“Segunda, 11 de fevereiro
Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos cinco anos que mantenho este címputo diário de meu saldo de trabalho. Na verdade, preciso tanto assim de ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é de ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem, quem sabe. À bom como descanso ativo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra minha futura e garantida artrite. Ms temo não conseguir aguentar isso diariamente. Violão, outra hipótese. Acho que me agradaria. Mas começar a estudar solfejo aos 49 anos deve ser meio desolador. Escrever? Talvez não o fizesse mal; pelo menos, as pessoas costumam gostar de minhas cartas. E depois? Imagino uma notinha bibliográfica sobre as “notáveis qualidades deste autor estreante que beira os 50″, e a mera possibilidade me causa repugnância. Que eu me sinta, até hoje, ingênuo e imaturo ( isto é, com os defeitos da juventude e quase nenhuma de suas virtudes) não significa que eu tenha o direito de exibir esta ingenuidade e imaturidade. Tive uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa, insistia em mostra-la a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe havia ficado preso nos lábios desde a época em que se exibia para o namorado motociclista, o qual depois se matou numa de nossas Curvas da Morte. Ela se vestia de maneira correta, inteiramente de acordo com seus 53 anos; nisso, e no resto, era discreta, equilibrada, mas aquele sorriso reclamava um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de 20 anos. Era um gesto patético, só isso, que não chegava nunca a parecer ridículo, porque naquele rosto havia também bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético.”
(Benedetti, Mario. A Trégua. Trad. Joana Angélica Dívila Melo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007).
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2 respostas
O livro é dos anos sessenta,mas a problemática é a
mesma,conflito entre pais e filhos,insegurança do
cinquenta anos e o sonho de realisar novos progetos.tudo isso faz da obra benedettiana uma
leitura agradável e atualÃssima.
A TRADUÃ?Ã?O CRUA E AO MESMO TEMPO POÃ?TICA DA INSEGURANÃ?A DA MEIA IDADE, UM INCONFORMISMO E AO MESMO TEMPO ACEITAÃ?Ã?O DA FALTA DE PERSPECTIVAS QUE SE ESPERA DE NÃ?S, MAS QUE TODAVIA NÃ?O REFLETE OS NOSSOS ANSEIOS.
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