(conto publicado no livro “Chá nas montanhas”)
Uma velha vivia em uma gruta que seus filhos haviam escavado num barranco de argila, perto de uma nascente, antes de partirem para a cidade onde vive muita gente. Não era feliz nem infeliz por morar ali, pois sabia que o final da vida andava perto, e que seus filhos não deveriam mais voltar, em nenhuma circunstância. Na cidade há sempre muitas coisas para fazer, e eles iam estar ocupados com elas, sem se importar em lembrar o tempo em que viviam nas montanhas cuidando da velha mulher.
Em certas épocas do ano, havia na entrada da gruta uma cortina formada pela água que pingava, a qual ela precisava atravessar para entrar. A água caída do barranco, escorria pelas plantas, e vinha gotejar sobre a argila aqui embaixo. Assim a velha se habituou a permanecer agachada dentro da gruta por longos períodos, a fim de se manter o mais seca possível. Fora, através dos filetes de água que desciam, ela enxergava a terra deserta iluminada por um céu cinzento, e de vez em quando grandes folhas verdes passavam voando, carregadas pelo vento que vinha das terras mais altas. Dentro, onde estava, a luz era agradável e tinha a mesma coloração rosada da argila ao redor.
Algumas pessoas í s vezes passavam por uma trilha não longe dali, e como havia uma nascente nas redondezas, os viajantes que sabiam da nascente, mas desconheciam o lugar em que ficava, vez por outra se aproximavam da gruta até perceberem que a nascente não se achava ali. A velha nunca chamava por eles. Apenas olhava enquanto eles se aproximavam e de repente a viam. Então ela continuava ainda a olhar enquanto eles se viravam e seguiam outras direções à procura de água para beber.
Havia muita coisa nesse tipo de vida que agradava à velha. Não precisava mais discutir e brigar com os filhos para que trouxessem lenha para o forno. Era livre para caminhar à noite em busca de alimento. Podia comer tudo que encontrasse sem precisar dividir. E não tinha nenhuma dívida de gratidão com quem quer que fosse, pelas coisas que possuísse na vida.
Um velho costumava vir da aldeia, a caminho do vale, e sentar-se em uma pedra diante da gruta, a uma distância em que ela o pudesse reconhecer. Ela estava certa de que ele sabia da sua presença na gruta, e embora ela provavelmente não tivesse consciência disso, sentia-se contrariada com ele por não ter dado qualquer sinal de que sabia que ela estava lá. Parecia que ele gozava de uma vantagem desleal sobre ela e a usava de um modo ruim. Ela imaginara várias maneiras de o perturbar caso alguma vez chegasse perto o bastante, mas sempre passava à distância, sentava na pedra um pouco, e então olhava diretamente para a gruta. Depois prosseguia lentamente seu caminho, e a velha tinha sempre a impressão de que ele andava mais devagar após ter levantado da pedra do que antes de sentar.
Na gruta havia escorpiões o ano inteiro, mas sobretudo nos dias anteriores à época em que a água caía escorrendo pelas plantas. A velha possuía uma grande trouxa de farrapos, e com eles varria os escorpiões das paredes e do teto, para em seguida esmagá-los sob o duro calcanhar descalço. Às vezes um pequeno pássaro selvagem ou outro animal desorientado surgia na entrada da gruta, mas ela nunca era bastante rápida para matá-lo, e já havia mesmo desistido de tentar.
Um dia escuro ela viu um de seus filhos de pé na entrada. Não conseguia lembrar qual deles era, mas achou que fosse aquele que havia montado o cavalo e descido pelo leito seco do rio e quase morrera. Ela olhou para a mão dele para ver se estava deformada. Não era esse filho.
Ele começou a falar:
“À você?”
“À.”
“Está bem?”
“Estou.”
“Está tudo certo?”
“Tudo.”
“Você ficou aqui?”
“Como você vê.”
“À.”
Houve um silêncio. A velha olhou a gruta e ficou contrariada ao notar que o homem na
entrada praticamente a escurecia de todo. Manteve-se ocupada um tempo tentando distinguir vários objetos: sua vara, sua cuia, sua lata de estanho, sua corda. O esforço fazia rugas em sua testa.
O homem falava outra vez:
“Posso entrar?”
Ela não respondeu.
Ele se afastou da entrada, sacudindo as gotas de água de seus trajes. A velha achou que ele
estava a ponto de dizer algo profano, pois ela, apesar de não saber qual dos filhos era aquele, lembrou-se do que ele iria fazer.
Ela resolveu falar.
“O que?” ” disse ela.
Ele se inclinou para a frente através da cortina de água e repetiu sua pergunta.
“Posso entrar?”
“Não.”
“O que há com você?”
“Nada.”
Então acrescentou:
“Não tem espaço.”
Ele recuou outra vez, esfregando a cabeça. A velha achou que ele provavelmente ia embora, e não tinha certeza se queria que ele fizesse isso. No entanto, não havia mais nada que ele pudesse fazer, pensou ela. Pelo ruído, percebeu que ela havia se sentado lá fora, e em seguida sentiu cheiro de fumaça de tabaco. O único ruído que se ouvia eram gotas de água caindo na argila.
Um pouco depois ouviu que ele se levantava. De novo ele se pís de pé na entrada da gruta.
“Vou entrar” ” disse ele.
Ela não respondeu.
Ele se inclinou e avançou para dentro. A gruta era baixa demais para ele ficar ereto. Olhava ao redor e patinhava no chão.
“Vamos”, disse ele.
“Aonde?”
“Comigo.”
“Por quê?”
“Porque você tem que vir.”
Ela esperou um pouco e então disse, desconfiada:
“Aonde você está indo?
Ele apontou com indiferença para o vale e disse:
“Para esse lado.”
“Na cidade?”
“Mais longe.”
“Não vou.”
“Precisa vir.”
“Não.”
Ele apanhou a vara e mostrou para ela.
“Amanhã”, ela disse.
“Agora.”
“Preciso dormir”, disse ela, se acomodando na sua trouxa de trapos.
“Está certo. Vou esperar lá fora”, respondeu ele, e saiu.
A velha adormeceu imediatamente. Sonhou que a cidade era muito grande. Nunca a gente chegava ao final e as ruas viviam repletas de pessoas com roupas novas. A igreja tinha uma torre alta com muitos sinos que batiam o tempo todo. Ela andou pelas ruas um dia inteiro, cercada de gente. Ela não tinha certeza se todos eram ou não seus filhos. Perguntou a alguns deles:
“Vocês são meus filhos?”
Eles não podiam responder, mas ela concluiu que se fossem capazes de responder diriam:
“Sim.”
Depois, à noite, ela encontrou uma casa com a porta aberta. Dentro havia uma luz e algumas mulheres estavam sentadas num canto. Levantaram-se quando ela entrou, e disseram:
“Há um quarto para você aqui.”
Ela não queria vê-lo, mas elas a empurraram até que estivesse já dentro do quarto, e fecharam a porta. Ela era uma menininha, e chorava. Os sinos da igreja batiam muito fortes lá fora, e ela imaginou que eles enchiam todo o céu. Havia um espaço aberto no teto bem acima dela. Por ele, podia ver as estrelas, que iluminavam seu quarto. Dos juncos que formavam o teto, surgiu rastejando um escorpião. Desceu lentamente pela parede na direção dela. Ela parou de chorar e olhou para ele. Trazia sua cauda erguida por cima das costas, e oscilava um pouco para os lados enquanto rastejava. Rapidamente procurou algo com que pudesse jogá-lo no chão. Como nada havia no quarto, ela usou a mão. Mas seus movimentos eram lentos, e o escorpião prendeu seu dedo com suas pinças, mantendo-se firmemente agarrado, embora ela sacudisse a mão com energia. Então compreendeu que ele não ia picá-la. Uma enorme felicidade tomou conta dela. Ergueu o dedo até os lábios a fim de beijar o escorpião. Os sinos pararam de tocar. Lentamente, na paz que se iniciava, o escorpião se dirigiu para dentro de sua boca. Ela sentiu sua casca dura e suas perninhas que beliscavam passando pelos lábios e avançando pela língua. Lentamente ela rastejou descendo pela sua garganta e era dela. Acordou e chamou.
O filho respondeu:
“O que foi?”
“Estou pronta.”
“Já?”
Ele ficou parado lá fora enquanto ela saía através da cortina de água, apoiando-se na sua vara. Então ele começou a caminhar alguns passos à frente dela pela trilha.
“Vai chover”, disse o filho.
“Fica longe?”
“Três dias”, disse ele, olhando para as velhas pernas de sua mãe.
Ela balançou a cabeça. Então notou o velho sentado na pedra. Tinha uma expressão de profunda surpresa no rosto, como se tivesse acabado de ocorrer um milagre. Olhava para a mulher com a boca aberta. Quando eles passaram diante da pedra, ele observou com mais atenção do que nunca. Ela fingiu não notar sua presença. Descendo a encosta, enquanto escolhiam cuidadosamente seu caminho pela trilha pedregosa, ouviram a fina voz do velho atrás deles, trazida pelo vento.
“Adeus.”
“Quem é esse?”, perguntou o filho.
“Não sei.”
O filho se virou para ela com ar sombrio.
“Você está mentindo”, disse.
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