(Do livro “Fumaça e espelhos: contos e ilusões”, publicado pela Via Lettera em 2002, com tradução de Cláudio Blanc.)
No começo dos anos 60, quando eu tinha 3 ou 4 anos, arrancaram a maioria dos trilhos de trem. Reduziram drasticamente os serviços ferroviários. Isso significava que não havia outro lugar para ir a não ser Londres, e a cidadezinha onde eu morava tornou-se o fim da linha.
Morávamos nuima velha casa, nos arredores da cidade. Os campos dela eram baldios e negligenciados. Eu costumava pular a cerca, deitar-me à sombra de uma pequena leira de juncos e ler; ou, se estivesse me sentindo mais aventureiro, explorava o terreno do solar vazio, além dos campos. Lá havia um lago ornamental obstruído por ervas daninhas, sobre o qual havia uma ponte de madeira. Nunca vi nenhum trabalhador ou caseiro nas minhas incursões pelos jardins e bosques e nem tentei entrar no solar. Isso seria cortejar o azar e, além do mais, acreditava que toda casa velha e vazia fosse assombrada. Não que fosse crédulo, eu simplesmente acreditava em coisas sombrias e perigosas. Era parte do meu credo infantil que a noite fosse cheia de fantasmas e bruxas, famintos, esvoaçantes e vestidos de negro.
O contrário parecia encorajadoramente verdadeiro: a luz do dia era segura. A luz do dia era sempre segura.
Quando tinha sete anos, descobri a trilha através da mata. Era verão, quente e resplandecente, e perambulei até bem longe de casa naquele dia.
Eu estava explorando. Passei pelo solar, suas janelas trancadas com tábuas pregadas, cruzei o terreno e continuei através de uma mata estranha. Desci com dificuldade uma ribanceira íngreme e me vi numa trilha sombria, coberta de árvores e nova pra mim. A luz que penetrava pelas folhas era manchada de verde e dourado e eu achei que estivesse no país das fadas.
Um pequeno regato corria ao lado da trilha apinhado de minúsculos camarões transparentes. Eu os pegava e os observava contraindo-se e girando na ponta dos meus dedos. Daí, eu os colocava de volta.
Vagueei pela trilha. Era perfeitamente reta e coberta por uma grama curta. Vez ou outra, eu achava pedrinhas incríveis: derretidas, com bolhas marrons, púrpuras e pretas. Se você as segurasse contra a luz, veria todas as cores do arco-íris. Eu estava convencido de que eram extremamente valiosas e enchi meus bolsos com ela.
Andei e andei pelo corredor verde e dourado sem ver ninguém.
Não estava com fome ou com sede. Apenas me perguntava onde a trilha ia dar. Ia em linha reta e ela era perfeitamente plana. A trilha nunca mudava, mas a paisagem ao seu redor, sim. Primeiro, estava andando no fundo de uma ravina, ribanceiras cobertas de grama erguiam-se íngremes de ambos os lados. Mas tarde, a trilha estava acima de tudo e, enquanto andava, podia ver as copas das árvores abaixo de mim e os telhados das raras e distantes casas. Minha trilha era sempre plana e reta e eu andava por vales e planaltos, vales e planaltos. Finalmente, em um dos vales, cheguei à ponte.
O alto da ponte estava coberto de lama. Em cada um dos lados havia uma campina: de um de meus flancos havia um trigal e, do outro, era apenas grama. Havia as marcas empastadas de enormes rodas de trator na lama seca. Atravessei a ponte para ter certeza: não fez barulho algum, meus pés descalços não fizeram som algum.
Não havia nada por milhas, apenas campos, trigo e árvores. Peguei uma espiga de trigo e arranquei os doces grãos, descascando-os entre meus dados. Mastiguei-os meditativamente.
Percebi que estava ficando com fome e desci de volta aos trilhos abandonados da ferrovia. Era hora de ir embora. Havia um troll esperando por mim, debaixo da ponte.
“Eu sou um troll”, disse ele. Então, fez uma pausa e acrescentou, quase como que para si mesmo:
“Fol rol de ol rol”.
