“E o homem, então, em desconforto e seminu, se faz de todo entregue e sereno”, ele disse – e acendeu a última vela negra ao longo do círculo.
Os olhares se entrecruzaram. A busca da serenidade no outro para alcançar a sua própria era já o prenúncio de que a partir daquele momento o ritual começara de fato ” ninguém mais estaria imune, ninguém mais estaria seguro.
Ao redor do Condutor, trinta cartas do Enforcado nas mais diversas representações dos mais variados tarís tinham sido dispostas, uma a uma, de forma tríplice ao centro.
“E o homem sustenta a dor e a ansiedade, o homem amortece o medo de que seu sacrifício seja em vão”.
O Condutor e sua Auxiliar, uma velha com ar obscuro de idade indefinível e cabelos brancos longos reluzentes, caminhavam em movimentos circulares, acompanhando a linha imaginária que as velas traçavam. Ela carregava em seus braços cordas a queimar, que defumavam o recinto com um cheiro peculiar que impedia a respiração e causava a sensação de um mergulho no vazio.
“Como Prometeu, o homem se deixa pendurar de ponta cabeça, a mente racional não está mais sob controle e o sacrifício se repete: devorado de dia e renascido à noite, sucessivas vezes é deixado à Fortuna até a total harmonização com o Eixo Misterioso”.
A Auxiliar tomou nas mãos a taça de vinho. Lenta e respeitosamente, dirigiu-se aos cinco cantos do círculo, formando uma estrela. Proferindo palavras incompreensíveis, foi ao meio do círculo, onde se agachou em direção ao centro e retirou de um pequeno pedestal um punhal de prata, que segurou e banhou na taça com o vinho entorpecente. Mirando os céus, ela bradou:
“Iluminados sejam estes que se lançam à escuridão”.
O Condutor caminhou para o norte, dando continuidade ao ritual.
“E, ao submeter-se voluntariamente ao Eixo Misterioso por trás do qual se realizam as voltas da Fortuna, o homem demonstra seu espírito visionário, pelo qual Prometeu galgou sua imortalidade”.
O Condutor então, pela primeira vez, dirigiu-se diretamente aos Postulantes.
“Quem dentre vós será digno de receber a imortalidade como recompensa, a partir do fogo tomado da forja sagrada de Hefesto?”.
O primeiro dos Postulantes foi à frente. O Condutor aproximou-se dele.
“Como te lanças nesta viagem solitária?”.
“Com serenidade e confiança nas tramas invisíveis do inconsciente” ” e foi-se.
Dois, três, quatro de nós se seguiram, até que chegou o momento – o momento que haveria de chegar e que se apresenta a todos aqueles que saltam no escuro.
“Como te lanças nesta viagem solitária?”.
“Abro mão do controle, assumo minha vulnerabilidade e espero a luz adiante”.
O Condutor então deu-me a taça de vinho e eu tomei um gole. De súbito meus sentidos falharam, minha visão ficou turva, as velas se tornaram fortes pontos de luz indefinidos, meu olfato alterou-se e um leve cheiro de enxofre substituiu o de defumador. Minhas pernas cambaleantes ainda puderam me levar até o centro do círculo, onde a velha me aguardava, com o punhal a postos.
Ela cravou-o em meu peito e eu caí. Em torno de mim, pude ver o imenso mar vermelho vibrante cor de sangue. Finalmente me largara í s profundezas, finalmente havia encarado o sacrifício voluntário para alcançar algo maior. A Morte. O Arcano seguinte ao Enforcado é a Morte.
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário