“Cara, vai ser cagão assim nos raios que o partam. Fatura o prêmio anual e ainda entra na boca livre com que o Don Corleone da firma! Aí, saca o Museu-disco-voador do Niemáier lá em Nikity? Saca o Carretão da General Osório? A comparação é essa, malandro: o Carretão da Ayrton Senna é o Luvre dos Carretões!”
De resto, blá blá blá. Não que fizesse pouco caso da bonificação ganha por ter superado os outros vendedores da concessionária naquele ano. As dores de cabeça que aquele dinheiro resolveria pelos próximos meses valia mais do que teatro – suas cenas de gratidão para com o generosidade do patrão poderiam render aplausos até de Bárbara Heliodora. Mas grana maior que aquela ele sabe como ganhar com menos esforço. Numa outra época, gastavam os tubos sem pestanejar, como se o milagroso saldo bancário que dava conta das farras fosse um superpoder concedido a eles pela exposição ao sol amarelo. E parecia que jamais apareceria um Lex Lutor armado de uma criptonita para derrotá-los.
“Então”, perguntou a secretária que passava pelo corredor, “posso confirmar sua presença amanhã na confraternização dos vendedores-master?”
“Estou saindo pra almoçar, na volta passo na gerência pra pegar o endereço, coisa e tal”.
Neste momento um colega mais invejoso pensa que ele está se gabando do prêmio, já que a firma estimula os funcionários a lancharem ali mesmo, e talvez um dos segredos da sua eficácia seja justamente dispensar os 20 minutos para a pseudo-refeição – realmente tem o hábito de se demorar no café da manhã, e o vigor atlético que lhe permite aguardar pelo jantar. Só o gerente e os que chutam o balde para serem demitidos se permitem tal luxo. A verdade é nos momentos de glória sua mente é transportada para outro tempo, e sua boca deseja repetir as frases de efeito cunhadas por seu cúmplice daquela época. Mais do que um irmão, seu gêmeo, que tinha o talento incontrolável de lançá-los ao perigo, de onde apenas o seu espírito sereno e bom de improviso conseguia tirá-los.
Na infância, as estripulias eram inofensivas aos outros, mas é à sua integridade física que as ameaças sempre foram maiores. A árvore do campinho atrás do galpão da Granero ninguém nunca tinha ousado escalar, de tão alta. Mas seu gêmeo, sempre com a malícia e a segurança de um irmão mais velho, lhe garantiu que aquela pipa era a última de centenas que haviam ficado agarradas nos galhos mais altos. Se ele chegasse ao topo, encontraria até as pipas japonesas que o China – mecânico da área famoso pelos feitos de sua meninice – havia perdido para a mangueira (não que já tivessem achado mangas ali, mas era como chamavam qualquer árvore daquele tamanho). Alguns galhos se quebraram e caíram, mas num salto impossível, ele recuperou a pipa com o escudo do Vascão – sem achar tesouro algum, nem japonês nem paraguaio. Desceu suado, com taquicardia, e ouvindo as risadas do autor daquela idéia temerária.
E foi naquela tarde que descobriu o olhar de admiração dela. Por alguns instantes haviam tomado o corpo da Ana, a menina da rua de cima que todos queriam namorar, porque diferentes de todas as meninas do mundo, ficava linda de aparelhos nos dentes.
O apelido de Átila só apareceu alguns anos à frente. depois que a professora de história falou dos Hunos. Aquela energia com que o irmão estraçalhava seus inimigos, impiedosamente, era notória nos jogos de futebol do bairro. Importante era brilhar no campo, não importava quem ficasse chamuscado. Ele assistia a tudo de camarote, tanto intimidado quanto fascinado com aquela vitalidade. Priscila, que tirava sarro dos meninos fanfarrões como só ela, dava até mais trela para ele, que tinha sempre a resposta na posta da língua nas aulas de matemática. Mas se todas as meninas preferiam os artilheiros das peladas, porque Priscila não preferiria Átila?