Era enorme, sua cabeça tocava o alto do arco de tijolos. Ele era mais ou menos translúcido. Eu podia ver os tijolos e as árvores através dele, ofuscados mas não desaparecidos. Ele era todos os meus pesadelos encarnados. Tinha dentes enormes e fortes, garras que despedaçavam e mãos fortes e peludas. Seus cabelos eram compridos, como uma das bonecas de plásticos da minha irmã, com olhos protuberantes. Ele estava nu, seu pênis pendurado na moita de pêlos entre as pernas.
“Eu ouvi você, Jack”, sussurrou numa voz que parecia ser o vento. “Ouvi você arrastando os pés na minha ponte. Agora vou comer sua vida.”
Eu tinha só sete anos, mas, como era de dia, não me lembro de ter ficado assustado. À bom que sejam as crianças a enfrentar os elementos de um conto de fadas ” elas estão bem preparadas para lidar com isso.
“Não me coma”, retruquei ao troll. Eu vestia uma camiseta listrada marrom e calças de veludo marrom. Meu cabelo era castanho e um dos meus dentes da frente tinha caído. Estava aprendendo a assobias por entre eles, mas ainda não tinha conseguido.
“Vou comer sua vida, Jack”, disse o troll.
Eu o encarei:
“Minha irmã mais velha vem por essa trilha daqui a pouco”, menti, “e ela é muito mais saborosa do que eu. Coma minha irmã em vez de mim.”
O troll farejou o ar e riu:
“Você está só”, disse ele, “Não há mais nada na trilha. Nada mesmo.”
Então o monstro inclinou-se e correu seus dedos por mim. Parecia que borboletas roçavam meu rosto ” como o toque de uma pessoa cega. Daí, cheirou seus dedos e sacudiu sua enorme cabeça.
“Você não tem uma irmã mais velha. Só uma irmã mais nova e ela está na casa dos amigos hoje.”
“Você sabe tudo isso só pelo cheiro?”, perguntei, espantado.
“Trolls podem farejar o arco-íris. Trolls podem farejar os sonhos que você teve antes de ter nascido. Chegue mais perto que eu vou comer a sua vida.”
Ele escancarou a boa. Dentes afiados. Seu hálito fedia a bolor de folhas e à face inferior das coisas.
“Comer. Agora.”
Ele se tornou mais e mais sólido para mim, mais e mais real; o mundo exterior tornou-se mais horizontal e começou a esvanecer.
“Espere”. Enterei méis pés na lama debaixo da ponte e encurvei meus dedinhos, agarrando-me firmemente ao mundo real. Encarei seus grandes olhos:
“Você não quer comer minha vida. Não agora. Eu…. eu tenho só sete anos. Eu nem vivi ainda. Há livros que eu ainda não li. Nunca andei de avião. Ainda não sei assobiar ” não de verdade. Por que não me deixa ir? Quando eu for mais velho e maior, uma refeição melhor, eu volto para você.”
O troll encarou-me com olhos que eram como faróis.
Então assentiu com a cabeça.
“Quando você voltar, então”, disse ele. E sorriu.
Eu me virei e voltei pelo caminho silencioso e reto por onde antes tinha passado a linha do trem.
Depois de um tempo, comecei a correr.
Corri pela trilha sob a luz verde, bufando e ofegando, até sentir uma dor lancinante debaixo das costelas, uma dor de pontada. Fui para casa aos tropeços.
Enquanto crescia, os campos começaram a sumir. Uma a uma, fila a fila, casas surgiam em ruas batizadas com o nome de flores silvestres ou de autores ilustres. A nossa ” uma velha casa vitoriana com telhado arruinado ” foi vendida e demolida; novas moradias cobriram o jardim.
Construíram casas por toda a parte.
Foi só depois de 8 anos que voltei à velha linha de trem; e não estava só.
Estava com quinze anos e tinha mudado de escola duas vezes, nessa época. O nome dela era Louise e foi meu primeiro amor.
Eu adorava seus olhos cinzas, seu cabelo castanho, seu andar desajeitado (como um filhote de corça aprendendo a andar ” o que soa bem idiota e me desculpo por isso): quando tinha 13 anos, eu a vi mascando clicletes e caí de amores por ela como um suicida cai de uma ponte.
O principal problema de estar apaixonado por Louise era sermos os melhores amigos um do outro e ambos saíamos com outras pessoas. Eu nunca disse a ela que a amava, ou mesmo que me interessava por ela. Àramos amigos.
