Porra! Vomitar é uma merda. Logo de manhã, que nojo! Bebedeira maluca, cerveja com os amigos e depois, caralhadas de uísque. Nem as carreiras de coca deram jeito. Hoje era dia de pagar a conta do cartão. Porra, esta merda nunca chega no dia certo. Que dor nas minhas pernas! Até gosto destas dores musculares, gostosinho, dói quando você se mexe. À bom sentar quando se está cansado. Aí que delícia. Puta que pariu esta cabeça parece que vai explodir. Não podia deixar para outro dia não? Deve estar terminando este inverno. Pena, gosto tanto de frio. Olha que delícia este fim de tarde aqui no Campo de Santana. O sol com uma luzinha amarelada deixa tudo ao redor mais velho do que já é. Ui, que ventinho frio! Devia ter posto outra camisa. Será que demora? Vontade de comer quibe. Um que vontade! Acho que vou ali na Buenos Aires para comer um. Àta, larica, fica aí bicho, você não combinou? Agí¼enta! Esperar é muito chato. Suspeitos estes dois ali; será o que estão fazendo? Povo danado, nem em plena luz do dia se dá ao respeito. Também, porque fui sugerir logo aqui? Perto do Metrí, local público; enfim, várias vantagens. Devia ter tomado um remédio para o estomago. Agora não sei se esta dor é gastrite ou fome. Esperar é foda. Nunca se sabe ao certo se vem ou não, se atrasa ou não, o quanto esperar… Só vou esperar no máximo até quinze minutos depois do combinado. Porra, que susto! Uma cutia. Estranho, ela parece não ter medo de mim, está se aproximando cada vez mais. Cruzes, ela está me olhando estranho. Uma cutia está me olhando. Seus olhos estão dentro de minha cabeça…
Um declive ligeiro leva ao fundo de um pequeno vale todo gramado, recém tratado, com a grama bem aparadinha, cheiro de capim cortado. Que fome, nossa, ficou um montinho ali, mas logo ali sempre tem uma delas, esperando. Ah, mas é tão verdinho e espetadinho para fora, não consigo resistir, mas e ela? Meio verde amarronzada, com tatoos tribais que cobrem todo o seu corpo e contornam seus olhos; uma língua bífida sai de sua boca. Quieta, parada, enrolada, escondida, só esperando. Sua língua preta afaga dentes pontudos. Camuflagem escamosa e sibilante. A fome aumenta sob a visão do chumaço. O medo desaparece ao salivar; não existem mais cuidados, só desejo, o perigoso desejo de mato verde. Olhos negros, íris fusiforme contornados de vermelho, a dos tatoos. Um fim de cauda abrupto que não se afina uniformemente, mas termina num afinar rápido, descuidado, como um desenho infantil. Me aproximo lentamente, já esticando a língua para procurar o local certo do corte entre meus dentes. Atrás da moita algo se mexe.
“À você?”
“Sim, respondo.”
Chegou.
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