Ajeitou a cabeça dela nos travesseiros, encheu o copo de água, encostou a janela.
“Tá tudo bem, mãe? Tem certeza que eu posso ir? A enfermeira disse que só tem jornal no posto, e é um pouco longe.”
Ela sorriu, fraquinha.
“Pode ir, meu filho, está tudo bem. Vai com Deus.”
Ele beijou de leve a testa dela, fria e úmida, e saiu.
No corredor deu uma esticada no corpo. Tinha passado a noite toda numa cadeirinha, de vez em quando cochilando com a cabeça encostada na parede. Muito ruim. Mas a clínica até que era boa, tinha tido sorte em conseguir vaga. Olhou no relógio: seis e meia.
Quando saiu se deparou com a imensidão da Avenida das Américas. Adorava esse nome, sugeria coisas grandiosas, vastas, amplas.
Domingo de manhã. Nenhum carro , surreal. Mesmo sendo no Recreio. Apesar do céu azul, fazia frio. Levantou a gola da jaqueta e começou a caminhar pelo canto da estrada.
O posto, nem se via.
Foi até o meio da pista e começou a pular e a fazer de conta que estava tocando guitarra.
“U-hu!”, gritou, achando incrível estar ali, sozinho, com aquela avenida gigantesca toda só pra ele.
Tirou o maço do bolso e já ia acender um cigarro quando lembrou da Magrela.Guardou tudo , balançou a cabeça e retomou a caminhada, triste.
A Magrela estava zangada com ele.
Porque ele fumava. Porque bebia quase todas as noites. Porque só queria trabalhar com cinema, então quase não trabalhava e quase nunca tinha dinheiro.
Tinham se formado juntos. Ela logo arrumou um emprego, e já estava se dando bem lá. Inteligente, doce, compenetrada.
“E eu? Fiz umas coisas legais, mas nada aconteceu. Eu sei exatamente o que eu quero fazer, a linguagem que eu quero usar, e não vou ficar bajulando ninguém pra fazer um trabalho medíocre só por grana. À tão difícil assim de entender?”
Mas as coisas estavam se complicando. A mãe, que sempre dera uma força, estava doente, gastando a maior grana em remédios. Já estava morando de favor no apartamento de um amigo, no Bairro de Fátima, e a galera comparecia com um pão de forma, uma lata de salsicha, cerveja.
Lembrou de uma frase horrível que a Magra tinha dito, numa discussão:
“Às vezes eu acho que você não quer fazer nada , só quer se aniquilar.”
Finalmente avistou o posto, do outro lado. Procurou um lugar que desse para atravessar o fosso gramado que separa as duas pistas.
Um carro passou, zunindo.
Viu uma tábua servindo de ponte, atravessou, entrou na loja do posto, o jornal ainda não tinha chegado. Tomou um café.
“Melhor voltar”, pensou.
Silêncio na estrada. Só o barulho dos próprios passos no asfalto. Não resistiu e acendeu um cigarro.
“Foi mal, magrela”. Engraçado que desde garoto, quando começara a curtir quadrinhos, e depois cinema, sempre adorara heroínas com peitões. Mas quando finalmente se apaixonou foi por uma garota que quase não tinha peito nenhum. Se não fosse pelos cabelos longos, e pelo sorriso, a Magrela certamente passaria por um menino, sempre de jeans e tênis.
Sentou numa pedra, pra curtir o cigarro.
“Isso tá parecendo aquela música do Roberto e Erasmo, “Sentado à beira do caminho”, riu.”
Quando o cigarro acabou jogou no chão, apagou com a sola do sapato, levantou e caminhou em direção ao hospital.
Uma garça branca passou planando, solitária.
“Agora japonesou tudo”, pensou ele, “virou mangá.”
No corredor, uma enfermeira veio em sua direção.
“Eu sinto muito, mas ela não agí¼entou. Aconteceu assim que você saiu. Sinto muito mesmo.”
Ele ficou boquiaberto, perplexo, totalmente despreparado para aquilo. No quarto o corpo da mãe estava coberto por um lençol branco.
Sentado na cadeirinha, enterrou o rosto entre as mãos e entendeu os naufrágios.
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