O hotel de Río Pico era pintado de azul-turquesa pálido e administrado por uma família judia a quem faltavam as mais elementares noções de lucro. Os quartos se alinhavam em torno de um pátio com caixa d’água e canteiros de flores, delimitados por garrafas emborcadas e repletos de luxuriantes lírios alaranjados. A proprietária era uma decidida e melancólica mulher vestida de negro, com pesadas pálpebras, pranteando com a paixão de uma mãe judia a morte de seu primogênito. Ele era saxofonista, fora para Comodoro Rivadavia e ali morrera de câncer no estí¿mago. Ela palitava os dentes com um espinho e zombava da futilidade da existência.
Seu segundo filho, Carlos Rubén, era um rapaz de tez cor-de-oliva com os olhos reluzentes de um semita. Ansiava pelo mundo exterior e em breve desapareceria nele. Suas filhas movimentavam-se pesadamente pelos quartos de chão lavado e usavam pantufas. A mãe ordenou que trouxessem para meu quarto uma toalha e um gerânio cor-de-rosa.
Na manhã do dia seguinte, tive uma tremenda discussão por causa da conta.
Quanto lhe devo?
“Nada. Se o senhor não tivesse dormido no quarto, ninguém mais dormiria.”
“E quanto foi o jantar?”
“Nada. Como poderíamos saber que o senhor viria? Cozinhamos para nós mesmos.”
“Mas então quanto devo pelo vinho?”
“Sempre oferecemos vinho í s visitas.”
“E o chimarrão?”
“Ninguém paga pelo chimarrão.”
“Mas então o que posso pagar? Só restam o café e o pão.”
“O pão não posso cobrar, mas café com leite é uma bebida de gringo, e isso o senhor vai pagar.”
O sol já brilhava no céu. Colunas de fumaça se erguiam verticalmente das chaminés. Rio Pico fora outrora a colí¿nia alemã de Nueva Germania, e as casas tinham uma aparência alemã. Flores de sabugueiro esfregavam as cabeças nas paredes de pranchas. Ao lado do bar, achava-se estacionado um caminhão madeireiro que se dirigia para as montanhas.
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