Não foi o trabalho que separou Átila dele. Nos tempos de faculdade, foram trabalhar de barman na Quitinete. O salário era pouco, o ácido que aquele australiano começou a trazer rendia uma bela grana em rápidas transações no banheiro masculino. Foi aí também que ele descobriu que ela não era uma fantasia. Se Átila era indestrutível e podia saltar edifícios, ele era capaz de vislumbrar o futuro. Começou a namorar Heloísa achando que um dia ela entraria numa cabine telefônica e sairia de lá vestida de capa e mini-saia, tranformada: indiferente à cocaína e convencida afinal de que Rick Wakeman só prestava tocando piano no primeiro disco do Lou Reed. Treze meses depois, uma visão (nada bonita, envolvendo 5 gramas, whisky e uma piscina cheia de musgo) lhe mostrou era besteira esperar pela mudança. Sua supergirl existia, bastava ele procurar em outras festas.
Só depois de falida a boate, de meses queimando a gordura acumulada com a venda dos ácidos, obrigado a aceitar o mais careta dos trabalhos, é que deixou de ver Átila. O medo de perder o emprego e ter de alugar um quarto de empregada o fez baixar a bola. Fez a barba, colocou a camisa para dentro da calça e comprou uma agenda. Encontrava com Átila eventualmente, na Bunker, no Baixo Gávea, na DDK, em churrascos na cobertura de amigos grã-finos. Mas o volume das caixas de som, a ansiedade típica da solteirice, as risadas entorpecidas das acompanhantes não davam oportunidade para conversas que fizessem muito sentido. Átila continuava estrelando aventuras cinematográficas na sua busca, mas ele não sabia dizer pelo que buscava.
Ela surgiu por inteira numa tarde de sábado onde ele trabalhava por acidente, cobrindo um colega que adoecera. O pai ganhara uma bolada depois de um processo trabalhista que se arrastou por anos, e estava determinado a adquirir um Pejô que desfilasse pelas ruas do Rio a ascensão da família de Vila Isabel para um condomínio em São Conrado. O sarcasmo esdrúxulo, que conciliava nele carinho, dito homeopaticamente, nas entrelinhas, já havia possuído Heloísa nos seus melhores momentos. Ela brincava com seus cabelos encaracolados com graça similar a de Patrícia – o caso dos anos de cursinho. Na verdade, ela dançava com mais espontaneidade que Carla e tinha os seios mais exatos do que Cátia. Teve certeza de que ela já havia sido deslumbrante de aparelho nos dentes, apesar dela ter jurado nunca ter feito mais do que obturações, e nunca ter mudado a palavra, mesmo anos depois, já casados. Ele ainda hoje acha que é mentira.
Depois da lua-de-mel, quando voltou a beber com os amigos depois do expediente, passou a rever Átila. Nunca soube o que ele fez naqueles anos de quase sumiço. Acha que viveu numa comunidade do Daime, contrabandeou ouro para uns angolanos de São Paulo, salvou uma namorada de ter uma overdose, foi colunista do Megazine e tocou bateria numa banda straigh-edge, quando com medo de estar com AIDS, sossegou uns meses em espera zen por uma pneumonia fatal que nunca o alcançou. Foi o guerreiro huno quem o convidou para conhecer a Centauros – “puta não conta como traição”. Foi Átila quem mostrou o esquema da compra de carros que pintavam num desmonte de Deodoro. Era Átila quem ainda hoje o chamava de otário por dar o merecido crédito pelas vendas que ele fechava por acaso, quando os compradores voltavam na hora de almoço dos colegas. Tirando uns raros baseados, nunca mais aceitou nada de seu bróder.
