Era manhã. O jantar de folhas e restos estava na mesa desde oito da noite e nada. Onde o desgraçado estaria? Em sua mente, uma possibilidade travestida de certeza. Ele, com certeza, estava aprontando. Ela encara a porta, ao lado da pequena lareira, cujo fogo mal arde. Está acordada há bastante, mas a raiva a mantém em alerta. Em algum momento, ele vai ter que entrar por aquela porta e dar uma explicação. E, aí, ela iria quebrar o prato na cabeça dele. Finalmente, ele entra.
“Onde é que você tava?”
“Não começa, Criatura do Pântano. Tive uma noite difícil…”
“Ah, você teve uma noite difícil. Você disse que viria jantar depois do trabalho e só aparece pela manhã! Onde é que você tava? O que tava fazendo? Com que tava? Ah, minha mãe bem que avisou! Por que não ouvi?”
“Pára com esse drama barato, mulher! Eu tive que fazer hora extra. O Neil ficou doente e eu tive que substituí-lo. O pior é que nem consegui preencher a cota…”
“Mas que Neil, porra nenhuma! Você tava era na farra! Pensa que eu não sei? Que eu nasci ontem? Que eu não sei que você é um cachorro, imprestável, um sub-ogro?”
“Peraí, sub-ogro, porra nenhuma! Sou um troll, somos irlandeses! Ogros são noruegueses!”
“Irlandês, norueguês, português, o caralho! Pra mim, é tudo igual. À tudo grande, verde e com dentes amarelos.”
“Ah, sai daqui, Criatura do Pântano. Tive uma noite difícil. Vai gritar com a dragão da sua mãe.”
“Você tava com alguma sereia de 20 libras que eu sei!”
“Quem dera…”
“Quem dera???”
Neste momento, a Criatura do Pântano quebra o prato na cabeça do Troll.
“Porra, que deu em você agora, caralho?”
“Mas que bafo é esse? Você tá fedendo a bolor de folhas e a face interior das coisas! Tou sentindo daqui!”
“Porra, mulher, é que fazemos! Como é que você acha boto comida na mesa?”
“Eu não quero saber! Tou cansado de aturar essa vidinha no interior! Aqui é frio pra caralho! Só tem paisagem bucólica e casebre. Isso não é vida! Seu imprestável, blá, blá, blá, blá, …”
A Criatura do Pântano estava tão concentrada em insultar seu marido, o Troll, que nem percebeu quando esse a engoliu por inteiro. O Troll faz uma careta ao engoli-la, senta-se e começa a ler o jornal que encontrara na entrada de sua casa.
“Isso vai dar uma azia!”
Ele pega o prato na mesa e começa a comer as folhas, como forma de aliviar a indigestão futura. Enquanto lê e mastiga, pensa rapidamente: “Ah, se aquele moleque passar pela porra da ponte de novo, tá fodido!”
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