Gosto de andar sobre as pedras portuguesas, apesar do salto. Não uso saltos muito altos, o que facilita. O calçamento de pedras acompanha as ondulações do terreno e faz do andar algo mais natural. Quando eu era criança, me perguntava que artesão havia conseguido formar o mosaico de pedras com tal exatidão, como um quebra-cabeça. Sobre as formas de ondas traçadas com as pedras negras no calçadão da orla, gostava de percorrê-las continuamente, fazendo as curvas como num surfe imaginário.
Já é quase madrugada. Neste momento eles devem estar fazendo amor. Ou como diria o saudoso poeta, eles estão realizando o trabalho genésico. Ele diz que é para eu não me grilar. Sexo entre um casal de mais de 10 anos não é nunca uma atividade apaixonada, é apenas a rotina mecânica e repetitiva dos impulsos biológicos irreprimíveis. Como nunca fui casada, não faço idéia do que é isto. Para mim, trepar é sempre uma vibração carnal, uma maneira de me dar saindo de mim mesma. Que chato deve ser viver casado por tanto tempo!
Eu disse a ele que tudo bem, mas eu sou e serei sempre a protagonista. Ele me respondeu que todos nós somos protagonistas de nossas vidas. OK, mas depende de cada vida, de sua intensidade. Há pessoas fracas e pessoas fortes. Há os que se deixam dominar. Ele diz que está esperando ela saber de tudo para acabar com a relação. Coitado, o dependente. Eu piloto a minha vida, não deixarei os outros decidirem em meu lugar. Para mim, no amor, eu quero simplesmente a devoção. Estas são as cartas que botei na mesa, as regras do jogo que eu mesma defino. Se não quiser jogar, tudo bem, mas precisa ter a dignidade e a coragem de cair fora. Eu sou a tal, que a madame seja a outra.
Mas enfim, eles estão lá cumprindo suas obrigações conjugais. Ai, que tédio ter obrigações. Sinto a liberdade como este vento na orla me desalinhando os cabelos longos. Este quiosque está tão agradável. Estou agora aberta ao acaso, ao inesperado, ao acontecimento.
Por exemplo, naquela mesa ao lado, há dois jovens bonitos, gringos, com uns 20 anos a menos que eu. Pelo linguajar, percebo que são italianos. Sou bem versada em letras e línguas. Gosto dos italianos, os melhores amantes entre todos. São europeus o suficiente para serem educados e cultos, e latinos o bastante para serem sensuais e viris.
Já estou conversando com eles. São alegres, divertidos. Percebo que são bons garotos. Sou boa neste tipo de percepção fisionímica, capto logo a índole das pessoas com poucos minutos de papo. Ambos têm cultura, universitários, a passeio na cidade, vão ficar por pouco tempo. Estão num hotel próximo, bebendo uma cerveja antes de curtirem a noite carioca. Dão gorjetas para os ambulantes que vêm perturbar. Me simpatizo com esta generosidade afável. Não têm preconceitos. São livres que nem eu.
Ofereço-me para guiá-los pelas ruas da cidade esta noite. Pegamos um táxi para ir à Lapa, onde mais? As ruas do bairro antigo fervem. Atravessamos os Arcos e passeamos pela rua Mem de Sá. Dezenas e dezenas de jovens de todas as idades, seres autínomos, corpos vívidos, rapazes e moças, homens e mulheres, conversam nos bares e nas calçadas. Um jovem, moreno com cabelos trançados, nos oferece gentilmente um cachimbo da paz. Sorvemos a oferenda e brindamos ao momento iluminado.
Entramos num desses sobrados antigos, onde toca um animado DJ. Dançamos, eu e os rapazes italianos, com nossos corpos roçando-se levemente, sensualmente, sem grosseria, num tempo exato, sem apressamentos e afobações.
Depois pegamos de volta um táxi para Copacabana. O desejo conjunto nos conduz ao quarto de hotel que dividem em sua estadia. Em breve, estamos nus e posso sentir o corpo imberbe de dois jovens pregados à minha pele suarenta.
Nunca havia transado com dois homens sobre uma mesma cama. Mas sou dona do meu destino e do meu desejo. Que bom ser assim sem amarras! Esses jovens certamente nunca os verei mais. Eles são simpáticos e inteligentes sim, mas o que quero agora unicamente deles é aquilo que já sinto no interior de minha carne. Adormecemos em prazerosa beatitude.
Estou de volta ao calçadão. São 6 da manhã. Saí do quarto sem deixar bilhete, cartão, nada. Pensei em tomar café com a dupla imberbe, mas desisti. Isto seria acorrentar meu dia ao deles. Posso tomar café em qualquer padaria. Foi bom assim. Agora quero ver o nascer do sol, bem defronte à praia. O par de casados deve estar dormindo, um roncando alto no ouvido do outro. Como terá sido o amorzinho deles? Nem imagino. Que pena que não estejam vendo esta bola de fogo no horizonte! Sou protagonista e singular, e por isso sei que devo ser generosa para os comuns. Que fiquem bem. Este imenso círculo solar não foi feito só para mim. O sol nascente é belo só porque é nascente e é para todos, embora sejam poucos os que, emancipados, podem apreciá-lo, compreendê-lo, desejá-lo.
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