Foi duro. Custou, mas era tudo meu. Desde o deserto gelado, passando pela Ilha do Dragão, até as regiões populosas e quentes, tudo me pertencia. Foi inegavelmente duro, mas à medida que avançava me fortalecia com os próprios conquistados. Seus ensinamentos me permitiam manter o foco. Não havia pensamentos a me perturbar. Apenas o foco. Focado e com a força da Divina Família evoluí, conquistei.
Sentia-me, então, pleno. Utilizei toda a energia existente para a minha meta. Canalizei-a, fui um seu concentrador. Integrei-me ao Cosmo e todo o chi que nele havia estava à minha disposição, pois eu e o Cosmo éramos uma só coisa. Percebi a unicidade. Eu, o Cosmo e meu objetivo éramos uno. Com o poder do Universo ao meu lado era impossível impedir o meu avanço.
E avancei. Terra adentro segui com a convicção de Gengis Khan. Picos nevados, desertos quentes e gelados, tezes escuras, amarelas… tudo me pertencia, afinal, tudo pertencia ao Cosmo e eu e o Cosmo pertencíamos um ao outro.
Utilizei toda a energia yang disponível no Universo. Depois, como um sábio guru, mantive a tensão pelo relaxamento através da energia yin. A tensão adequada tem a ver com o intento, não com o esforço. É muito mais uma questão de harmonia da energia do que de movimentação de músculos, ossos ou descargas neuronais. O pensamento é no plano da matéria. Ele não resolve nada, apenas a energia equilibrada soluciona. E foi o que fiz, equilibrei yin e yang na busca da manutenção da conquista.
Inesperadamente, entretanto, o impossível ocorreu: entraram pelo deserto gelado, tomando parte do que era do Cosmo, quero dizer, meu. Um acinte. Um acinte ao Universo. Refleti. Refleti muito. Como poderia? Como poderia alguém penetrar um campo energético perfeitamente equilibrado. A energia que ali havia seria capaz de catapultar qualquer um a quilômetros de distância só de pensar em adentrar a região. Era um verdadeiro campo de força, afinal, estamos falando de toda a energia do Cosmo alinhada, lembre-se disso.
Convulsões ocorreram na minha caixa craniana. Meu cérebro deve ter mudado de forma diversas vezes através de construções, desconstruções e reconstruções de ligações sinápticas em busca de uma explicação para o ocorrido. Talvez tenha de fato esgotado as combinações sinápticas possíveis sem descobrir em que eu havia falhado. Onde estava o erro que permitiu um buraco no meu campo de força cósmico? Foi então que compreendi o ocorrido. Falo aqui em compreensão, não em entendimento, de modo que as ligações sinápticas estão fora desse processo, o que corrobora a minha tese de que eu posso sim tê-las usadas todas sem sucesso em momento anterior. Compreendi, enfim, que não houve erro, não houve falha, mas um monumental acerto. O meu prazer pela conquista é indescritível. Estava próximo do meu objetivo e em breve tudo estaria acabado. Meu genial inconsciente, que flagrei na execução do seu plano, encontrou, portanto, uma forma de me manter por tempo indeterminado num ciclo de conquista, perda e reconquista. Passaria eras védicas assim, num constante aprimoramento do meu ser. Era o que mantinha meu intento focado, permitia que eu e a atividade fôssemos uma só coisa, me permitia viver em estado búdico. A conquista parcial do meu território pelo exército verde não era nada grave, por fim. Pelo contrário, marcava um recomeço, o início de um novo ciclo védico. Entraria novamente num estado de completa integração e harmonia cósmica, o que me fazia simultaneamente Kshatriya e Brahmin, as duas castas superiores, os braços e a boca de Brahma. Teria que reconquistar e em seguida perder Vladivostoque para exércitos vindos do Alasca diversas vezes ainda. Apenas assim seria pleno, um homem paciente, focado e tranqüilo. Um verdadeiro samurai. Que rolem os dados vermelhos!
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