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Esta é uma obra de ficção livremente inspirada numa viagem feita pelo autor. Entretanto, autor e personagem-narrador não se confundem, de modo que opiniões externadas são exclusivas do personagem, embora algumas vezes o autor pense da mesma forma, e pessoas e fatos citados podem ser reais, fictícios ou distorcidos. Referências à vida pessoal do personagem não se confundem com referências à vida pessoal do autor. Portanto, qualquer coincidência com a realidade é mera coincidência mesmo. Ou não.
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Acordei avistando prédios. Não havia dúvida, estava eu novamente numa metrópole. Mal havia descansado da minha estava em outra. Isso me deu uma certa pachorra. Estava com preguiça de encarar uma grande cidade, ter que entrar em ínibus cheios, trânsito, tumulto, violência, confusão… Ah! Só de pensar já me arrependia de não ter continuado no mato.
Mas o que encontrei quando saltei na rodoviária foi exatamente o oposto. Curitiba não dá preguiça. Curitiba não é quente. Curitiba não é tumultuada. Curitiba não tem muito trânsito. Curitiba não é violenta. Curitiba tem ínibus lotados. À, do ínibus lotado não deu para escapar, Capital Modelo. Talvez algum dia vocês tenham metrí e se livrem disso, quando, então, poderão trocar ínibus lotados por trens entupidos. Substituir a paisagem da cidade por túneis escuros e insípidos.
Em Curitiba não há metrí, mas há ínibus tão grandes que têm sanfona no meio e, salvo engano, seis portas. Eles param em pontos específicos, conhecidos como tubos. Você paga para entrar no tubo, passando por uma roleta. Depois, você salta do ínibus em outro tubo e pode, sem dele sair, ou seja, sem pagar outra passagem, pegar outro ínibus que te levará para mais um tubo e assim indefinidamente até alguém notar e te levar para o hospício.
Pois bem, encontrava-me na apenas climaticamente fria e organizadíssima Curitiba, onde a primeira coisa que fiz foi renovar o estoque de Viagra na drogaria Nissei, mais comum lá do que lixo na Praia da Urca. Realmente incrível! Guardei-o em um saquinho plástico, pois queria me certificar que ficasse em um recipiente impermeável. Em seguida, rumei para o albergue, novamente campestre, ou seja, longe.
Olá, bom dia, prazer, prazer, tem mapa?, tenho mapa, o que tem para fazer?, tem o lugar tal e o tal também, tem internet?, não hoje, vou descansar, seu quarto é por aqui, até logo, ron fiu… ron fiu… ron fiu… acordei ao meio dia. Bem, depois de ter ficado à toa pela primeira vez na viagem, numa manhã restauradora, necessária e, por um prisma, libertadora, por ter me despido da ansiedade e pressa de conhecer a cidade, fui passear. Passei o dia quase todo caminhando pelos centros comercial e histórico, pois a maioria das atrações e o ínibus turístico não funcionavam na segunda-feira. Além disso, conheci o Bosque Alemão, um bosquezinho bem simpático que conta a história de João e Maria. Um lugar absolutamente aprazível e silencioso em meio a uma metrópole, localizado numa área nobilíssima. Depois de sair de lá estive na principal avenida do Centro da Cidade, í s sete da noite, de modo que pude testemunhar o contraste entre a calmaria e o quase caos de uma cidade de mais de um milhão. Mas, quando falo em caos, há que se ter em mente que me refiro aos padrões curitibanos, ou seja, nada que chegue perto do fracasso civilizatório que é o sudeste.
Findei o dia turístico na Praça do Japão, bem cuidadinha, com plantas vindas da Terra do Sol Nascente, um centro de cultura japonesa e uma iluminação bem nissei, que mudava de cor. Tudo muito bem podado e transbordando esmero, como não poderia deixar de ser uma combinação Japão-Paraná. Em seguida, caminhei um bocado até a Rua Batel. Estava na hora da primeira noitada de Reinaldo Amaro, o mochileiro solitário.
Sem pensar duas vezes entrei num lugar chamado Taj. Motivos indianos, narguilê, comida japonesa e patricinhas. Aos montes. Burguesas e burgueses que freqí¼entavam aquela índia deslocada e anódina. Os motivos eram meros motivos, o nome apenas um nome. A comida… bem, não provei a comida embora fosse metade do preço na segunda-feira, promoção responsável por encher o point mesmo em dia tão infausto. Razão: previsão de meia hora de espera e eu não sabia se agí¼entaria esta eternidade naquele lugar. Fiz, então, o que se espera de alguém que vai sozinho para um bar: encostei no balcão, pedi uma cerveja e fiquei pronto para puxar assunto com qualquer ser humano que se aboletasse mais de cinco segundos ao meu lado. Como se pode imaginar, isso não demorou para acontecer.
- Me dá uma Stella Artois, por favor.
- Não faz isso… cerveja é tudo igual.
- Está falando com a pessoa errada.
- Está jogando dinheiro fora.
- Não, a Stella é melhor.
- À tudo igual.
- Está falando com a pessoa errada.
- Cara, o que muda? Cerveja Pilsen brasileira é tudo cerveja Pilsen brasileira e depois da Interbrew a Stella passou a ser fabricada aqui. Lá na Europa é a mais barata. Bobeia Brahma é até um pouco melhor.
- Não, a Stella é mais encorpada, menos oxidada e tem um menor teor de XXXX (não me peça para lembrar o nome da substância).
- Como!?!
- Sou degustadora da AmBev.
