Uma planície enorme se abria à sua frente. Não estava acostumado a ver tanta terra reta assim, não dava para ver uma montanha sequer, uns morrinhos baixos aqui e ali e só. As colunas de fumaça preta também eram visíveis, sem vento não se dissipavam formando um cone gigante até o céu, elas eram tão comuns àquela paisagem que pareciam estar ali desde sempre.
Eram raros os momentos como aquele. Um relativo silêncio. Muitos companheiros dormindo no chão, apesar do calor. Ele sem capacete nem colete, com sua mochila e arma recostadas no chão, saboreava uma espécie de sopa grossa rosa, sabor morango, servida em envelopes de alumínio; sua sobremesa após uma refeição enlatada. Mesmo ali tão longe de onde havia nascido e crescido, podia sentir aquele tédio típico a todos os domingos. As tardes de domingo então, nem se fala.
Sentado sob uma sombra feita por ele após estirar uma lona no teto de carro de sua unidade, recostado na lateral do Humvee, olhava para trás, para todo o caminho que tinham feito até ali. Um ventinho morno veio varrendo o terreno quase sem mato até atingir o seu rosto, pode sentir as gotas de suor, que escorriam pelo pescoço, se resfriarem, porém além do momentâneo alívio, o vento trouxe também o cheiro. Naquele lugar este cheiro era freqüente, oras mais fraco oras mais forte, mas sempre presente. Parecia que havia pneus queimando em todos os lugares daquele país.
Lembrou-se de um domingo típico de sua infância. Um que começou como outro qualquer. Seu pai e tio dormindo na sala, um no sofá e o outro no chão, ainda com seus copos de cerveja pela metade, testemunhando o papo que foi vencido pelo sono. Os pratos do almoço com as sobras do frango com macarrão e farofa sobre a pia. Podia ainda sentir o cheiro da Coca-Cola morna em seu caneco de plástico, daqueles com um canudo embutido na lateral. Na TV passando um enlatado americano, Mulher Maravilha talvez. Ao lembrar-se das cores da sua fantasia, riu da ironia, ele agora embaixo de uma bandeira com as mesmas cores, também defendendo o Tio Sam de seus vilões, só que com muito mais suor e muito menos peitos. Tudo o que aconteceu depois naquele domingo lhe veio à cabeça também, mas preferiu esquecer. O chão estava tão quente que podia ver os vapores subindo, criando aquela visão trêmula, típica de asfalto quente.
Sua mãe ainda trabalhava na Escola Americana no Rio, pessoa de confiança dos gringos, coitada teve muito que explicar depois do que ele fez, mas sabia que ela havia aprovado, na verdade sentia que ela o havia induzido a fazer o que fez, conseguindo para ele aquela viajem a Miami, como ajudante de ordem das professoras para controlar aquela gurizada histérica. Sua mãe sabia que ele precisava espairecer e fez tudo para conseguir tirar ele dali. Ela só não podia prever que ele fosse encontrar a o Amor e no segundo dia de excursão, sair do hotel para comprar cigarros e não voltar, ficando ilegalmente por lá.
Como resistir àquele rosto lindo da Fernanda. Quando a viu atendendo numa das lojas a que visitou com os alunos, pode sentir: era ela.
Viveu com ela por dois meses, fazendo uns bicos aqui e ali, quando viu no alistamento militar a chance que precisava para o Greencard e a legalidade na Terra da Liberdade e das Oportunidades.
Passou seis meses vivendo em alojamentos aprendendo a ser um mariner, três meses no Texas e três no Kwait e pronto, agora estava no Iraque.
O movimento rápido de seu sargento se levantando, para responder ao rádio, o despertou. Ouviu mas não compreendeu completamente o que diziam, ainda tinha algumas dificuldades com o inglês, ainda mais ali, no meio de tantos sotaques diferentes.
“Temos uma missão soldados. Nossa unidade se antecipará ao grupo e fará uma incursão de reconhecimento a uma vila, há umas vinte milhas daqui. Como a rota de todo o batalhão passa por dentro dela o Tenente quer que a vigiemos para detectar movimentos inimigos. Disse o Sargento para toda a sua equipe que já vestida e armada estavam à sua volta.
Sua unidade era formada por ele, o Sargento, The Shit, um cabo do Alabama e Singer, o motorista. Os quatro entraram no Humvee e partiram imediatamente.
Após alguns minutos de silêncio, depois que todos espantaram o sono de seus corpos, começaram a conversar.
