Aproximadamente uma vez por mês, geralmente num domingo, minha avó fazia um grande almoço familiar. A mesa, uma grande e pesada tábua colocada sobre cavaletes, era armada no alpendre que ficava nos fundos da casa. Mas não pensem vocês que haviam treliças brancas ornadas por trepadeiras por onde o sol se infiltrava, ou coisa parecida. Não, nada disso.
O alpendre era território de meu sempre sorridente tio Argemiro, que morava com ela e era um grande curioso.Tudo o interessava, tudo era objeto de sua curiosidade.
Estantes e armários dos mais variados tipos armazenavam centenas de potes de vidro e latas enferrujadas com porcas e parafusos, além de santos despedaçados , pedaços de bicicletas, livrinhos de faroeste e ficção científica, enciclopédias, cabeças de bonecas, cadeiras mancas, poltronas rasgadas, tacos de sinuca, tudo reunido para eventualmente ser consertado, usado, dado.
A velha poltrona bergere era o seu trono; ali ele lia seus livros e ouvia seus programas de rádio, em especial o “Rio de toda gente”, capitaneado por seu grande amigo Rubens Confeti.
Tio miro nunca trabalhou, e eu nunca consegui entender como ele estava sempre tão bem vestido, só saindo de camisa de seda e perfume importado. “Negócios escusos”, murmuravam os outros tios. Mas ele, sempre divertido e cheio de histórias pra contar, desarmava qualquer um. Ele não trabalhava,e pronto.Que o deixassem em paz. Se virava e não pedia dinheiro à ninguém,e com isso calava a boca daquela boa e fudida família nilopolitana.
Num belo domingo tio Argemiro veio com uma grande notícia: ia participar de um programa de TV! O programa ia premiar o maior cacho de bananas do Brasil; era uma oportunidade imperdível! Uma barbada, segundo ele. Ficamos animadíssimos, afinal era a primeira vez que alguém da família Silva ( da NOSSA família Silva) ia aparecer na TV!
Minha avó logo perguntou onde o finório pretendia arrumar um cacho de bananas digno do primeiro prêmio, pois ele tinha tanto apreço por seus sapatos de couro bico fino que certamente não se embrenharia em nenhum matagal.
“Deixe comigo, mamãe”, respondeu, abraçando-a. “Já está tudo arranjado! Prepare-se para o grande momento de glória da família Silva! E pode caprichar no almoço, que eu vou chegar com uma bolada!”
Um mês depois estávamos lá, a família toda reunida. Vovó mandou colocar a TV no alpendre, preparou frango ao molho pardo ( que era o prato preferido do tio miro) e convidou os vizinhos e alguns amigos dele, como o Zezinho apontador do bicho e o Joca 15 dedos.
Devido à importância do acontecimento, todo mundo compareceu com aquela roupa melhorzinha, tipo roupa de missa. Deu meio-dia, e o programa começou. Lá pelas tantas, o grande momento! Todos corremos pra frente da TV, os mais velhos nos assentos toscos, os mais jovens sentados no chão.
Conforme os candidatos iam entrando, cada um com um cacho de banana maior que o outro, aumentava a nossa expectativa. O último a ser chamado foi justamente meu tio. Quando ele entrou imediatamente começamos a gritar e a assoviar, radiantes. A vitória era nossa!
Tio miro trazia um cacho imenso, claramente maior que os dos concorrentes.
Enquanto o júri deliberava os adultos encheram mais uma vez os copos de cerveja e brindaram. Minha avó, toda prosa, era um sorriso só diante dos vizinhos.
“Estão vendo, o meu filho? Além de bonito e elegante, é um campeão!”
Finalmente o júri começou a dar as notas.Quanto mais os outros concorrentes murchavam, mais o meu tio sorria.O cacho dele era imbatível! Tanto que o último jurado ficou super empolgado, e resolveu provar uma banana.
Foi aí que tudo desmoronou. Literalmente. Ao puxar a banana com um pouco mais de força, a metade do cacho simplesmente despencou, deixando à mostra um emaranhado de arames que uniam o que, na verdade, eram dois cachos…!
Os outros concorrentes começaram a rir e o publico a vaiar, enquanto o apresentador arrancava mais bananas do cacho e jogava sobre meu tio. “Fraude! Fraude!” Ele tentava se defender com as mãos e os braços, enquanto ria desavergonhadamente.
Quando chegou em casa, uma hora depois, foi recebido com vaias, aplausos e apupos. Num saco preto o malandro trazia as bananas que havia conseguido salvar.Rindo, jogou tudo em cima da mesa, encheu um copo de cerveja e atacou o prato que vovó colocou à sua frente. Ninguém se incomodou por ele não ter ganho. Sua estratégia quase dera certo,e bem ou mal um Silva tinha aparecido na TV.
Num cotidiano fudido, com pouca grana, pouco emprego e poucos dentes, não havia espaço para uma moral muito rígida.
Ainda bem!
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1 resposta
Ã?timo Carmen, um conto diferente para o clube, meio burlesco. Uma história bem contada com sabor popular. E vc disse q não tinha gostado… Imagina se tivesse!
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