Escrever sob encomenda é um troço difícil. Difícil e complicado. “Difícil e complicado”? Guilherme estava tão enferrujado depois de mais de uma década escrevendo só poesia que não conseguia nem evitar os pleonasmos mais básicos. O que causava grande estranheza, pois na hora de soltar um desabafo aqui, uma semi-resenha (voltaremos ao conceito) ali, o texto fluía normalmente, em prosa, sem nenhuma necessidade de se engessar em estrofes pra sentir-se livre. E era graças a desabafos, semi-resenhas (voltaremos ao conceito) e poemas que o blog até que andava bem.
E o mais contraditório de tudo: estava feliz. Depois de mais de trinta anos morando com mãe, tia e irmãos, apartamento recém-alugado, se sentia brincando de adulto. Morar sozinho era uma conquista natural e necessária dos grandes escritores, ainda que forçada para os americanos. Estes, normalmente chutados de casa à beira dos dezoito anos e obrigados a trabalharem de atendente de lanchonete ou se mandarem pra uma faculdade a dois mil quilímetros de distância. Não tinha nada a ver com a cultura maternalista dos latino-americanos. Era isso: ao se ver chutado de casa por si próprio após uma adolescência prolongada além da adolescência, Guilherme se sentia cada vez mais ” e cada vez menos ” latino-americano.
O tema da vez, mote sobre o qual deveria escrever, era o mais propício de todos: um sujeito que morava sozinho e, não fosse um genial twist de realismo fantástico, quase conseguia aplicar o golpe da batatinha sobre uma menina linda do trabalho, alternando comida salgada com chopinho até levá-la pro apartamento. “Isso que é ser adulto”, pensava ele. Ironicamente, fazia meia hora que a Amelinha ” cuja antigí¼idade do nome era inversamente proporcional ao esplendor cutâneo ” tinha saído de lá, após uma noite que, se fosse perfeita, teria sido chata. Tudo tinha dado certo, sem batatinha, sem chope, sem nada a não ser uma química inexplicável, inesperada e inédita. Estava relaxado como nunca. Feliz como nunca. E latino-americano como sempre. E apesar disso, não conseguia escrever.
Mas o que é uma semi-resenha? Guilherme procurava ganhar tempo. Há meses prometia aos sete leitores do blog (dois freqí¼entes e cinco de população flutuante) explicar seu conceito, que nem ele mesmo entendia direito. Opa, peraí, peraí, rima não, rima não, nada de rima, rima é legal em quadrinha, soneto e martelo agalopado, mas não em prosa. Em prosa é cacófato. Cacófato. Cacofonia. Cacaso. Por acaso, nem na prosa conseguia se livrar do concretismo e da poesia. Os leitores do blog esperando a conceituação de semi-resenha. E o amigo gaúcho esperando o conto baseado no seu conto do golpe da batatinha.
Na verdade a semi-resenha era um engodo. Não passava de uma resenha tímida, ou de um pitaco mais ou menos bem escrito.
Na dúvida, pensou: “Vou bater uma pra ver se relaxo mais e me inspiro mais.” O uso do cachimbo deixa a boca torta. O uso da punheta deixa o pinto torto mais vezes do que deveria. Guilherme, seu abestado, como é que você vai relaxar se já está perfeitamente relaxado, não com uma simulação de mulher, mas com uma mulher de verdade, linda, não de chamar a atenção na rua, mas muito melhor do que isso? Amelinha era a mulher dos seus sonhos há muitos anos, mas depois que ela perdera contato com a irmã, achava que era esse mesmo o título que ela teria pro resto da vida. Se enganara. Nunca tinha estado tão feliz por se enganar. E ao mesmo tempo não queria enganar o amigo gaúcho, grande Reginaldo, a quem prometera escrever algo a partir do mesmo mote, desde que não fosse metalingí¼ístico. E só conseguia pensar em metalinguagem.
Pensou: “Seria impossível ser feliz com as coisas simples e tão difíceis de conseguir, como a Amelinha, e ao mesmo tempo cumprir os compromissos profissionais e os com amigos, mesmo os grandes amigos, como o Reginaldo?”. Isso não era bom. Estava ficando encucado. Àtimo. Ficar encucado. Coisa dos grandes escritores. Mas Vinicius não era encucado. Bom, Vinicius era um gênio. E era poeta. Poeta. A última coisa em que deveria pensar naquele momento.
Bllllp! Interfone. Porteiro. Um momentinho, Seu Guilherme. Amelinha. Posso voltar aí um instantinho? Claro, lindinha, claro. Toc. Bota o interfone no gancho. Taquicardia. Amelinha era a pele mais linda que ele já visto, olhos ligeiramente grandes e bem amendoados, devia ter algo de árabe,
Como é que ele ia pensar em prosa se tinha acabado de conquistar a poesia encarnada em mulher? “A prosa é pra quem tenta, a poesia é pra quem consegue”, pensou. Ela era um poema. O amigo que o desculpasse, mas ia dar um tempo da prosa, tempo que nem havia recomeçado, e voltar pra poesia.
Dim-dom. Amelinha. Até a campainha é mais lírica. Mal dá tempo de fechar a porta de volta, não porque fosse um beijo violento, mas porque era apaixonado e alienante, no melhor e mais lírico sentido do termo. Nada mais importava, só a poesia. Por que ela voltou? Não sei, nem deu tempo de perguntar, por acaso o índio se perguntava o porquê dos seus leucócitos ou a própria existência deles antes do colonizador vir cheio de prosa e bactérias bagunçar o coreto da aldeia? Prosa, quer saber? Foda-se você. Com rima pobre e tudo. Um dia você vem me cobrar. Quero casar com a poesia, minha poesia, pro resto da minha vida. Chega de passatempo de prosa fácil. Seu ciúme é minha felicidade. Tinha acabado de levantar pra sentar e escrever e lá estava em pé de novo, num beijo interminável, praticamente pronto pra um novo decúbito. E da prosa já teria esquecido completamente; se não fosse ter levantado de supetão e vir descendo uma vontade louca e incontrolável de mijar.
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