O BOÊMIO
“Mas por que você está sempre solteiro?”
“Sabe o que acontece? Vamos supor que eu conheça hoje uma mulher fantástica. Mas fantástica mesmo. Nós vamos nos conhecer, conversar, e eu vou voltar pra casa apaixonado. E no caminho de casa, vou ficar pensando em como seria se nós saíssemos sexta, e na sexta seguinte, e ela também se apaixonasse, e nós fossemos descobrindo aos poucos os defeitos e manias um do outro. E como seria nossa primeira noite juntos, quais seriam as taras dela, o cheiro do cabelo, o gosto da boca, o sorriso ao acordar. E imaginaria nossas brigas, os ciúmes meus e dela, as reconciliações, os medos, as decisões, talvez até filhos, gatos, cinemas de quarta e peças de teatro de sábado, e assim até que tudo acabe, por briga ou por idade. Passa pela minha cabeça tudo que pode acontecer.”
“E qual é o problema?”
“Sabe o que é? Eu odeio me repetir.”
A LEOA
“E que tal o Edu?”
“Ah, ele é simpático e tudo mais, mas não sei…”
“Não sabe?”
“Não sei.”
“É porque ele não é o Leonardo, né?”
“É, por isso também.”
“Olha, a única diferença entre os dois é que o Edu também está a fim de você, e o Leonardo não.”
“Também. Mas não é só isso. Não é que o Eduardo não seja interessante, acho que todas as pessoas são interessantes até que se prove o contrário. O problema é que tem muita gente que prova o contrário muito rápido. Eu tenho uma curiosidade absurda sobre o Leonardo, e não tenho essa curiosidade absurda pelo Edu.”
“Não te entendo. E sabe por que não? Porque eu aposto qualquer coisa que se, um belo dia, o Leo começar a te dar bola e vocês começarem a sair, em uma semana você já enjoou e não quer mais ver a cara dele.”
“Ah, não é verdade.”
“É, sim. Porque foi assim com todos os outros antes do Leonardo, e provavelmente vai ser assim com os que vierem depois.”
“Mas… o que eu posso fazer? Eu só sigo a minha natureza.”
“E qual é a sua natureza?”
“Eu os amo até que eles me amem.”
O MARINHEIRO
“Essa é a cidade mais linda que eu já vi.”
“É maravilhosa mesmo. Mas não chega perto do litoral da Itália.”
“Já esteve lá?”
“Já. Fiz a costa italiana toda, agora estou subindo até a Irlanda, e de lá não sei.”
“Nossa, e de onde você é?”
“Originalmente, do Brasil. Estou viajando assim há mais de um ano.”
“E pretende voltar?”
“Algum dia, sim. Quando acabarem as praias do mundo.”
“Isso quer dizer que não pretende voltar, não é?”
“Não sei. Sinceramente, não sei.”
“E já pensou em ficar em outro lugar?”
“Fiquei tentado algumas vezes, mas não por mais de alguns dias. Essas vontades sempre vêm e vão com as marés. E, além do mais, eu não vou ao mesmo lugar duas vezes.”
“E por que não?”
“Já saiu para velejar sem rumo? As cidades são fantásticas. As cores em cada lugar são novas, os cheiros são diferentes, os gostos, rostos e vozes são desconhecidos e excitantes, e cada dia é uma maravilha. E é isso que fica com você. Mas, se há uma volta, as cores estão mais opacas e os risos são mais duros. Destrói-se uma lembrança, e elas eu não quero desperdiçar. Prefiro ter as coisas uma única vez, se esta vez for a primeira.”
“E se acabarem as praias? Vai ficar aonde?”
“No meio do mar, talvez. O mar é diferente a cada dia, então cada dia é o primeiro.”
A POETISA
“Não vai dar certo. Eu queria, mas não vai.”
“Mas nós nem tentamos!”
“Ainda não… mas veja só que situação ridícula: eu passei tanto tempo flertando, imaginando e sorrindo ao imaginar, que agora não vai dar certo.”
“E isso lá tem algum motivo?”
“De tanto criar isso em mim, criei e cresci medos também. Medos que me amputam os braços e pernas e emudecem minha boca.”
“E quais medos são esses?”
“Dois: o medo de que isso para você não seja nada de mais, e o medo de que seja algo a mais.”
“Ué?”
“Se não for nada de mais, eu vou ter me preparado para abrir novamente meu coração a toa, e ficará muito, muito mais difícil para a próxima vez que eu tentar. E se for algo de mais, eu posso descobrir que afinal não estava preparada e não conseguir aproveitar uma pessoa maravilhosa como você por medo e pressa, e neste caso eu não iria me perdoar.”
“Eu não te entendo…”
“Não tente… não vale a pena. Mas, antes de terminarmos o que nem começou, posso pedir a primeira e última coisa?”
“Peça.”
“Me dá um beijo, só pra me matar a vontade”
A CRIAÇÃO
“Mas, espera aí, você acha bonito isso?”
“Oi?”
“Você acha bonito isso? Personagens amedrontados, machucados, que acham que se esconder da realidade e passar a vida sozinhos com sua imaginação é ser feliz? Que isso é certo?”
“Não acho bonito. Nem um pouco, aliás.”
“Então, por que?”
“Exatamente porque é horrível. Porque não deveria ser assim, porque a imaginação é bela e a ficção as vezes é tão imaginada que se torna real, mas não bate as coisas fantásticas que podem acontecer se nos dermos a chance. Mas, acima de tudo, porque isso tudo do qual você tanto reclama é dolorosamente e terrivelmente real.”
“Real?”
“Real, o que eu vou fazer?”
“Faça algo! Grite, chute, brigue com essas pessoas.”
“Não posso.”
“E por que não?”
“Porque não ia adiantar. Cada um tem que pular em seu próprio abismo.”
“Isso me cheira a desculpa furada.”
“Ah, vai, só um pouquinho.”
“Anda logo, desembucha”
“Tá. Eu não posso. Só porque eu odeio todos esses personagens… mas cada um deles também sou eu.”
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2 respostas
De fato, muito bonito e bem escrito. Tudo de bom, DRR
Ótimo ágata, eu acho q não prestei atenção neste conto qd o ouvi. Diferente pq todo de diálogos. Quase ninguém está tentando os diálogos. Muitos pontos de vista. Parabéns!
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