O dia havia chegado e Carlos estava com medo. Não era um homem dado a crises de ansiedade, mas, desde que a data se tornava mais próxima, ficou desesperado. O dia havia chegado e não tinha como retirar a promessa. Seu filho iria pagar por seu erro, erro cometido em outro momento de pânico, e ele não poderia fazer nada a respeito. Henrique não sabia, claro. Carlos queria poupá-lo. Talvez devido a seu amor ou covardia, pura e simples. Afinal, como é que se começa a dizer algo assim? Primeiro, Henrique riria, mas, quando descobrisse que seu pai falava a verdade, ficaria apavorado e com raiva. Queria que Henrique o matasse, mas sabia que o filho, um garoto de bom caráter, nunca o faria. Hoje, a grande mão vermelha surgiria e resgataria sua garantia. Hoje seria o dia em tudo iria para o inferno.
Henrique estava fora. Tinha ido numa entrevista de emprego. Havia se formado da faculdade há pouco e, agora, buscava por seu lugar no mundo. Carlos nunca foi de chorar, mas soluçava. Como poderia ter feito isso? Agora, o mal estava feito e o Mau viria, coletar. O amor nos faz tolos e, às vezes homicidas. As pessoas esquecem o fato de que, para matar alguém, você não precisa empunhar uma arma, fisicamente. Basta apenas cometer um ato, que parece singelo, com uma duração de segundos na história humana, para vidas sucumbirem. É preciso fazer algo que pareça inofensivo, mas guarda em si uma conseqüência. É preciso brincar com fogo.
Carlos cortou os pulsos. A dor era lancinante. Ao contrário do que se imaginou a princípio, a carne é mais difícil, mais dura, mesmo em partes tenras. Estava feito e ele não iria ver aquilo. Mas demorava… O sangue saia aos montes, mas ele continuava alerta. Aos poucos, sua vista foi dominada por um oceano vermelho. Só esperava não estar vivo quando Henrique retornasse. Achava que sua parte acalmaria o coletor e pudesse livrar Henrique do pacto. Era problema dele, um erro cometido em nome de amor.
Carlos tentou ser um bom pai. Como Henrique cresceu bom, achou que fez um trabalho decente. Aqueles 25 anos tinham sido um dos melhores de sua vida. Se ele ao menos soubesse, nada disso seria necessário. No entanto, quanto Carlos estava com a idade de seu filho, e a vida era infinita, ele achava que aqueles eram os melhores anos de sua vida. Num dia, uma bomba caiu e Carlos descobriu o desespero pela primeira vez. Não conseguia dormir, se tornou agressivo. Tudo parecia imerso em escuridão. E foi nela, que aquilo começou.
Numa noite, Carlos chamou um velho conhecido. A primeira vez que o viu foi por acaso, aos 15 anos. Depois, ocasionalmente, o encontrava por aí. Sabia que se tratava do perigo personificado, mas Carlos, num misto de medo e fascínio, o tratava com reverência. Mas quando seu coração foi partido e todos em que confiava se afastaram, ele recorreu ao desconhecido. Fez uma promessa. Ao contrário do que pensou, não era amor que ele queria de volta. Ele queria poder. Vingança. O desconhecido cedeu com um sorriso. O sorriso com o branco de almas sendo queimadas por eternidades e o branco dos séculos de tortura e massacre em nome da pureza.
Deu como garantia algo que achava que nunca teria. A alma dele em troca de mostrar aos outros como estavam errados. Como ele era especial e bom e não merecia ser abandonado por aqueles a quem achava que tinha dado tudo. Queria que eles descobrisse que, no jogo de interesses pessoais, ele era o melhor e os faria pagar. E foi o que aconteceu. O que Carlos não esperava era ganhar algo especial e que nunca o abandonaria. Um filho. Henrique.
Carlos ensinou tudo o que podia. Protegeu o primogênito de todas as formas, pois queria que ele fosse feliz, como Henrique havia feito com ele, de graça. Seu filho, seu amor verdadeiro, sem culpa, sem desejo, simplesmente puro. E, agora, era a hora de ele perder isso também. Henrique perderia sua inocência juvenil naquela noite. Tudo por conta de suas falhas de caráter, sua sede por sucesso.
Carlos lembrou quando o desconhecido, amigo de seu pai, o encontrou na rua, chorando e sangrando. Ele o levou para o apartamento dele e transaram. O homem deu a Carlos um lar e um emprego. Lá, Carlos fez carreira e enriqueceu. Quando tinha o suficiente, saiu e se mudou. Não deixou endereço ou qualquer indicação de seu destino. Arrumou as malas para se livrar daquele demônio.
Agora, de alguma forma, o desconhecido o encontrara e exigiu sua parte, num novo pacto. Queria uma noite com Henrique em troca de seus segredos. Ele tinha as provas. Fotos. Sabia seu endereço também. Ou me dá Henrique ou todos saberão como se tornou o que é. O que acha que dirão, todos aqueles políticos, celebridades e executivos se soubessem quem ele era? Se soubessem das festas, das orgias para os amigos dele, das drogas, dos corpos?…
Carlos não era mais aquilo. Mas era irrelevante. Matar o desconhecido era impossível, ele ainda era mais poderoso do que ele. Não tinha escolha. Era preciso morrer. Era a única maneira de poupar seu filho da vergonha. Sua morte o faria desistir. O suicídio provaria para ele que Henrique é um inocente. Seu sacrifício o faria perceber que existe algo maior do que luxúria e status. Assim, o desconhecido não venceria, pois havia uma força maior do que tudo, um legado que nunca se romperá e é amor.
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