Antes de abrir o pequeno pacote azul retangular, verificou se a porta do banheiro estava bem trancada e abriu o chuveiro. Queria entender minuciosamente todas as instruções sem, contudo, perder tempo. Assim pís-se a ler rapidamente, as mãos ligeiramente trêmulas, como se estivesse fazendo algo obscuro e proibido. O teste consistia em fazer xixi num potinho de plástico, colocar um pequeno bastão retangular mergulhado na urina e esperar dois minutos. Nada parecia muito complicado. Enquanto isso, precisava torcer para que aparecessem duas linhas azuis no bastão, sinal de que sua vida continuaria do mesmo jeito que estava. E tudo ficaria bem.
Não se perguntou se estava preparada ou não. Sabia que a resposta seria negativa. Pela primeira vez em seus dezesseis anos, achou que tinha que enfrentar sozinha todos os fatos. Mas tudo lhe pareceu muito mais difícil que imaginava.
Enquanto segurava o pote transparente, pensou em sua melhor amiga e em como gostaria que ela estivesse ali naquele momento, pensou no namorado e em como gostaria que ele fosse um pouco mais esperto e inteligente, pensou na mãe e em como gostaria que fosse mais compreensiva e companheira. Pensou em si mesma e em como gostaria de ser mais corajosa e prevenida. Nesse momento, olhou pela janela e píde ver a mãe arrumando a cama no quarto em frente. Tremeu levemente a mão que segurava o pote de plástico, fechou o basculante e respirou profundamente.
Agora era só com ela. E apenas precisava de duas linhas azuis colorindo o pequeno retângulo branco.
Abaixou a calcinha e fez xixi até encher dois terços do pote transparente conforme explicava a instrução. Mergulhou cuidadosamente o bastão de plástico na urina, até que ele ficasse com apenas a ponta para fora. E continuou sentada no vaso, esperando.
E pensou.
Pensou em como sua vida poderia mudar em apenas dois minutos.
Pensou também que para tudo se dava um jeito e que gravidez não era uma doença e que toda mulher passava por isso.
O problema era que ela ainda não era uma mulher. E por enquanto não queria ser.
Planejou os próximos passos: faria um aborto em uma boa clínica com o dinheiro que havia juntado para ir para os EUA. Patrícia, a melhor amiga – que já havia feito um aborto no ano anterior – jamais se recusaria a acompanhá-la. E ninguém mais precisaria saber. Nem sua mãe que ainda arrumava o quarto de dormir. Nem seu namorado que provavelmente ainda dormia coberto por um lençol azul com desenhos de carros de fórmula 1. Nem os filhos que teria, estes então jamais saberiam. Faria, ela própria, questão de não se lembrar mais. E esqueceria, como esqueceria outras coisas importantes em sua vida.
Assim apareceu tênue e levemente uma primeira linha azul.
O vapor da água quente do chuveiro já embaçava o espelho e ela não mais conseguia ver seu reflexo ali. Lembrou-se de um dia, quando tinha cerca de sete anos, em que se perdera de sua mãe, numa enorme loja de departamentos. E teve a mesma sensação naquele momento. Os minutos que pareceram uma eternidade voltavam e ela se sentia perdida novamente, dessa vez trancada num pequeno banheiro branco, tomado pelo vapor, enquanto olhava para um pote de xixi e imaginava o que faria dali a trinta segundos.
Imaginou-se com um pequeno bebê em seu colo e chorou muito brevemente, desejando que alguém resolvesse sua vida por ela.
Não olhou mais para o pote, nem para o espelho, abaixou a cabeça e apertou os olhos. Sem enfrentar sua vida exposta num bastão de plástico de três centímetros, levantou, pegou o pote cheio de xixi, abriu a janela e o jogou longe.
Depois destrancou a porta e saiu do banheiro, querendo ir embora de sua própria vida.
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