Quando seu Oscar abriu a porta, ficou boquiaberto. Lá estava ela, sua esposa de tantos anos, usando uma lingerie. Depois do espanto, o que lhe veio à cabeça foi o contraste. Aquele tecido havia sido desenhado para alguém muito mais jovem e sem as marcas do tempo. A pantomina de sua mulher só ressaltada o peso que a idade teve nela. Ela, por sua vez, ignorava a reação do marido, fosse por inocência ou uma última tentativa desesperada.
Seu Oscar sentou na cama. Dona Vilma saiu de sua pose e sentou-se ao seu lado. Ele olhava para o chão, mudo. Ela segurava o choro. Tudo aquilo pelo o quê? Ficaram assim por minutos que eram séculos. Queriam dizer alguma coisa, mas nada saía. Quais eram as palavras certas para evitar mágoas e maus entendidos? Ninguém é educado para uma situação como essa. O que falar? O que fazer?
O tempo passou. Eu não te amo mais. Eu não sei. Eu sou gay. Eu conheci outra pessoa. Eu quero novas experiências. Eu não te quero mais… Esta era a pior.
Seu Oscar se levantou e foi até a porta.
“Vou no Gouveia e já volto.”
A porta se fecha, com o estampido de uma explosão nuclear.
Dona Vilma chora. Ela esfrega o rosto com força, como se fosse possível apagar o passado, antigo e presente. Não sabia dizer o que tinha feito de errado. Queria uma resposta. Era um teste ou uma punição? Os dois? As lágrimas e as secreção nasal se misturavam e caíam em sua boca, numa combinação salgada e pegajosa. Era nisso que ela tinha se tornado: uma criatura de gosto ruim e nojenta. Uma caricatura monstruosa de seus desejos e esperanças. Chorou até adormecer. Tinha que lavar a roupa logo cedo.
No bar, seu Oscar vai até o balcão e pede uma cerveja. Gouveia pergunta se ele não tinha ido para casa.
“Não sei.”
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