Ainda estava a um quarteirão do cinema quando viu um grande cartaz de neon pendurado sobre o meio da rua, que proclamava, em letras de mais de três metros:
O PALÁCIO DOS PRAZERES DO SR. KHAN
Ainda faltavam algumas horas para que as celebridades começassem a chegar, mas já havia uma multidão de pessoas. Estavam de frente para o cinema, de costas para a sarjeta, formando uma longa fila. Um grande número de policiais tentava manter desobstruída uma passagem entre a multidão e a fachada do cinema.
Seria necessário dobrar o número de policiais quando as estrelas começassem a chegar. Ao ver seus heróis e heroínas, a multidão de tornaria demoníaca. O menor gesto, que fosse demasiadamente agradável ou demasiadamente ofensivo, a poria em movimento, e aí só seria possível detê-la a metralhadora. Individualmente, o objetivo de seus membros talvez não fosse mais do que conseguir um souvenir, porém coletivamente a multidão seria capaz de agarrar e estraçalhar.
Um jovem com microfone portátil estava descrevendo a cena. Sua voz rápida e histérica parecia a voz de um pregador integrista, levando sua congregação até o paroxismo do êxtase.
“Que multidão, senhoras e senhores! Que multidão! Deve ter uns dez mil fãs entusiasmados e histéricos aqui à frente do Kahn´s Persian Theatre. A polícia não consegue detê-la. Ouçam o rugido da multidão…”
Levantou o microfone, e os que estavam perto fizeram o obséquio de rugir.
“Ouviram? É uma loucura, senhoras e senhores. Uma verdadeira loucura! Que empolgação! De todas as estréias que eu já vi, essa é a mais… a mais… estupenda, prezados ouvintes. Será que a polícia vai conseguir parar essa multidão? Será? Pelo visto, não vai…”
Quando ele estava justamente chegando no fim da passagem, ela fechou-se a sua frente, e Tod teve de abrir caminho à força. Alguém derrubou-lhe o chapéu, e quando se abaixou para pega-lo, alguém chutou-o Tod virou-se, irritado, e viu-se cercado de pessoas que riam dele. Sabiamente, ele começou a rir junto com eles. A multidão tornou-se simpática. Uma mulher grandalhona deu-lhe um tapinha nas costas,e um homem devolveu-lhe o chapéu, após limpa-lo cuidadosamente na manga. Um segundo homem gritou que abrissem passagem para ele.
Com muitos empurrões e muito aperto, sempre com cara de quem está se divertindo, Tod finalmente conseguiu sair da multidão. Após endireitar as roupas, foi até um estacionamento e sentou-se na mureta que o separava da calçada.
Novos grupos, famílias inteiras, não paravam de chegar. Tod via a mudança que eles sofriam assim que passavam a fazer parte da multidão. Até chegarem a ela, pareciam tímidos, quase ariscos, mas assim que se confundiam com a turba, tornavam-se arrogantes e agressivos. Seria um erro achar que não passavam de curiosos inofensivos. Eram selvagens, embrutecidos, principalmente os velhos e os de meia-idade, e haviam ficado assim devido ao tédio e às decepções.
Haviam passado a vida toda matando-se de trabalhar em algum emprego monótono e cansativo, atrás de escrivaninhas ou balcões, no campo ou à frente de máquinas repetitivas de todos os tipos, contando tostões e sonhando com o lazer a que teriam direito quando tivessem economizado o bastante. Finalmente chegou o dia esperado… Já podiam ter uma renda semanal de dez ou quinze dólares. Não havia melhor lugar para ir do que a Califórnia, terra de sol e laranjas.
Ao chegarem lá, descobrem que o sol não basta. Enjoam da laranja, até mesmo de abacate e maracujá. Não acontece nada. Eles não sabem o que fazer com o tempo livre. Não têm estrutura mental para o lazer, nem o dinheiro e a estrutura física para o prazer. Então se mataram de trabalhar por tanto tempo só para poderem agora fazer um piquenique de vez em quando? Vêem as ondas quebrarem na praia em Venico. A maioria deles veio de lugares em que não há mar, mas quem já uma onda já viu todas. O mesmo se dá com os aviões em Glendale. Se de vez em quando um avião caísse, e eles pudessem ver os passageiros sendo consumidos num “verdadeiro holocausto”, como diriam os jornais… Mas os aviões não caem nunca.
O tédio que eles sentem torna-se ainda pior. Eles percebem que foram tapeados, e arde de ressentimento. Diariamente, toda a vida, eles leram jornais e foram ao cinema. Os filmes e os jornais lhe encheram a cabeça de linchamentos, assassinatos, estupros, explosões, naufrágios, adultérios, incêndios, milagres, revoluções, guerras. Essa dieta diária tornou-os sofisticados. O sol é uma piada. As laranjas não podem estimular seus paladares embotados. Nada é violento o suficiente para retesar suas mentes e corpos flácidos. Eles foram enganados e traídos. Mataram-se de trabalhar e economizaram dinheiro à toa.
Seleta extraída das páginas 238 à 241 da edição publicada pela Brasiliense na década de 80, que incluiu no mesmo volume a novela “Miss Corações Solitários” e um pequeno ensaio de Roberto Muggiatti. Tradução de Paulo Henriques Britto. “O dia do gafanhoto” foi originalmente lançado em 1933.
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