Inspirado em “O presente dos magos”, de O. Henry.
Lido em 22 de abril de 2008.
No pequeno e insignificante Bairro de Zemun, localizado em Belgrado na Sérvia, vivia Wladimir Kasoy, um carteiro de rosto anguloso e braços fortes. Desiludido do amor, depois que foi abandonado por uma bióloga, raramente saía para beber e ter aventuras, o que fazia apenas para atender seus instintos. Morava num prédio construído há 80 anos (o dobro de sua idade), com 3 andares, sem elevador, e moradias de um único e amplo cômodo, que hoje seriam glamorosamente chamados de estúdios. Sua rotina era solitária, cumpria suas tarefas a tempo e contento, inclusive as profissionais, de forma que o governo, seu empregador, ao contrário de promovê-lo, como era de se esperar, acabou por esquecê-lo com seu salário modesto e proporcional à sua ambição. Sentia-se orgulhoso de fazer a conexão entre os cinco continentes e seu bairro.
Wladimir tinha uma vizinha muito idosa cuja companhia gostava verdadeiramente. Era Illena Werussky, olhos profundamente azuis que pareciam maiores, amplificados pelos óculos. Encantava toda a vizinhança com seu talento musical ao piano, fluente nas partituras dos quatro cantos.
Quando voltava do trabalho, Wladimir costumava trazer pães frescos para Illena que o esperava com a chaleira fumegante para o chá, escolhido entre sachês de diversos sabores, numa caixa de madeira pintada à mão.
Cada vez menos descia à rua, impedida pelos lances de escada que precisaria enfrentar. Afetada progressivamente pela artrose senil, Illena contava com a boa vontade do dono da mercearia para sua alimentação. Sua patologia óssea causava dores insuportáveis, testemunhada diversas vezes por Wladimir, que procurava aliviá-la com suaves massagens, uma vez que os medicamentos eram muito caros. Com o passar do tempo as massagens pareciam não mais surtir efeito e Wladimir vinha pensando em soluções alternativas à farmacologia.
Um dia, Illena estava deitada, padecendo de suas dores, quando Wladimir massageou seu ventre e flanou por suas pernas. Ela resistiu, envergonhada, mas ele insistiu até que ela aceitasse seu carinho. Em alguns dias essa prática se tornou natural para ambos e Wladimir se dedicou a lhe dar prazer, convicto de que seu organismo iria produzir substâncias similares à morfina. Illena ficava deitada, Wladimir retirava sua roupa e tratava de explorar seu corpo flácido, enrugado, sem músculos e sem pêlos. Manipulava a vagina murcha de Illena, untada de óleo, e quando ela abria suas finas pernas, introduzia os dedos até que ela balbuciasse coisas sem sentido e adormecesse. Constatou que o método era eficaz.
A saúde de Illena, no entanto, passou a ter outras complicações, como dificuldade para respirar, até que precisou ser internada de emergência no Hospital Municipal. Wladimir foi avisado de sua morte quando chegou para visitá-la. Sentiu-se mais sozinho que nunca e o prédio tornou-se mudo, sem seu fundo musical.
Dias depois, Wladimir encontrou, entre as cartas que distribuía, uma endereçada a ele e emocionou-se ao verificar que o remetente havia sido Illena. Na carta, com letras trêmulas, ela dizia:
Wladimir,
Felizmente a vida é finita e Deus é sábio, concedendo a cada um o tempo e o peso que pode suportar. Você mudou a ordem dos fatores na minha história pois considero que estou vivendo a adolescência aos 89 anos. Porém, a fisiologia irá vencer na disputa com a pulsão de vida e tenho consciência de minha contagem regressiva. Acredito que, ao receber esta carta, minha alma já esteja em liberdade. Escrevo para agradecer nossas conversas entre xícaras de louça e os insólitos segredos que você criou para mim e que eu jamais contaria a terceiros. Me despeço desejando que herde meu bem material mais precioso, o piano.
Illena
Wladimir levou o piano pelas escadas e instalou-o perto de sua janela. Não tinha nenhum conhecimento musical mas, como uma criança curiosa, sentou-se diante dele e experimentou o teclado. O som era estranhamente interessante. Seus dedos pareceram mais longos e seus órgãos internos pareciam dançar ao compasso do coração. Estava melodicamente embriagado e suas mãos animadas invadiram o teclado, desvendando seu código de barras. Inundou o ambiente com sons cristalinos que foram sendo domesticados e evoluíram para complexas composições. Em pouco tempo abandonou a profissão de carteiro e tornou-se um compositor famoso e rico. Passou a viajar freqüentemente fazendo, pessoalmente, conexão entre Belgrado e os cinco continentes.
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2 respostas
Maurício, MOTEEEEE!!! hehehehe.
Abração.
A idéia do sexo como prêmio é discretamente
maravilhosa.
Nunca pensamos nisso e a coisa toda vai se
dando num clima desmisterioso, rotimeiro e
culpabilizante.
Mas, de fato deve ser o prêmio, o supra-sumo,
como você nos mostra aqui…
Belo, ultra-sensitivo,humano, mais-que-humano!
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