que perdi bem no início, o que não quer dizer que parei de querer coisas " queria as coisas mais ainda -, mas perdi a capacidade de expressar o querer, então em vez disso eu usava "desejar". "Desejo dois pãezinhos", dizia ao padeiro, mas não era bem isso, o significado de meus pensamentos começou a flutuar para longe de mim, como folhas que caem de uma árvore para dentro de um rio. Perdi "aqui" certa tarde com os cães no parque, perdi "bom" quando o barbeiro me virou de frente para o espelho, <--more--> perdi "vergonha" e "envergonhar ao mesmo tempo; foi vergonhoso. Perdi "carregar", perdi as coisas que carregava " "diário", "lápis", "trocados", "carteira"-, perdi até mesmo "perda". Após algum tempo, me restou apenas um punhado de palavras, se alguém fizesse uma coisa boa para mim eu dizia, "A coisa que vem antes de "de nada"", se estivesse com fome apontava para o estímago e dizia, "Estou o oposto de empanturrado", já havia perdido o "sim" mas ainda tinha o "não", por isso se alguém me perguntava "Você é Thomas?", eu respondia "O inverso de não", mas perdi o "não", fui a um estúdio de tatuagem e mandei escrever SIM na palma da mão esquerda e NÀO na palma direita, o que posso dizer, minha vida não se tornou uma maravilha mas se tornou viável, quando esfrego uma mão na outra em pleno inverno estou me aquecendo com a fricção entre SIM e NÀO, quando bato palmos manifesto meu contentamento através da união e separação de SIM e NÀO, indico "livro" abrindo minhas mãos unidas como se fossem páginas, todo livro é, para mim, o equilíbrio entre o SIM e o NÀO, até mesmo esse, meu último, especialmente esse. Cada momento de cada dia me quebra o coração em mais pedaços do que meu coração é feito, é claro, nunca pensei em mim como uma pessoa quieta, que dirá calada, nunca pensei nas coisas, tudo mudou, o vão que se encravou entre mim e minha felicidade não foi o mundo, não foram as bombas e prédios em chamas, fui eu, meu pensamento, o câncer de jamais superar, se a ignorância é uma bênção eu não sei, mas é tão doloroso pensar, e me diga, de que me serviu o pensamento, a que grande lugar o pensamento me levou? Penso e penso e penso, pensar já me levou para longe da felicidade muitas vezes, mas nunca ao encontro dela. "Eu" foi a última palavra que pude dizer em voz alta, o que é terrível, mas fazer o quê, andava pela vizinhança dizendo, "Eu eu eu eu". "Você quer uma xícara de café, Thomas?" "Eu." "Quem sabe algo doce para acompanhar?" "eu". "E que tal o clima?" "Eu." "Você parece preocupado. Algo errado?" Eu queria dizer, "À claro", queria perguntar "Existe algo certo?" Queria puxar o fio, desfazer o cachecol do meu silêncio e começar mais uma vez do início, mas em vez disso eu dizia "eu".
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