Tendemos à infelicidade exatamente porque a vida é uma busca pela felicidade. Primeiramente, devemos considerar que se há uma busca é porque há uma meta não atingida. Segundamente, convenhamos, é um procura que demanda muito esforço, é deveras cansativa. Só esse esforço já é suficiente para gerar infelicidade. Ora, se dedicar a uma meta a vida inteira é algo desgastante. E esta palavra combina com infelicidade.
Sendo psiquiatra já me automediquei inúmeras vezes. Escolha qualquer letra do alfabeto que lhe direi um antidepressivo ou ansiolítico que já consumi. Essas substâncias sempre me ajudaram a reduzir a infelicidade, mas jamais me aproximaram da meta. O afastamento do oposto do objetivo não aproxima deste, mas apenas gera uma ilusão de avanço. Se algum avanço há é o equivalente ao do velocista que ao invés de queimar a largada caminha para a reta final com o joelho torcido. De qualquer forma a derrota é inexorável. Mas o alívio que as tarjas pretas proporcionam é inegável, o que me fez ser sempre um fã da alopatia.
Entretanto, na data do meu sexagésimo aniversário, pensei: que merda. Coloquei em xeque a alopatia. A vida inteira só serviu como um paliativo. Comecei, então, a me interessar por tratamentos alternativos. Não apenas no que tange aos cuidados à mente, mas também ao corpo, pois havia me desencantado com a alopatia de forma geral. Levei, portanto, picada de abelha, retirei sangue da minha veia para reinjetá-lo no meu músculo, entrei em caixa de madeira, algodão e Bombril para equilibrar minhas energias e prevenir câncer… enfim, um variedade de tratamentos singulares. Em alguns obtive retorno positivo. Outros, entretanto, foram decepcionantes. E continuo experimentando. Todavia, a busca pela alegria não finda e sempre mantive a esperança no elixir da felicidade. Eis que nas minhas pesquisas sobre medicina complementar me deparei com a seguinte história.
Na década de vinte esteve no Rio de Janeiro um cirurgião francês, de origem russa, chamado Voronoff. Tratava-se de respeitado médico, que ampliou sua fama ao adotar nova e promissora técnica para manutenção da juventude e até rejuvenescimento: a retirada de glândulas sexuais de símios para a sua inserção no organismo humano. O referido doutor acreditava que a velhice e a decrepitude eram conseqí¼ências do mau funcionamento das glândulas sexuais e a colocação no organismo de uma glândula jovem seria um elixir da juventude. Há convincentes relatos da época de que a operação trazia os efeitos esperados. Ora, pensei, se é possível extrair o elixir da juventude de um animal, por que não podemos fazer o mesmo com o da felicidade?
Não houve meio dos biólogos me convencerem de que se tratava de um mero traço anatímico. Os golfinhos mantêm sim um sorriso constante. Tenho sérias dúvidas de tratar-se de um mero formato do focinho. E caso se trate devo informar que durante o meu processo de rejeição da alopatia também rompi com Darwin e aproximei-me da tese do “porquê” e do “para quê”. Convenhamos, parece inconcebível que mutações aleatórias tenham gerado seres tão evoluídos e funcionais como os mamíferos, as aves e até algumas plantas e insetos. Salvo o apêndice, tudo na natureza tem uma utilidade. O darwinismo vai contra a intuição. A reação de qualquer pessoa ao ver um animal ou planta com alguma característica curiosa é indagar: “para quê serve isso?”. Ora, e ainda querem que eu engula Darwin! Se as mutações são aleatórias e a teoria da seleção natural está correta como pode praticamente não haver coisas inúteis nos seres vivos, coisas que não atrapalhariam a sobrevivência da espécie, mas que seriam simplesmente inúteis? Como pode existir tamanha funcionalidade em mutações que seguem o mero acaso? Não parece razoável. Creio, portanto, que as alterações genéticas são conseqí¼ência de esforços repetitivos feitos por incontáveis gerações. De tanto os camaleões buscarem se camuflar em diversos tipos de terreno desenvolveram a capacidade de alterar sua pele de acordo com o ambiente. De tanto as girafas esticarem seus pescoços para alcançar as copas das árvores suas cabeças foram se distanciando do corpo, numa espécie de memória genética funcional. De tanto os golfinhos rirem de alegria seus focinhos tomaram a forma de um sorriso. Basta ver como eles nadam suaves, seguem lanchas por brincadeira, para sabermos que são felizes. E de onde deriva tamanha felicidade?
Após pesquisar um pouco descobri que os golfinhos possuem uma misteriosa camada de gordura acima do maxilar chamada, curiosamente, de melão, que serve para focar seu ultra-som. Entretanto, não seria necessária tão extensa camada de gordura para focar o ultra-som, me garantiram físicos. Seguindo a tese do “para quê” passei a investigar esta curiosa parte do organismo destes cetáceos. Após meses de pesquisa fiz uma descoberta revolucionária: espalhada e esticada microscopicamente pelo melão existe uma glândula que produz uma quantidade elevadíssima de endossuperoxina, uma substância até então desconhecida na natureza, que possui características bem semelhantes à endorfina, mas supera-a com folga em potência, gerando extrema felicidade. Elaborei, então, uma tese, submeti-a à academia e obtive autorização para operar o primeiro voluntário.
Chegou à minha clínica um rapaz deprimido. Dizia que era incompreendido pela família por ser homossexual e que isso lhe trazia extrema infelicidade. Como não gosto de veado queria mais que ele ficasse cada vez mais e mais triste para ver se parava de pederastia e virava homem. Mandei ele para casa. Isso atrasou dois meses o início da experiência, mas há valores éticos que são insuplantáveis.
A segunda pessoa a se prontificar foi um padre. Disse-lhe que ele não precisava de glândula de golfinho, mas de contato com um órgão feminino para ser feliz. Foi embora dizendo que me esconjurava e rezando Padres Nossos. Um babaca. Mais cinco meses de atraso…
Finalmente surgiu uma pessoa normal: uma mulher deprimida sem razão alguma. Suas palavras eram uma infindável translação. Era incapaz de apontar um ponto relevante como motivo de sua infelicidade, ou seja, era o estereotipo das pessoas que freqí¼entam minha clínica psiquiátrica. Enfim, surgira a perfeita cobaia.
Realizei a cirurgia, nitidamente a contragosto do animal. Tão logo a paciente retomou a consciência fui ter com ela. Enquanto fazia-lhe perguntas de praxe para verificar seu estado psíquico reparei um movimento sob o lençol da cama, na altura do baixo ventre, acompanhado por contrações em sua fisionomia. Convoquei outros médicos e a junta afirmou uníssona: nunca se havia visto uma paciente se masturbar no leito pós-operatório. Intrigado por aquele comportamento passei a entrevistar com mais freqí¼ência a cobaia, que costumava ter vários orgasmos durante a sessão e ria, gargalhava constantemente. Concluí que havia me equivocado acerca das propriedades da endossuperaxina, sobretudo após um pouco mais de estudo, que me permitiu verificar que estes mamíferos marinhos possuem uma vida sexual extremamente ativa. Passei, então, a receitar Viagra e Tesão de Vaca aos meus pacientes e a mim mesmo. Os elixires da felicidade já estavam à venda no mercado.
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