“Vocês têm a nova lata da Antártica?”
O que mais chamou a atenção naquele senhor, já com idade de estar deitado na cama ou no caixão, tão velho quanto robusto, não era sua compleição física mas sim seu sotaque estrangeiro. Aqui, nestas paragens, a última vez em que se ouviu um sotaque de outro país foi o do turco Fouad que, com seu cosmopolitanismo de caixeiro viajante, encantou a filha do coronel Eusébio, e, em conseqí¼ência, teve que fincar raiz e fundar a dinastia dos Fouad por aqui.
Voltando, lá estava o velhinho fortão, com seu excelente português, embora com sotaque, na porta da birosca perguntando sobre a tal latinha. Tinha.
“Por favor, não a abra. À para coleção. Tenho uma das maiores do mundo.”
Pís a peça na pesada mochila, despediu-se e, quando já estava saindo, Seu Teodoro não agí¼entou a curiosidade e faltou com a discrição.
“O senhor me desculpe a curiosidade, mas é que…- Explicou todo esse negócio de Fouad para depois terminar ” o senhor é de onde?”
O velhinho… vou começar a trata-lo por Alexander, chamar velhinho de velhinho, em tempos politicamente corretos, pode me dar dores de cabeça. Alexander, já de costas, voltou-se com um quase sorriso.
“Sou de Opolúbia.”
Aqui ninguém tem vergonha de ser ignorante. Estão todos em casa.
“E esse lugar é onde, se me permite?”
Pergunta agora de Seu Zé Fontes. O semi-sorriso de Alexander virou completo. Gostava de contar.
“Quando eu nasci era Rússia. “Alexander nunca respondia a essa pergunta por completo- Vocês querem ouvir a história toda?”
Sendo todo mundo aposentado ou desempregado, querem. O gringo foi à mesa mais próxima, puxou a cadeira e sentou.
“Um ano depois, na Primeira Guerra Mundial, a cidade passou a fazer parte do Império Austro-Húngaro por dois dias. Depois foi reconquistado pela Rússia. Depois, por causa da paz com os alemães, virou Polínia. Veio a reação à Revolução Russa e viramos União Soviética. Com o fim da Contrarevolução, voltamos a ser Polínia…”
“Ah, então é na Polínia.”
“Não. Depois veio a guerra Polacoguatemalteca e viramos Guatemala. Depois veio a Sinoguatemalteca, a Sinobelga, a Belgosulafricana, a vietsulafricana, a germanovietnamita e por aí vai…a cada guerra viramos parte de um país diferente . Por isso a complicação da resposta. Desde de 1973, depois da Convenção Internacional de Cartografia de Zagreb, acharam por bem não incluir-nos mais nos mapas. Sábia decisão. Abner, um de nossos judeus, brinca que ele é judeu errante sem sair de casa.”
Todos se entreolharam. Uns achavam estar diante de um psicótico, outros de um piadista. Outros, desconhecedores de Geografia ou História, simplesmente não podiam conceber o problema.
“Bem, mas o senhor ainda não respondeu à pergunta. Onde é que fica a Opolúbia.”
“Agora? Aqui no Brasil mesmo. Fomos cedidos pela República Malagache pelo Tratado de Curitiba.”
Tirou uma bússola da mochila.
“Fica a Sudeste daqui. Onde tem um morro com um mastro com a bandeira nacional.
Neste ponto, torna-se obrigatório fazer considerações a respeito do município de Botas, onde tudo isso se passou, e seu relevo. Botas é conhecida como a Princesinha do planalto. “Princesinha” por cafonice e “Do Planalto” por que se localiza num planalto. Este é muito alto e achatado. Somos cercados por horizontes para onde quer que se olhe. Portanto, falar de morro, ainda mais com um mastro, por aqui é mais absurdo do que o relato de Alexander. Nem a Sudeste, Norte ou Oestenoroeste.”
Entreolharam-se mais uma vez. Agora até os mais ignorantes demonstravam estranhamento.
“Que morro?”
“Venham ver.”
Levantou-se e repetiu o convite.
“Venham!”
Seguiram-no para fora do boteco. Alexander apontou para o Sudeste.
“Estão vendo?”
Estavam. De maneira bastante basbaque, diga-se. Lá estavam: Morro, mastro e bandeira. De repente, o morro começou a ficar lenta e progressivamente transparente, que nem fusão de cinema. A bandeira brasileira começou a baixar. Alexander imediatamente pegou sua mochila e saiu como um bólido em direção do morro.
“Tchau, gente. Tenho que ir, se não tenho que comprar passagem. Muito prazer. Até mais.”
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