O relógio marca meio-dia. O feijão ferve desesperadamente. A tampa balança e chocalha cheiro de alho e temperos pela enorme cozinha do casarão. Casarão centenário da tradicional Família Rocha Miranda, com quartos espaçosos e salas que fazem eco, onde várias gerações casaram, adoeceram, morreram, pariram, nasceram e festejaram. Memórias espalhadas pela vizinhança.
A cozinheira Zezé coloca as panelas quentes sobre a mesa – pratos, talheres, copos e guardanapos. Saleiro também, claro, pois é essencial como um extintor de incêndio, e da mesma forma que um extintor de incêndio, um saleiro pode ser protagonista ou figurante. O desejo da cozinheira é que o saleiro seja figurante, o que provaria que sua medida fora perfeita no cozimento. Segue-se o melhor momento do seu dia. Encosta na pia de mármore seus gordos quadris, cultivados durante anos de sublimação da libido, e, de braços cruzados, Zezé espia.
D.Silvia ajuda sua velha avó a descer enquanto os gêmeos Sergio e Simão deslizam pelo corrimão. Seu Valter, bigodudo, vem de sua loja de móveis pontualmente, nem lava as mãos e, indiferente ao olhar de censura da esposa, acomoda-se na cabeceira da mesa. Maria Lucia e Pedro Ivo chegam da escola, largam suas malinhas de livros e tagarelam sobre professores injustos e feriados.
Seu Valter é um pai realmente adorável. Ensina tabuada, guarda os desenhos das crianças, leva ao cinema, joga pingue-pongue e não demonstra preferência entre os filhos. D.Silvia não tem outra alternativa se não fazer o trabalho sujo: civilizar os filhos. Obriga-os a comer legumes, dormir cedo, conscientiza-os sobre a economia de água e ensina-os a planejar e a ter foco nos seus objetivos. Pais que se complementam e propiciam um cotidiano sereno.
Todos ocupam seus lugares à mesa dando início à sinfonia de metais e louças. A luminária em cone faz de conta que é holofote e o abrir-e-fechar de tampas liberam fumacinhas que pouco a pouco se acalmam, como uma maria-fumaça chegando, mais e mais devagar, até parar. Os olhos da cozinheira saltitam ligeiros de um lado para o outro e, até que todos pousem seus garfos, ela permanece imóvel, ansiosa, prestes à taquicardia.
Todos os dias, fascinada como se primeira vez fosse, ou quem sabe, última, Zezé assiste os almoços da Família Rocha Miranda. Como a poesia de um autor predileto que se lê e, entre versos e entrelinhas, esperamos o próximo arrepio.
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