“Mr. Miranda, as mulheres brasileiras gostam mais de paus grandes ou de grossos?” Perguntou-lhe The Shit. Sem dar chances de ele responder, já foi logo emendando: “sabe um pau grande pode ser como um brownie. Parece gostoso, mas quem garante que é bem feito? Já um pau grosso não, este diz logo a que veio: resolver o problema. Do you know?”
“The Shit, este não é um problema meu. O meu pau é grande o grosso.” Finalmente respondeu para uma gargalhada geral.
Iam quicando com os vários buracos da estradinha de terra, levantando uma nuvem de poeira, nestes momentos a guerra sumia, virando um passeio com amigos.
“Some boys kiss me, some boys hug me”… Singer iniciou a cantar
“I think they’re o.k.” Sempre afinado, à capela.
“If they don’t give me proper credit… I just walk away.” Até ali Mr. Miranda, cujo apelido era uma referência ao seu próprio sobrenome, mas também uma homenagem, digamos assim, à Pequena Notável, não havia reconhecido a canção escolhida sabia que era algum clássico do pop norte-americano. Esperou pelo refrão para cantarem todos junto.
“Cause we’re living in a material world / And I am a material girl / You know that we are living in a material world / And I am a material girl”
Pararam o carro bastante longe da vila e foram andando até onde foi necessário que se arrastassem, a partir dali se esgueiraram até atrás de uns arbustos, de onde podiam ver bem o povoado. Cinco ou seis casas retas e simples como as várias no Iraque.
Com seus binóculos observaram a vila por mais de quatro horas, tudo o que viram foram mulheres e crianças ocupadas em suas rotinas e assando pães num forno coletivo no centro da vila. Nada de homens ou armas.
Quando o Sargento ia acionar o rádio portátil para transmitir a informação de que o lugar era inofensivo, ouviram um chiado muito forte vindo por trás deles passando sobre suas cabeças e, logo em seguida, o imenso boom que o míssil fez ao destroçar toda a vila.
Jogaram-se no chão, com as mãos sobre as cabeças enquanto uma nuvem de terra e destroços caia sobre eles.
Ouviu os pés arrombando a porta de seu barraco na Rocinha. Viu seu pai ser agarrado por um cara com uma grande arma. Os seguiu depois que todos saíram, inclusive sua mãe que gritava e chorava pedindo que soltassem seu pai, homem de família, que nunca tinha feito nada a ninguém, mas os caras nem pareciam ouvir. Foram arrastando seu pai morro acima gritando para todos que era assim que eles faziam com quem se metia no caminho deles, um dos caras virou-se e agarrou-lhe o ombro e disse: “Vem, vem ver seu pai morrer.”
O cheiro de pneus queimados era intenso agora. Um zumbido forte no ouvido não lhe deixava ouvir nada. Por entre a fumaça via o Sargento gritando no rádio. Shit e Singer ainda deitados e imundos de poeira e terra. Olhou para vila e a principio não entendeu o que via. Uma bola de chama vinha correndo em sua direção.
No topo do morro, numa clareira na mata outro sujeito esperava por eles, quando os viu foi logo pegando um pneu em cada mão, quando jogaram seu pai diante dele, de mãos atadas para trás, foi logo enfiando um pneu por sua cabeça, depois outro e outro e outro. Enquanto fazia isso perguntou ao seu pai como ele preferia morrer: queimado ou com um tiro? Botaram tantos pneus em seu pai que ele ficou só com a cabeça para fora, de pé, calado, sem esboçar qualquer reação. Só quando a gasolina foi derramada sobre seu corpo e o fósforo aceso falou: “me dêem um tiro pelo amor de Deus”
Quando a bola de fogo chegou um pouco mais perto, mesmo bastante desnorteado, pode ver que se tratava de uma das mulheres que vira a pouco na vila. Ela vinha gritando e agitando os braços na tentativa de apagar o fogo que estava sobre toda a sua roupa.
“Está ouvindo seu pai rapaz, ele quer um tiro e você é quem vai dar. Toma…” Puseram um revólver na sua mão e a seguraram apontando para o seu pai.
“Vai, puxa o gatilho!” Gritavam. Muito sem entender o que estava se passando, muito triste ele pensava: Como matar meu pai?
“Ah, tá demorando né! Vamos de fogo mesmo.” E o cara deixou o fósforo cair sobre seu pai que em instantes estava todo em chamas.
Ele por sua vez deixou o revólver cair no momento em que ouviu o grito.
“Me dá um tiro porra!”
Saiu correndo morro abaixo.
Quando tomou consciência já estava com a arma na mão, apontou para a mulher, sem qualquer excitação apertou o gatilho e viu a sua cabeça explodir.
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