Só sentia falta de Átila quando ela parecia enfastiada. Quando o orçamento apertou, depois que Sandra nasceu, e por anos estiveram em jejum de cinemas e teatros, e o sexo ganhou o familiaridade desconfortável das conversas com tias a quem queremos, mas não conseguimos, ser simpáticos, ele fantasiou abandonar o papel de bom moço e tornar-se um anto-herói, um Wolverine, que não leva a Jean Grey pro altar mas dá nela pegas com quem Scott Summers nunca sonhou. (Não imaginava, até então, que maravilhosas recompensas lhe trariam as várias redescobertas que faria do corpo dela Se ela soubesse de sua vida bandida, ao lado de Átila, talvez não tivesse asco, mas ficasse impressionada. Afinal, ela já encontrara com Átila umas poucas vezes. Testemunhara sua inteligência afiada, seu rebolado maroto, a forte luz, ainda que vermelho-bordel, que ele trazia ao ambiente.
Mas um dia ele percebeu que impressioná-la não significava necessariamente fazer bem a ela. Na verdade, em geral seus feitos incríveis a deixavam sobressaltada, de ouvidos atentos e olhar fixo nele, mas esse era o susto pressentimento de que se aquelas armações deram muito certo, podiam muito bem, por um leve descuido, darem muito errado também. E ele percebeu, conforme foi se afastando do convívio com Átila, que a rotina mais mansa dava espaço para que ela armasse seus próprios planos mirabolantes. De imediato, voltou a nadar, e se não foi para nenhum Pan-americano, fez algumas vezes a travessia do Arpoador ao Forte do Leme com ótimas colocações. Ela também tinha, afinal, seus próprios superpoderes. Com menos badalações e mais sono, ela fez um MBA e ganhou gerência no banco. No cume dessa escalada de realizações, ela enxergou mais um filho, e ele embarcou meio assustado, mas confiante de que sua supergirl podia carregar nos braços até a arca de Noé e podiam ambos repovoar a terra após o Dilúvio.
Repentinamente, se viu em frente ao Hipódromo Up. Ele adora o romance de Mary Shelley exatamente por essas situações em que se sente um Franquestéim. Eram as pernas de Átila que o havia feito descer toda a Jardim Botânico até a Praça Santos Dumont, para confrontá-lo com as lembranças do episódio mais marcante da sua carreira de pequenos crimes em parceria com seu irmão-gêmeo maligno. Átila o levou ao Hipódromo Up para apresentar um sujeito descolado e muito bronzeado, que vivia jogando futevôlei de dia e faturando em cima de uma carteira de putas de luxo durante a noite. O fulano ia embora para Deusdará e queria alguém para assumir a “administração” do negócio. Terminaram a noitada nos braços de algumas luxuosas amigas, brincando de cheirar uma carreira que dava a volta na piscina de uma cobertura. No dia seguinte ele tirou férias, viajou para Conservatória, desligou o celular e só voltou depois de cara ter embarcado rumo ao raio-que-o-partisse.
Quando o telefone tocou, achou que era Átila. Teria descoberto a festa no Carrretão, falaria da Vanessa, contadora do escritório central. Língua afiadíssima, provocadora, freqüentadora de festas muito doidas e viajada, que, apesar de não ser uma boazuda, prometia jantar o mais atlético macho e ainda pedir sobremesa. Ele nunca recebera os mimos de Vanessa, mas Átila diria que pintaria lá como se por acaso, pronto para uma boa tabelinha que resolvesse o meio de campo e deixasse a bola na boca do gol.
Não atendeu a ligação. Pensou nela e discou no celular.
“Querida, tudo bem? A Kombi já trouxe Sandra do colégio? Escuta, tem alguém pra ficar com o Zequinha amanhã? Tua mãe pode? Ah, beleza. Olha, posso te levar pra almoçar fora amanhã? É surpresa. Mas depois eu vou ter de passar rapidinho, num outro lugar ali perto, pra cumprimentar o chefão da empresa. Ah, te explico depois. Tá certo, combinado então. Te amo. Beijão.”
Teve a esperança de que Átila nunca mais voltasse. Se fosse forte, se soubesse escolher a que pensamentos dar ouvidos, podia continuar vivendo a boa vida que escolhera para si.
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