Agora era assim. Ela andando por aí, dona do nariz, nariz esse que já tinha até furo de piercing, de bolsa a tiracolo ” cadê a mochila? -, tatuagem, pescoço à mostra e uma auto-confiança de fazer virarem cabeças na rua. Ela ia, sorrindo sozinha, ninguém sabia de quê mas todo mundo olhava. Olhavam. E imaginavam. Ela, minha menina.
Não me lembro bem qual dia foi o último em que a vi, nem o último assunto do qual falamos. Mas me lembro de quando ela era criança e medrosa, e só ia nos brinquedos que giraram de ponta cabeça ou caíam ou rodavam rápido demais se eu estivesse ao lado. Ou da vez em que seu cabelo, que era enorme e ondulado, difícil de lidar, ficou todo enrolado e não havia santo que penteasse. Ela passou mais de uma hora sentada numa cadeirinha e eu passei mais de uma hora em pé, desembaraçando aquela massa de cabelo enquanto fazia sol lá fora e as crianças todas brincavam. Quando terminou, ela saiu com o couro cabeludo vermelho feito tomate, e eu saí com as mãos duras e as pernas doendo. Me disseram uma vez que uma das personificações de carinho é pentear o cabelo de alguém. À.
Quando ela foi crescendo eu detesto admitir, mas morria de ciúmes. Os irmãos, se deixasse, vinham me visitar todo final de semana, mas ela não. “Tenho que fazer um trabalho da escola”. Ou então, “vamos na casa do Fulano ver um filme”, ou nem me falava nada, eu só descobria quando passava na casa deles pra buscá-los e ela já havia saído. Parecia desprezo, e isso dói no coração de um pai, sabe? E eu, além de tudo, virei pai muito cedo, e lidar com crianças sempre foi fácil, mas com mini-adultos a coisa complica”¦ então o que me restava fazer era agir como se nada estivesse acontecendo, como se ela nem fizesse falta. Birra mesmo, pí, vou fazer o que? Mendigar atenção pruma pirralha de treze anos? Nas poucas vezes que ela aparecia, eu brincava sobre ela estar distante, pra ver se ela se tocava e percebia a falta que fazia. Como dá pra perceber, acho que não deu muito certo.
Aliás, saiu totalmente pela culatra: ela passou a aparecer menos ainda. Só faltava me mandar um “eu tenho amigos, não preciso de você”, mas isso ela nunca mandou. Pra falar a verdade, nunca brigamos nem nada. Era sempre assim, diplomático: eu fingia que não me importava, ela agia como se nada estivesse acontecendo. Vai ver que, pra ela, não tinha nada acontecendo mesmo. Ou melhor, tinha sim: pra ela, estava acontecendo a vida. E ela já não tinha mais medo de emoção.
Foi indo assim até que ela saiu da cidade: pegou as malas e foi fazer faculdade longe. Mal se deu ao trabalho de me avisar, pedir permissão. Ligou uma semana antes só pra informar. Bom, pensei, a mãe dela nunca teve muito dinheiro mesmo, logo logo as coisas apertam e ela me liga pra pedir ajuda. Qual o que! A garota chegou a ficar sem dinheiro pro ínibus, mas não tocou no telefone pra me pedir ajuda. Pouco tempo depois, conseguiu um emprego ganhando pouco, passou a ganhar melhor, hoje em dia se bobear ganha até mais que eu. Mora sozinha, ela, com vinte e cinco anos. Eu, quase cinqí¼enta, e minha mãe enchendo o saco.
Não me restou muita coisa. Atualmente, tudo que eu posso fazer é acompanhar a vida da minha garota à distância. Ela não sabe, mas acompanho o blog e fotolog, e leio ela contando como foi a semana no trabalho ou a vejo rindo com os amigos numa festa, com um copo de bebida na mão, mostrando o corte de cabelo novo ou com um cara embasbacado do lado que deve estar comendo minha garotinha, que não é mais minha e muito menos garotinha.
E hoje é madrugada de domingo, dia dos pais. Fiquei aqui plantado o dia inteiro, e agora continuo, com insínia, ao lado do telefone. Como nos anos anteriores, esperando um telefonema vindo de longe no qual ela vai dizer o quanto sente minha falta e se arrepende da distância, e o quanto eu sou importante pra ela e como ela quer me contar todas as novidades. Sei que, dessa vez, ela vai ligar. Nem que seja com voz de porre depois de ter passado o dia inteiro com dúvidas se ligava ou não ligava, se eu ia atender ou não. Claro, antes vou deixar tocar umas duas ou três vezes. Quando tocar. Porque ela vai ligar. Me liga, filha, me liga. Papai te ama.
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário