Se eu pudesse voltar e dar um conselho ao meu eu de treze anos, a coisa mais importante que eu diria seria pra levantar a cabeça e dar uma olhada em volta. Eu não conseguia perceber naquela época, mas o mundo todo no qual vivíamos era falso como um Twinkie. Não só a escola, toda a cidade. Por que as pessoas se mudam pro subúrbio? Para ter filhos! Então não é de se espantar que parecesse chato e sem vida. O lugar todo era uma creche gigante, uma cidade artificial criada com o objetivo explícito de cultivar crianças.
No lugar onde cresci, eu sentia como se não houvesse nenhum lugar para ir e nada pra fazer. Isto não acontecia por acaso. Os subúrbios são deliberadamente criados para excluir o mundo lá fora, onde existem coisas que podem colocar as crianças em perigo.
E as escolas, elas eram apenas currais dentro deste mundo falso. Oficialmente o objetivo das escolas é ensinar. Na verdade seu maior objetivo é manter as crianças trancadas em algum lugar pela maior parte do dia para que os adultos possam cuidar da vida. E eu não vejo problema nisso: numa sociedade industrial especializada, seria um desastre ter crianças soltas por aí.
O que me incomoda não é os garotos serem mantidos em prisões, mas que (a) ninguém conta isso a eles, e (b) as prisões na maioria das vezes são mantidas por outros presos. Mandam garotos passarem seis anos decorando fatos insignificantes em um mundo governado por uma fortaleza de gigantes que correm atrás de uma bola oblonga marrom como se essa fosse a coisa mais natural do mundo. E se eles se recusam a ir em frente nesta mistura surreal, dizem que eles não se encaixam.
A vida nesse mundo deformado é estressante pras crianças. E não só para as que não se encaixam. Como em qualquer guerra, os vencedores também não saem ilesos.
Os adultos não podem deixar de ver que seus adolescentes estão atormentados. Então por que eles não fazem nada a respeito? Porque eles culpam a puberdade. O motivo de garotos serem tão infelizes, dizem os adultos a si mesmos, é que agora novos e monstruosos hormínios e produtos químicos estão estragando suas correntes sanguíneas e zoneando tudo. Não há nenhum problema no sistema; é que é inevitável que crianças nessa idade sejam infelizes.
Essa idéia está tão impregnada que mesmo os garotos acreditam nela, o que provavelmente não ajuda. Alguém que ache que é natural que seu pé doa não vai parar pra considerar a chance de estar usando sapatos do tamanho errado.
Tenho minhas suspeitas quanto à essa teoria de que garotos de treze anos são naturalmente uma bagunça. Se é fisiológico, tem que ser universal. Os nímades da Mongólia são todos niilistas com treze anos? Já li um bocado sobre história, e não vi uma única referência a este suposto fato universal antes do século vinte. Os adolescentes aprendizes da Renascença parecem ter sido alegres e entusiasmados. Claro, eles se metiam em brigas e faziam brincadeirinhas entre eles ” Michelangelo teve o nariz quebrado por um valentão ” mas não eram loucos.
Até onde eu sei, o conceito de adolescente com hormínios malucos é da mesma época do subúrbio. Não acho que seja uma coincidência. Acho que os adolescentes enlouquecem pela vida que são obrigados a levar. Os adolescentes aprendizes na Renascença trabalhavam feito cães. Os adolescentes de hoje são cachorrinhos neuróticos. Sua loucura é a loucura da falta de sentido em tudo.
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