(Fragmento de “Alice no País das Maravilhas”, na tradução de Monteiro Lobato. Transcrito da edição de 2005 pela Companhia Editora Nacional.)
A mesa era enorme; apesar disso, os três se espremiam numa de suas cabeceiras. Assim que viram Alice aproximar-se, gritaram:
“Não há lugar! Não há lugar!”
“Há, e de sobra!”, gritou Alice, indignada com a grosseria, indo sentar-se na outra cabeceira, numa grande poltrona.
“Aceita um cálice de vinho?”, perguntou a Lebre em tom animador.
Alice olhou e só viu chá em cima da mesa.
“Não vejo vinho nenhum por aqui”, disse.
“Se você não vê é porque não há”, retorquiu a Lebre.
“Se não há, a senhora não foi delicada ao me oferecer.”
“Também não acho delicado uma pessoa estranha sentar-se à mesa sem ser convidada”, retrucou a Lebre mordendo o lábio.
“Não sabia que esta mesa era sua; além disso, como é muito grande, pareceu-me posta para muito mais de três pessoas.”
“Em vez de ser assim metida, era melhor que cortasse esse cabelo. está comprido demais”, advertiu o Chapeleiro, que até ali se conservara calado, a olhar atentamente para a menina.
Alice respondeu com severidade:
“É a maior das grosserias fazer alusões pessoais como essa que o senhor acaba de fazer, ouviu?”
O chapeleiro arregalou desmesuradamente os olhos e lançou um disparate que não tinha a menor relação com a conversa.
“Em que é que um corvo se parece com uma escrivaninha?”
“Ora, graças que mudou de assunto”, pensou Alice. “Gosto de decifrar enigmas e adivinhações”. E disse em voz alta:
“Creio que adivinho.”
“Quer dizer que é capaz de responder à questão direitinho?”, perguntou à estúpida Lebre.
“Sim.”
“Então diga o que você quer dizer.”
“Eu quero dizer o que penso, o que dá na mesma.”
“Não, senhora”, contestou o Chapeleiro. “se assim fosse, ‘vejo o que como’ seria o mesmo que ‘como o que vejo’.”
“Está claro”. acrescentou a Lebre, “Se assim fosse, você poderia dizer que ‘quero o que tenho’ é o mesmo que ‘tenho o que quero’.”
“Claríssimo”, ajuntou o Rato do Campo, que parecia falar dormindo. “Se assim fosse, você poderia dizer que ‘respiro quando durmo’ é o mesmo que ‘durmo quando respiro’.”
“Isso, aliás, é verdade com você”, disse o Chapeleiro dirigindo-se ao Rato. “Você vive a dormir e, portanto, respira quando dorme e dorme quando respira.”
Houve uma pausa. Todos pararam de falar, e Alice aproveitou o silêncio para pensar na diferença entre um corvo e uma escravinha. O primeiro a falar foi o Chapeleiro.
“Em que dia do mês estamos?”, perguntou, tirando o relógio de bolso e olhando as horas atentamente, depois dumas sacudidelas.
Alice fez a conta e disse que estavam no dia quatro.
“Dois dias de diferença!”, suspirou o Chapeleiro. E, dirigindo-se à Lebre, com ar aflito: “Torno a repetir que a manteiga não serve…”
Era a melhor que havia- respondeu a Lebre humildemente.
“Sim, mas está cheia de migalhas de casca de pão. Aposto que você a tirou da lata com a faca de cortar pão!”
A Lebre veio examinar o relógio que o Chapeleiro tinha na mão e também fez uma cara aflita. Pegou-o, meteu-o na mão e também fez uma cara aflita. Pegou-o, meteu-o na xícara de chá e, depois de o mirar e remirar, repetiu o que já havia dito:
“Não havia manteiga de melhor qualidade.”
Alice também observara o relógio espiando por entre as orelhas da Lebre.
“Que relógio esquisito!”, exclamou. “Marca dias em vez de horas.”
“E que mal há nisso? – inquiriu o Chapeleiro. – Por acaso o seu relógio marca os anos?”
“Seria absurdo, porque durante um ano qualquer relógio ficaria sem corda muitas vezes. Por isso não há relógio que marque o ano.”
“É justamente o que acontece com o meu”, disse o Chapeleiro, deixando a menina completamente atrapalhada. Alice não pôde compreender coisa alguma, não achando nenhum sentido nas suas palavras. E declarou;
“Não compreendi muito bem o que o senhor disse…”
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1 resposta
“ticking away the moments to make-up the dull day”
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