Meu nome é Pedro Lobo. Tenho trinta e oito anos e pareço bem mais, apesar de meus cabelos escuros. Isso me dá uma angústia considerável pois temo que o anjo da morte se engane e se lembre de mim antes da hora. O motivo dessa aparência madura é uma barba amazônica. Basta dizer que uma fotografia em close apenas da minha farta barba poderia parecer um recorte de revista masculina dos anos 80.
Essa barba tem a desvantagem de esconder a minha pele ainda jovem e a vantagem de funcionar como um black-out, tanto que só uso protetor solar no nariz. Também serve de pretexto para começos de conversas com perguntas como “desde quando você deixa a barba crescer?…” ou “você fez alguma promessa?…” ou “você gosta assim ou tem preguiça de fazer a barba?…”.
Obviamente rola uma preguiça, sou filho de Deus, mesmo sendo ateu, e não abro mão de nenhum dos sete pecados capitais a que tenho direito. Existem também os aspectos de acomodação, de identidade e de estilo, que não impedem uma indecisão estética eventual sobre ter ou não ter. Sinto também orgulho de ser incomum e um contraditório prazer de ter experimentado na vida algum tipo de discriminação. Entenda-se que, uma barba selvagem fora de uma sinagoga ou de um navio pirata, possa gerar preconceito em vários contextos, por exemplo, preconceito de pai de moça gaúcha e preconceito de RH de Banco de Estado. Pensei então, por que não trabalhar refugiado em tele-marketing? Respondi para mim mesmo: porque não!!! Comecei a trabalhar com literatura e atividades correlatas e mantive minha barba.
Ser discriminado foi uma experiência positiva e necessária para fazer do cordão um coto umbilical. Nenhum esforço valia a pena para ser comum, isto é, parecido com a maioria, por uma suposta integração. Justamente quando deixei de aceitar o mundo passivamente, me acometeu uma sangria de questionamentos que só se acalmou com a voz da minha própria essência dizendo: “Pára, Pedro!”
Por arbitrariedade da natureza minha idade aparente manifestou-se também organicamente. Foi o que concluí quando alguns exames me condenaram a uma vida sem açúcar. Uma vida sem açúcar é uma vida metaforicamente sem sal mas no meu caso não havia lugar para metáforas, minha vida sem açúcar seria de amargar mesmo.
Comecei a transgredir e elegi a kopenhagen como o local ideal para este capítulo de insensatez: um paraíso para as papilas gustativas, um desafio à saúde, um inferno para as nutricionistas, um parque de diversões dos gordos, o sadismo dos dentistas, uma grife do romantismo e um vício caro, pesado em gramas.
Torcendo para lá jamais encontrar testemunhas ou intrometidos bem intencionados, frequentei aquele local sóbrio, elegante, refrigerado, paredes vermelhas, balcões pretos com bordas douradas e vitrines forradas de espelhos que multiplicavam os lascivos produtos.
Moças em uniformes justos, tornozelos grossos e sapatos altos, atendiam a todos os meus desejos: bombons de cereja, figos cristalizados cobertos de chocolate, jujubas açucaradas em forma de folhas, balas de leite embrulhadas em papel brilhante, nhá bentas de marshmallow, balas negras de alcaçuz, cappuccinos com raspas de chocolate e outras mirabolâncias.
Sim, indiferentes às minhas taxas bioquímicas e suas conseqüências, elas só me diziam sim.
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2 respostas
Cara, simplesmente adorei adorei adorei adorei esse conto!
Deborah
Quero dizer que tbém sou fã da kopenhagen, e realmente me deliciei com o seu conto. O problema foi que tive que sair de casa e ir até a Kopenhagen comer uma Nhá Benta.
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