Inspirado em “Solaris”, de Stanislaw Lem.
Lido em 11 de março de março de 2008.
Há um quarto no inferno, onde a mobília se resume a uma cadeira e um telefone.
A pessoa sentada na cadeira espera por um telefonema que nunca toca.
E nunca vai tocar.
Há um quarto onde alguém folheia um caderninho de telefones, página após página.
Depois de chegar ao último nome, ele volta para o início. E começa tudo de novo.
Existe um quarto no inferno onde um pintor encara uma tela em branco. A mesma de ontem. E de antes. E de antes. Há um quarto onde um escritor desiste, dia após dia, de tentar encontrar a palavra exata, e há um quarto onde alguém escrevendo uma carta percebe que não tem nada a dizer.
Existe um quarto no inferno onde um cientista que nunca amou escreve uma tese em vinte volumes sobre todos os seus desdobramentos teóricos e práticos. No quarto ao lado, alguém estuda todas as dezenas de músculos envolvidos no processo do sorriso, e após decorar cada um dos nomes percebe que não entendeu por que as pessoas sorriem. E que não tem motivos para sorrir. E fica se perguntando se ainda é capaz de se lembrar como é.
Há um quarto escuro no inferno, onde nunca bate sol. Não se pode dizer se é dia ou noite, pois não há janelas. E as portas estão sempre trancadas. Por dentro.
Todos os quartos do inferno ficam no porão ou no subsolo. Mas nenhum é vizinho um do outro: pois estar no inferno é estar sozinho. Até mesmo para o casal que ocupa o mesmo quarto, sem conseguir trocar olhares ou palavras.
Todos os quartos do inferno são silenciosos. Quietos. Não se ouve nada, vindo de fora nem de dentro. Têm o som de onde o tempo parou.
Dizem que no inferno os condenados, sofrendo, se amontoam como em meio a um enorme campo de batalha.
Estão errados.
O inferno é uma grande mansão, repleta de quartos. Cada um deles tão pequeno quanto o inferno é infinitamente vasto. E o tamanho do inferno particular de cada um de nós é ditado pelos limites de nossa própria miséria.
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1 resposta
Esse conto me arrepiou quando foi lido, e o efeito continua… o.o
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