Conheci Alicia por acaso, por um amigo em comum numa festa qualquer. Eu redator e ela cineasta. Eu um cara que sempre teve azar com as mulheres, e ela com aquele jeito de quem passou e vai passar a vida toda com uma fila de homens em seu encalço, e sem nem ligar pra isso.
Viramos colegas, porque tudo que eu me atrevia a desejar dela era amizade. Uma noite tínhamos ido a um barzinho perto da minha casa com amigos, e um desses amigos ficou bêbado de dar dó. O cara estava sentado do lado dela. Na hora que a gorfada veio, adivinha?
“Puta que pariu, Reinaldo! Minha saia!!!”
Aquela altura ela planejava ir pra casa de táxi, mas que táxi ia pegar uma garota com cheio de vômito pra um caminho de pelo menos meia hora? Depois, ainda tinha o risco de achar que a bêbada era ela. Ou então do cheio não sair mais. Ou outra porrada de coisa que ela ia pensando e falando alto ao mesmo tempo, desesperada.
“Ai, e agora?”
Juro que nem tinha pensado sacanagem, foi só como amigo mesmo que eu perguntei se ela não queria colocar a roupa pra lavar lá na minha casa, dormia lá e de manhã pelo menos a roupa estaria a salvo. Tem um beliche, falei. Fomos.
Subimos o elevador e eu fiz tudo como manda o figurino dos bons amigos: peguei toalha, uma blusa larga e velha que eu tinha, mostrei aonde ficava tudo e ensinei qual torneira do chuveiro saia água quente e qual saia água fria, e a deixei no banheiro pra ligar o aquecedor. Quando voltei, a porta estava encostada e vinha um barulho levinho de água caindo, mas achei que fosse ela só testando a temperatura. Bati na porta pra avisar que e ainda devia levar uns dois minutos pra água esquentar, e ouvi um “entra”, então entrei.
Alicia nem virou pra me olhar. Ela nua, com a água gelada escorrendo e a pele só um pouquinho arrepiada. Estaquei feito um idiota. Ela me viu, colocou a cabeça pra fora do box e disse que tinha deixado as roupas em cima do vaso, tá?
Cara, numa situação dessas, o que eu faria? Disse um ahn han, como se fosse a coisa mais normal do mundo ter uma mulher de parar o trânsito tomando banho na minha frente enquanto eu ia colocar as roupas dela da máquina. Ainda fiquei uns dois minutos na área de serviço de olhos fechados, que era pra guardar bem aquela imagem na minha cabeça porquê sabe-se lá quando é que ia acontecer de novo. Bem quando eu me recuperei, ela estava enrolada na toalha vindo pelo corredor. Antes de ir tomar o meu banho, que seria o mais gelado possível, ainda disse um “fica a vontade, o quarto é ali”, e me senti quase heróico dela não ter percebido que eu não estava armado, e sim muito feliz por lhe ver.
Mas não podia imaginar que a coisa ainda ia ficar pior. Saí do meu banho, e que me caia um raio agora se não foi uma das visões mais lindas da minha vida. Alicia deitada da minha cama, folheando um dos livros na minha cabeceira. De bruços, perninhas pro alto e os pés delicadamente balançando, como uma cauda de escorpião. Nua. Claro.
Acho que qualquer um na minha posição pensaria a mesma coisa: “me dei bem”. Sentei ao lado dela e tentei puxar um assunto, conversar sobre o livro ou qualquer outra coisa. Ela lá, batendo papo. Mas, foi eu por as mãos naquelas costas cheias de sardinhas, que ela me lançou um olhar que me deixou sem graça de tão desconcertante. E deu uma olhada pra cama de cima.
Não sei nem com que cara consegui subir no beliche e ainda servir café da manhã pra ela no dia seguinte. E Alicia agia como se nada tivesse acontecido, enquanto conversávamos de tudo um pouco na copa tomando um café requentado.
Passei as três semanas seguintes esperando o oficial de justiça bater na minha porta com uma acusação de assédio sexual, até que nos encontramos de novo em outra saída com os amigos. Estava decidido a ficar do outro lado da mesa e a não incomodá-la, já que ela tinha sido gentil o suficiente pra não me acusar de tarado. E não é que a mulher senta do meu lado, e ainda me vira com a maior cara de pau do mundo:
“Não fala mais comigo não?”
Nunca entendi muito bem as mulheres, mas cada vez entendia menos aquela. Sei que ficamos lá de novo, conversando a noite inteira. Antes de ir embora, ela me sorriu e me deu um beijo. No dia seguinte, eu liguei. Foi assim que começamos a sair.
As primeiras vezes que eu dormi na casa dela ou as vezes seguintes que ela dormiu na minha, era sempre desse jeito: ela não se importava de andar e ficar conversando pra lá e pra cá sem roupa, mas eu não podia nem tentar agarra-la. Acho que qualquer outro teria ficado louco, mas eu fui me acostumando. Não era nem louco de desperdiçar uma mulher daquelas. Em quase um mês de muito banho gelado, estava praticamente acostumado. No início, eu no máximo ficava de toalha. Sabe como é, adoro meu amigão, mas porra, a vai que ela fica reparando até lembrar de já ter encontrado um maior e melhor por aí? Sei lá, né. Acho que é trauma de moleque, de ficar com os primos disputando quem tinha o maior de todos (meu primo de terceiro grau, Léo). Alícia só ria da minha cara, nunca vi uma mulher se sentir tão bem do jeito que veio ao mundo. Acabei ficando mais a vontade com meu corpo também. Até que, um dia, quando fomos dormir, tomei um susto. Alicia, deitada na cama, vestia um pijama.
Naquela noite, no meio da conversa, eu não conseguia tirar o olho da alça do pijama que insistia em escorregar pelo ombro, num quase-disfarce do seio, seio que eu já tinha visto tantas vezes. Mas exatamente porque eu não o via, ele me perturbava. Alícia pegou minha mão e a colocou entre o tecido e seu peito. Fui escorregando pelo pijama e sentindo o prazer de despir aquela mulher que eu já havia visto tantas vezes. Ela, que sempre se mostrava tão inteira, se escondia pra que eu a descobrisse. Foi enquanto tirava sua blusa que eu descobri o veneno que me deixou louco por ela até hoje. Foi também quando eu descobri que, de um jeito ou de outro, Alicia sempre dorme nua.
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