Eu estava na casa dela, naquela noite: sentamos no seu quarto e tocamos Rattus Norvegicus, o primeiro LP dos Stranglers. Era o começo do punk e tudo parecia muito empolgante: as possibilidades, na música e em tudo o mais, eram intermináveis. Finalmente chegou a hora de eu ir para casa e ela resolveu me acompanhar. Demos as mãos, inocentemente, só amigos, e andamos os 10 minutos que durava a caminhada até minha casa.
A lua brilhava e o mundo estava visível e sem cor. Era uma noite quente.
Chegamos na minha casa. Vimos as luzes acesas lá dentro e ficamos na calçada sobre a banda que eu estava começando. Não entramos.
Daí, decidi que eu a levaria para casa. Então, fizemos o caminho de volta.
Ela me contou sobre as batalhas que estava tendo com sua irmã menor, que roubava sua maquiagem e perfumes. Louise desconfiava que sua rima estava transando com garotos. Louise era virgem. Ambos éramos.
Ficamos na rua, fora da casa dela, sob a luz de sódio amarela dos postes de iluminação, e fitamos nosso lábios negros e rostos amarelo-pálidos.
Rimos um para o outro.
Então, saímos andando, pegamos ruas quietas e caminhos desertos. Em um dos novos terrenos de construção de casas, uma trilha nos levou à mata e nós continuamos a seguir por ela.
Falávamos absurdos sobre o que sonhávamos, queríamos e pensávamos.
O tempo todo, eu queria beija-la, sentir seus seios e, talvez, pír minha mão entre suas pernas.
Finalmente percebi minha chance. Havia uma velha ponte de tijolos sobre a trilha e paramos debaixo dela. Eu a abracei impetuosamente. Sua boca abriu-se ao encontro da minha.
Então, ela ficou fria e rígida e parou de se mexer.
“Olá”, disse o troll.
Soltei Louise. Estava escuro debaixo da ponte, mas o vulto do troll cobria a escuridão.
“Eu congelei a moça”, disse o troll, “assim podemos conversar. Agora, vou comer a sua vida.”
Meu coração martelava e eu tremia.
“Não.”
“Você disse que voltaria e voltou. Já aprendeu a assobiar?”
“Já.”
“Isso é bom. Nunca consegui assobias”, ele farejou e maneou a cabeça, “estou satisfeito. Você cresceu em vida e em experiência. Mais para comer. Mais para mim.”
Agarrei Louise, um zumbi teso, e a empurrei para frente.
“Não me coma. Eu não quero morrer. Coma esta moça. Aposto que é muito mais saborosa do que eu. E é dois meses mais velha. Por que você não fica com ela?”
O troll ficou em silêncio.
Ele farejou Louise dos pés à cabeça, fungando nos seus pés, entre suas pernas, nos seus seios e cabeça. Daí, olhou pra mim.
“Ela é uma inocente”, disse, “você não. Eu não quero a menina. Quero você.”
Saí de baixo da ponte e fitei as estrelas da noite.
“Mas há tanta coisa que nunca fiz”, disse, um pouco para mim mesmo, “quero dizer, eu nunca… Eu nunca fiz sexo. Eu nunca estive na América. Eu nunca…”, balbuciei, “eu nunca fiz nada, ainda não.”
O troll não disse coisa alguma.
“Eu posso voltar para você quando for mais velho.”
O troll não disse coisa alguma.
“Eu vou voltar. Juro que vou.”
“Voltar para mim?”, disse Louise, “Por que? Aonde você vai?”
Virei-me, o troll tinha ido e a garota que achei que amava estava de pé na sombras, debaixo da ponte.
“Vamos para casa”, disse-lhe, “venha.”
Andamos de volta, sem dizer nada.
Ela começou a sair com o baterista punk que eu tinha formado, e muito depois, casou-se com outra pessoa. Uma vez encontramo-nos, num trem, depois de ter-se casado, e me perguntou se me lembrava daquela noite. Eu disse que sim.
“Eu gostava muito de você, Jack”, ela me disse, “naquela noite pensei que você fosse me beijar. Pensei que fosse me pedir. Eu teria dito sim… se você tivesse…”
“Mas eu não pedi.”
“Não”, retrucou ela. “Você não pediu”.
Seu cabelo estava muito curto. Não lhe caía bem.
Nunca a revi. A mulher de cabelo curto com um sorriso teso não era a garota que eu tinha amado e falar com ela me fez sentir constrangido.
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