Dez caras. Ou menos. Uns sete, de repente. Não menos que cinco. Mas naquela escuridão, no auge dos meus dezessete anos, eu juro que vi dez caras.
O mais gordo me empurrou o ombro com certo desleixo. Caí imediatamente no chão, sentado. “Foi você, não foi?”, e eu não fazia idéia do que ele estava falando. Provavelmente não, não tinha sido eu, afinal não conseguia me lembrar de nada que pudesse ter feito pra deixar alguém tão irritado. Aliás, não me lembrava de nada que pudesse ter feito além de ler e chorar durante as tardes de terça, duas atividades que dificilmente levariam um sujeito gordo a me empurrar no chão.
“O que você fez, tá feito. Não volta. Mas nós estamos aqui mesmo assim. Você tem que pensar na gente não como uns babacas, e sim como mestres, como seus professores. Caras legais que vão te ensinar uma coisa muito importante. “
“Ensinar o quê?”
“Não se tira a virgindade da irmã de alguém. Principalmente da minha.”
De todas as lições que ainda precisava aprender, essa era, talvez, a mais distante da minha realidade. Nunca tinha tirado a virgindade de ninguém, nem a minha própria. Não fazia idéia de quem poderia ser a irmã do gordo, mas tinha certeza que nunca tínhamos feito sexo.
Apanhar pelo sonho não realizado era apanhar em dobro, e nessa hora não quis assumir que era virgem, ou jovem, ou fraco. Não quis assumir nada. Quis merecer a lição.
“Ela se ofereceu pra mim. Ela é uma vagabunda na cama, a sua irmã.”
O cara ao lado do gordo, um menino que, apesar de novo, já trazia um bigode imponente e uma cicatriz na bochecha, me deu um soco baixo, um soco no diafragma. Tentei não me curvar, e consegui, pelo menos até a hora em que o gordo me socou o nariz. Nessa hora, vi tudo ficar preto. Primeiro o preto do céu noturno, com suas estrelas ofuscadas pelas luzes de postes e prédios. Depois, preto mesmo, preto puro, sem brilho ou manchas.
E foi nesse preto que a vi pela primeira vez. Ela chegou e se ajoelhou do meu lado. Passou seus dedos finos pelos meus cabelos e repousou a mão sobre minha testa. “Você está bem?”
“Nem um pouco.”
Seu cheiro era impressionante. Ao longo da vida busquei, em cada canto de cada mulher, aquele mesmo perfume. Sem sucesso.
“Quer vir comigo? Posso garantir que você vai se sentir melhor.”
“Não, é melhor não, é melhor voltar pra casa”.
Honra intacta, medo idem, caminhei de volta, bastante tonto, tentando guardar na bagunçada memória de adolescente o rosto dela. Até que consegui, por alguns anos.
Só que a vida andou, e quando percebi já não me lembrava mais de seu rosto e nem mesmo de sua voz. Apenas de seu cheiro.
Só voltei a vê-la muitos anos depois. Muitos mesmo. Falo de uns quarenta, cinqí¼enta anos. Senti o mesmo perfume e tive a certeza de que ela havia voltado.
Ela era a mesma. Eu era um velho, sem saúde, sem alegria, sem voz. Eu estava deitado numa cama de hospital, sem ninguém a meu lado. Ela estava de pé, linda, vestida de preto.
“Quer vir comigo agora?”
“A dor vai passar, não vai?”
“Lógico.”
Ainda tive, por dois ou três minutos, vontade de continuar deitado e de lidar com aquela dor fraca e perene. Mas seu cheiro me puxava, seu sorriso me dava um certo conforto, suas mãos esquentavam meu corpo.
“Vou com você.”
E até hoje não sei se deveria tê-la acompanhado em nosso primeiro encontro, diante daqueles dez caras que juravam que eu tinha dormido com a irmã do gordo. Aquele dia foi meu auge, e morrer no auge é sempre mais gostoso. Mas só vim a descobrir isso algum tempo depois da segunda visita que ela me fez. Ela me permitiu escolher um momento da vida para rever anualmente, no meu aniversário fúnebre. Escolhi o encontro com os dez caras. Ou menos.
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1 resposta
Muito bom!!! Adorei.
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