Foi no dia de ano novo que encontrei o anjo pela primeira vez.
Ele me saudou como se me conhecesse há anos. Eu mesmo tive a impressão de já o conhecer de algum lugar. Ele chegou a me pedir o número de meu celular, mas por algum motivo estranho não o guardou.
Eu pensei imediatamente que, se era um anjo, isto significava um bom auspício, e como era o primeiro dia do ano, sua aparição trazia certamente o anúncio de boa sorte. Anjos são portadores das boas novas e imaginei a fortuna caindo inexoravelmente sobre mim nesse ano. Esta convicção permaneceu inabalável por longo tempo.
Eu não desconfiei de nada quando meu time de coração perdeu a disputa do título de maneira desastrosa. Ora, ainda haveria o campeonato nacional.
Eu voltei a encontrar o anjo várias vezes. Ele era muito simpático e logo nos tornamos grandes amigos. Saíamos juntos e tínhamos grandes conversas. Fiquei impressionado com sua erudição. Ele me falava coisas sobre filosofia, arte e psicanálise e eu o ouvia atentamente como um fiel discípulo.
Mas as coisas não iam bem na minha vida. No trabalho, um colega me passou a perna e conseguiu chefiar um grande projeto que estava destinado para mim. Bati com meu carro. Fui assaltado e levaram todos meus documentos.
Também minha saúde deteriorou subitamente. Peguei uma infecção que me importunou por semanas. Num exame rotineiro, foi constatado que eu tinha pedras na vesícula e meu médico quis logo a extrair. Em meados do ano comecei a sentir umas tonturas esquisitas, sensações de náuseas, e andava nas ruas como um náufrago no mar.
Por alguma razão desconhecida eu não me queixava de nada ao anjo. Saíamos toda noite para os bares e eu o ouvia com entusiasmo. Eu bebia bastante e costumava ficar bêbado, mas o anjo permanecia sempre sóbrio. Certa noite, estávamos num botequim e começou a chover fortemente. Então o anjo me conduziu voando até minha casa, protegendo-me da chuva com sua grande asa. Outra noite, bebi tanto que adormeci numa cadeira do bar e quando acordei estava placidamente deitado em minha própria cama, como por milagre. Fora o anjo.
Ninguém acreditava que eu conhecia um anjo, muito menos minha mulher. Pela freqí¼ência que eu saía à noite, ela começou a desconfiar que eu estava tendo um caso com uma amante e nossa relação azedou. De nada adiantava eu explicar que o anjo é que era o meu amigo.
Anjos são seres essencialmente bons e o anjo meu amigo não era exceção. Ele me dizia para tratar sempre com cordialidade os humildes, para chamar os garçons pelo nome, para se dirigir í s pessoas com gentileza, mesmo a um inimigo. Ele me ensinava que devemos sempre dar sem esperar receber nada em troca apenas pelo prazer de dar. Que devíamos olhar nos olhos dos derrotados, sorrir í queles que sofriam e a abraçar os mais tímidos e reservados. Que deveríamos apaziguar os angustiados e atender os ansiosos. Ele me dizia que jamais deveríamos perder a esperança e que sempre existe uma oportunidade para crescer na vida se tivermos coragem e desejo. E foi nesta convivência com o anjo que eu fui aos poucos me tornando uma pessoa melhor.
Infelizmente, minha vida foi piorando e piorando. Foi porque costumava faltar ao trabalho para circular pelas ruas com o anjo, em passeios quando ele me falava sobre história e arquitetura, que meu chefe acabou perdendo a paciência e me demitindo. Minha mulher, cansada de minha ausência, pediu separação e tive que sair de casa para uma quitinete mínima. E um dia, ao sair na rua, dois rapazes musculosos me cercaram e, para se divertirem gratuitamente, começaram a me provocar e me dar socos e nesta briga perdi dois dentes.
Apesar desta maré de má sorte, eu evitava incriminar o anjo. Ele sempre tinha uma sugestão para me dar, além de conselhos valiosos que eu seguia com confiança. Com ajuda dele, eu me sentia seguro de que minha vida ia entrar nos trilhos e se consertar.
Apesar dos infortúnios, eu me sentia livre como nunca antes em minha vida. Foi numa dessas que encontrei um antigo colega de escola, que não via fazia muito. Fomos jantar e num tom divertido, contei-lhe de minha situação desgraçada. Meu colega ouviu a tudo com interesse e estranhou vivamente o espírito alegre de minha narrativa sem compreendê-lo. Ao nos despedirmos, ele bateu nas minhas costas e disse, meu chapa, parece que um urubu pousou na sua sorte.
Fiquei muito chateado com meu colega. Um urubu? Sempre tive horror a urubus. Não tinha nada a ver. Eu estava certo de que a minha situação infeliz era passageira e que iria logo melhorar. Ele não conhece o anjo e se o conhecesse não o reconheceria.
Mas fiquei com esta imagem do urubu sobrevoando minha cabeça. E então certa noite, quando voltei a me encontrar com o anjo, num bar, comecei a beber sem freios. E com o aumento do nível de álcool no sangue foram me surgindo as imagens de dúzias de urubus circulando à minha volta, dos gols que meu time perdia sem parar, da minha vesícula empedrada, da cadeira onde me sentava em meu escritório, do abraço carinhoso de minha mulher, e repentinamente, então, num acesso ébrio de fúria comecei a destratar o anjo, a gritar – seu anjo de merda, você só me trouxe desgraça e infelicidade, cadê minha fortuna, seu urubuzento? Mas o anjo me escutava em silêncio e foi com um sorriso amigável nos lábios, me olhando fixamente, que ele bateu as asas e desapareceu.
Algumas semanas mais tarde, muito angustiado e me sentindo sem saída, fui passear na praia, pois a visão do mar sempre me tranqí¼ilizava. Era chegada a época natalina e me doía passar as festas de fim de ano longe de minha família, uma vez que minha mulher não queria me ver nem de costas. Que ano triste fora aquele! O encontro com o anjo não havia me trazido nenhuma boa nova, eu tinha que admitir. Mas apesar disto, ainda assim eu sentia muito a ausência do anjo, que certamente teria alguma palavra de apoio e sabedoria para me dar naquele momento.
E foi de repente que senti uma lufada fria de vento marítimo bater em minha testa como uma iluminação. Como eu havia sido estúpido de não perceber! Era claro, a boa nova havia sido o próprio anjo!
Mas era muito tarde, pois nunca mais voltei a rever o anjo meu amigo.
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