Veste fantasia. Toma café e sai. Está atrasado. 40º graus e colarinho apertado incomodam. Um caminhão de lixo virou no túnel e tráfego está congestionado em metade da cidade. Vê horas. Resolve andar.Queria não usar duas roupas. Látex do uniforme pinica e paletó de algodão parece um manto quente. Quando chegar na redação, ar condicionado estará ligado. Mantém pensamento positivo.
Passo acelerado. Ridículo. Homem grande de óculos, terno e gravata marchando pelas calçadas lotadas. Parece soldado de chumbo.
Tenho que chegar logo.
Espera não ver nenhum crime. Editor avisou chega de atrasos. Parar é ruim. Um mendigo grita na entrada do banco. Trocado, por favor. Sujeito com roupa de turista grita com mulher e esbarra nele. Eles se encaram. Sujeito mal-encarado, apesar dos óculos escuros. Se vira e segue. Cansado e com pressa. Nada de assalto, planos megalomaníacos, perigo de vida. Manhã caótica em paz.
Suor. Camisa molhada. Calor. Duas roupas, uma por pessoa. Maldito clima desidrata até alma seca bom humor evapora senso espreme atenção. Emprego é coisa pequena. Bem estar dos cidadãos mais importante… tá longe…
Quantos quarteirões? Não há sombra. Sol, cimento e gente, muita gente mesmo. Voar é tentação, mas auto-controle… representar papel para teatro vazio; manter a convicção, show precisa continuar.
Entra no prédio. Abafado. Fila na escada rolante. We don’t need no education. Bom humor. Não pode se cansar, corpo e mente. Alerta. Vai comprar bilhete de loteria, acumulou na quarta-feira. Milionário não trabalha. Faz o que quer. Quando quer. Combate crime e aparece na coluna social. Ele o entrevistou uma vez. Arrogante.
Costas ensopadas. Será que vão notar a capa? Verifica no espelho do elevador. Dá pra ver formato. Engana. Poderia ser camisa. Suspira. Não expira até final. Causaria buraco no chão. 12º andar.
Cumprimenta secretária. Procura lugar. Senta. Liga computador. Fala telefone. Anota. Escreve. Anota. Escreve. Fala telefone. Abre arquivo. Fecha arquivo. Quanto falta para almoço?
Editor: O sujeito voador apareceu?
Ele: Nenhuma aparição até agora.
Editor: Dizem que ele usa cueca para fora.
Ele: Deve ser o calor.
Editor: Tem maluco para tudo.
Ele: Tem.
Heroísmo é coisa de louco. Alienígena. Sua origem. Outro planeta.
Este cotidiano me faz desejar uma boa porradaria.
Ninguém mais ameaça o mundo. Só cidadãos. Não há como lutar contra isso.
Não há glória. Contas. Deveres. Era de ouro acabou. No cromo, restam lembranças e esperança de uma vida melhor.
Amanhã, venho sem uniforme.
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário