Conheci uma garota linda, dessas que meu aví diria (como quando contava sobre minha avó antes de se casarem) “de parar o trânsito”. Nem sei por onde começar os elogios a essa menina que, se eu fosse poeta ou músico, chamaria de musa. Mas como não sou, sou só um estudante de administração com um estágio remunerado, vou dizer que a menina é uma deusa, uma gatinha gatíssima, assim tipo uma versão brasileira da Scarlett Johansson, morena de olhos escuros. Ficamos naquele papo sem graça de quem gostou do outro mas não tem assunto, eu só desmaiando por dentro com o sorriso fácil dela e com os lábios que pareciam almofadinhas vermelhas. Eu fiquei doido por ela. Fiz o caminho devagar-e-sempre por medo de levar um fora e também levando em conta a regrinha básica de que é mais fácil conseguir um cliente novo do que reconquistar um cliente decepcionado. Foram muitos filmes, pipocas, mãos e línguas até que ela mesma propís uma saída mais íntima. A situação era ideal e minha auto-confiança estava lá em cima. Mas ela avisou que haveria uma condição para que eu merecesse a confiança e o corpo dela. Eu só poderia gozar quando ela quisesse. Era pegar ou largar. Peguei, claro. Seria um feito heróico da minha parte e entreguei a Deus. Não dava para recuar naquela altura. Se ela mesma estava querendo mais, rolaria.
Peguei o carro do meu pai emprestado e levei duas garrafas de vinho. Fiquei um pouco supersticioso quando começou a trovejar e desabou a maior chuva. Atrasei 15 minutos porque o trânsito começou a desandar e ela ainda não estava lá me esperando. Achei que ela tivesse desistido mas pouco depois ela apareceu e disparou debaixo do temporal para dentro do carro. A condição estava seriamente comprometida pois ela estava usando uma capa no lugar de jeans e botas no lugar de tênis. Nunca tinha visto minha provável namorada tão fatal.
A chuva fortíssima mais parecia uma cortina nos vidros do carro e gerava o trânsito lento. Ela tirou da bolsa um CD dos Rolling Stones e um saca-rolha. A viagem para o motel começava a se esboçar.
Obviamente eu não iria beber diante do desafio que estava disposto a vencer. Precisava de toda a consciência possível para desviar o pensamento mestre, que era aquela cena sensualíssima da menina molhada da chuva e que, mais cedo ou mais tarde, estaria nua.
Quando começamos a ouvir “I want to be your slave”, ela disse:
“Gostei do vinho, Miguel, muito bom.”
“Gostei do CD também, Manuela.”
E ela começou a dançar, mexendo o corpo com graça e ritmo, sentada ali do meu lado, dentro do carro, enquanto o temporal brigava com o para-brisa. Ela abriu os botões superiores da capa e depois o restante e vi que não haviam outras roupas. Enxerguei seus seios presos querendo explodir e uma pequena calcinha que combinava perfeitamente com as botas. Manuela continuava dançando a música quente, irresistível, ela irresistível, tirando peça por peça e repetindo “I want to be your slave”, bebendo no gargalo com aqueles lábios que pareciam almofadinhas vermelhas, e o temporal nos escondendo dos carros que passavam ao lado.
Não tirei os olhos dela ao mesmo tempo tentando lembrar de tudo que normalmente e ranzinzamente eu costumava reclamar, a fim de ter o controle que prometi, mas nenhum pensamento negativo vinha. A vida parecia incrivelmente azul.
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