Silêncio, desconcerto, vergonha. Auto-recriminação. Presumido! Fica opinando sobre o que não entende! Agora veja a situação! Que embaraçoso! Você não se irrita com o leigo que fica reclamando que nem papagaio de jornal e ainda tenta dar uma aulinha de legislação penal e processual penal? Qual a sua moral para dar aula sobre cerveja para alguém!?! Bem feito, quebrou a cara! Agora se afogue na própria vergonha! Não há solução! Qualquer resposta será humilhante! À melhor bater em retirada! Mas até que ela não é tão mal assim… não vejo banhas… entende de cerveja… devo dar a volta por cima. Sim, é possível! Basta mudar de assunto. Isso. Mudar de assunto. Mas depois de uma porrada dessa seria cara de pau e falta de hombridade você fazer isso. Não, continue. Adelante como a lancha que não se intimidou com as Cataratas de Iguaçu. A moça não é tão assustadora quanto as quedas. E você pode ser melhor do que uma lancha. Acredite. Deixe fluir, deixei vir, você vai conseguir uma boa resposta. Deixe fluir… sinta a energia… tome consciência do seu corpo que sua mente se ex… consciência do corpo? Ai caramba!
- Preciso ir ao banheiro.
Ao retornar do toalete a degustadora já havia ido embora. Uma degustadora… talvez fosse a mulher da minha vida. Mas troquei-a pelo xixi da minha vida. Nossa, a vontade veio com a potência da Garganta do Diabo! Os alívios são os maiores prazeres da vida, portanto aquela tirada de água do joelho levou-me a níveis pornográficos de gozo, permitidos sequer em casas de tolerância.
Na certeza de que não conheceria alguém mais interessante do que uma degustadora da AmBev num lounge pseudo-oriental tomado pela alta-roda curitibana fui curtir um showzinho de reggae num lugar chamado Era Só o Que F lt va, o melhor bar metalingí¼ístico do Paraná. Mas ainda na fila do caixa do primeiro endereço consegui uma carona com uma coroa feiosa e provavelmente necessitada. Não, não lhe ofereci nada em troca além da companhia de meus lindos olhos verdes. E não pergunte mais sobre o assunto! Era só o que faltava!
Chegando ao destino descobri que o ingresso para o show deveria ser comprado num pé sujo vizinho. Estranho, mas… mas nada, só estranho mesmo. Já no pé sujo puxei assunto com um grupo de não me lembro quantas pessoas. Imagino que três. Predominantemente mulheres, claro. E jovens. Nesse momento a coroa se mancou e foi-se embora. Vá! Papo vai, papo vem, estou sozinho, coisa e tal, vamos entrar, vamos, senta com a gente, sim descanso as pernas com vocês, quer cerveja?, quero vamos dançar?, vamos, vamos beijar?, não vamos não, ah vamos sim, não vamos não, ah vamos sim, não não vamos, Chico Buarque ao pé do ouvido, smack, smack, smack. Assusto-me com o poder do nobre músico. Mas foram estalinhos e nada mais. A propósito, eu estava em condições de algo diferente? Neste dia, além de reencontrar metrópole, encontrei-me novamente com o meu amor mais fiel: a cerveja. Foi tórrido. Estava louco, louco. Mas não a ponto de não perceber um clipe no meu caldinho de feijão. Sim, havia um clipe enferrujado no meu delicioso caldo. Convenhamos que caldinho de feijão curitibano já não é das melhores coisas do mundo. Imagine com tão nobre especiaria. Me trouxeram outro, claro, mas antes não o tivessem feito. Nem terminei o dito cujo. Em Curitiba caldinho de feijão deveria se chamar sopa de feijão, pois é esta a consistência que tem. Um verdadeiro desastre! Aqueles netos, bisnetos e tataranetos de europeus definitivamente não têm a expertise necessária para fazer qualquer coisa boa ligada a feijão.
Voltei para o albergue troncho, reclamando com o taxista que ele estava me enrolando, pois ele não conseguia achar o escondidíssimo hostel. Quando a corrida chegou exatamente ao valor que haviam me dito ser o preço aproximado falei-lhe que não pagaria mais do que aquilo porque ele estava dando voltas. Pelo incrível que pareça, o cidadão não se mostrou incomodado e me deixou são e salvo no meu esconderijo, pelo preço que estipulei. Ao entrar no quarto, coletivo como de costume, já por volta das três da manhã, vi que havia mais quatro cidadãos dormindo. Nitidamente todos acordaram, apesar do meu cuidado, com o barulho mínimo que qualquer bêbado faz. Dormi com a roupa da noitada e sonhei com Chico Buarque, vestindo o manto sagrado, chutando uma bola na trave e depois sendo flagrado no exame antidoping.
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3 respostas
Muito engraçado esse Reinaldo Amaro do Renato Amado! Talvez essa degustadora pudesse dizer inclusive que certas cervejas em certos momentos causam insônia e quem sabe até mesmo certos vinhos de certos lugares! Ou, ainda, talvez, por que não?, que certas cervejas ou certos vinhos em certas mentes em certos contextos provocam uma insônia desgraçada. Ou, enfim, que certas combinações de teores de XXXX com certas pessoas em certas estações do ano definitivamente façam alguém dormir. E que tudo vai depender de variáveis mil e nunca do vinho ou da cerveja em si.
De qualquer modo, vou ao seu blog ler o resto pois está engraçadÃssimo!
Nossa, isso que é uma pessoa determinada. Mas não, você não vai me convencer. Vinho não causa insônia! …rsrs… beijos e um 2009 fodão para todos!
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