Inspirado em “O presente dos magos”, de O. Henry.
Lido em 22 de abril de 2008
Estava no final de sua adolescência e nunca havia grafitado um muro. Que vergonha! Mas agora surgira um bom motivo, uma causa nobre. E antecipadamente sorveu o gozo perverso de seu crime.
Quanto mais pensava, mais se convencia de que tinha que fazer. Escreveria no asfalto da rua de sua amada uma mensagem de amor. Seria em letras descomunais, de tal modo que, sempre quando ela chegasse à varanda ou cruzasse a rua, se depararia irremediavelmente com a incrível mensagem. Que garota, em sã consciência, poderia rejeitar um presente como aquele?
Tudo tinha que sair perfeito e o primeiro passo seria comprar a arma do crime. O rapaz se dirigiu a uma loja de tintas e pediu um spray. Um spray? De que cor? Tinha que ser vermelho, do mais forte. O vendedor, desconfiado, trouxe o produto e o colocou sobre a bancada. O rapaz manuseou com delicadeza o cilindro e perguntou ” como é que se usa? O vendedor olhou para o rapaz como se estivesse na frente de um índio. Olha, você solta esta peça aqui, depois aperta ali, sempre virado para esta direção. E não se esqueça de agitar bem antes usar!
O jovem saiu da loja feliz da vida e colocou o spray em sua mochila, como se fosse uma pistola. Em casa, o escondeu cuidadosamente de seus pais. Não podia perder tempo, tinha que ser naquela mesma madrugada quando a lua estaria cheia e não haveria trânsito na rua da amada. Deliciou-se então com a imaginação de um crime perfeito.
Tudo tinha ser como exatamente previsto, pois ele só teria uma chance, a única bala na agulha que não podia desperdiçar. Passou o dia ensaiando a caligrafia, uma vez que a mensagem ficaria inscrita para sempre no asfalto e a letra deveria ser a mais bonita, sem nenhuma rasura, pois não haveria como passar borracha.
Chegou à conclusão de que tinha que treinar antes para não errar ou hesitar. Escolheu então, para seu exercício, o adro da igreja próxima de casa que estaria deserto mais à noite. Às vinte e três horas e trinta minutos, estava com sua mochila bem em frente à porta da igreja. Certificou-se de que não havia ninguém passando e então abriu a mochila e retirou o cilindro de tinta. Sacudiu-o bem, abriu o lacre, tirou a tampa, soltou a trava, agitou mais uma vez, olhou em volta novamente, ajoelhou-se e pressionou firmemente o pino.
Estranhou que o jato de tinta saísse tão fino. Sacudiu mais uma vez e passou o jato repetidas vezes sobre um mesmo traço vertical, mas no asfalto uma tênue mancha teimava em aparecer. Assim não vai dar, pensou. Observou que dois homens atravessavam o adro conversando, mas não se importou. Estava irritado com aquele spray. Será que está com o prazo de validade esgotado? A tinta está tão fraquinha que vai ser ridículo. E tornou a sacudir o cilindro raivosamente e a esparramar mais tinta sobre o asfalto qual um Jackson Pollock alucinado.
Foi quando, vindo não se sabe de onde, surgiu uma viatura da polícia, que numa manobra espetacular, de farol alto, freou atrás dele. Havia dentro dela dois policiais. O do banco de carona abriu a porta e em pé apontou a arma para os dois homens que passavam conversando e já se distanciavam apressadamente com a chegada da viatura. O outro, motorista, abriu a porta do carro e, se protegendo na porta, apontou pela janela sua arma para o perigoso grafiteiro amador.
Ei, você aí, mãos na cabeça! O jovem, sem saber o que fazer, ficou com uma mão na cabeça e a outra segurando, com dois dedos, a arma do delito. O policial, sempre apontando a arma para sua testa, aproximou-se do rapaz e tomou-lhe o cilindro. Enquanto isso, seu colega rendia os outros homens e os revistava. Eles não estão comigo, disse o jovem num rasgo de honestidade, eles só estavam passando e não têm nada a ver com isso. O policial disse, então, ao seu colega que os liberasse e ambos vieram ter com o solitário delinqí¼ente.
O policial segurava o cilindro com explícito interesse. Quanto você acha que isso aqui dá, perguntou ao colega. Uns cinco anos, no mínimo, respondeu o outro. À, acho que estamos complicados, falou o meganha para o rapaz. Mas este parecia alheio, com um semblante de inusitada tranqí¼ilidade. Chegara ao fundo do poço, pensou, com íntimo deleite. Imaginou seus pais desesperados no meio da noite procurando um advogado, pensou em seus professores compungidos pela sua reputação perdida e em sua amada recebendo a notícia da magnífica prisão de um amador grafiteiro, tudo isto em nome de sua singela atenção.
Os policiais é que estavam decepcionados. O jovem detido estava de bermuda, camiseta e chinelos, com alguns poucos trocados no bolso. Em sua mochila havia apenas uma calculadora científica e um caderno de rabiscos cheio de versos. O policial apertava os botões da calculadora rudemente, como diante de um obscuro dispositivo tecnológico do futuro, o que obrigou o rapaz a intervir: é uma calculadora, esclareceu. E o policial, sem graça, a guardou de volta na mochila.
Mas o que você faz na rua uma hora dessas, perguntou o policial ao rapaz. Eu ia escrever uma mensagem, respondeu. Uma mensagem! Mas que tipo de mensagem? E o jovem malfeitor, que entre seus defeitos estava o de não ser capaz de mentir, revelou toda sua história. Falou sobre a garota que não queria mais falar com ele, sobre a extraordinária idéia de seu crime, de como não sabia utilizar direito o spray, que afinal parecia estar fora de validade e que precisava trocá-lo por um novo na loja. Contava tudo com evidente prazer, pois afinal aqueles policiais eram as únicas testemunhas de seu sensacional plano.
Você é algum maluco? Gritava o policial, visivelmente contrariado – sofre de algum problema mental? Deixa ver seu braço… Mas o braço era liso como pele de bebê. Enfim, cansado, quis saber onde estavam os pais do jovem. Em algum lugar, respondeu com um pequeno suspiro melancólico.
Escute, rapaz, atentamente o que vamos lhe dizer. Desta vez vamos aliviar a sua barra, OK? Volte para casa e coloque a cabeça no travesseiro. E, se quer minha opinião de amigo, vê se desencana, esquece essa garota. O que mais tem por aí é mulher dando sopa, palavra de quem conhece. E o spray, perguntou o jovem. O spray fica com a gente. E foram embora na viatura levando a preciosa ferramenta.
Sob resplandecente lua cheia o rapaz voltou para casa. A mensagem ficaria bonita com esta luz, imaginou. Estava aborrecido, pois terminara precocemente sua carreira de grafiteiro. Ficou surpreso, no entanto, com a súbita paz de espírito que tomou conta de seu corpo. Quando deitou afinal em sua cama para cumprir a recomendação da autoridade, sentiu uma estranha sensação de dever cumprido. E dormiu tranquilamente um sono profundo, como há muito não fazia.
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1 resposta
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