O ciclo da vida seria circular e não linear.
O recém-nascido engatinharia, andaria trípego até firmar-se em duas pernas, cresceria, seria criança, adolescente, adulto e chegaria à meia-idade.
Em torno de cinqí¼enta anos o envelhecimento seria interrompido e começaria um processo inverso, paulatino, previsível, progressivo e simétrico no tempo.
A visão cansada descansaria. Os graus regrediriam: quatro, três, dois, um, zero. A coluna ganharia prumo e os discos vertebrais recuperariam altura. A gordura seria reduzida até sumir. Os músculos ganhariam volume e tínus. Bumbuns rechonchuariam e peitos estufariam. Varizes desapareceriam, pernas ficariam torneadas e tornozelos encorpariam. Peitorais, cinturas e ancas recuperariam a sensualidade. As rugas seriam desfeitas e as marcas de expressão sumiriam. Rostos arredondariam-se sem manchas e com a pele lisa como porcelana chinesa. Netos seriam confundidos com avós.
As mentes acompanhariam essas mudanças, com a coerência necessária quanto aos conhecimentos e à maturidade, porém os espelhos refletiriam jovens com almas velhas. O livre arbítrio e a genética sustentariam a natureza – na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Novas questões desafiadoras e aparentemente insolúveis para a legislação.
“Você está na ida ou na volta?” ” insaciáveis mentiriam, ainda insatisfeitos com a segunda chance, sob o pretexto de que a direita e a esquerda dependem do ponto de vista. A ética, como sempre, seria relativa.
Seguiriam-se cronologicamente uma nova juventude (com novas experiências), uma nova infância (com novas brincadeiras) e uma contínua regressão no desenvolvimento do bebê. Este perderia a coordenação motora, ficaria sem dentes e só mamaria, e passaria a dormir cada vez mais. Uma manhã então, ao afastar a tule do mosquiteiro, alguém encontraria sob o fino lençol estampado de pipas e balões, uma pequena e inerte castanha que guardaria num pires de bordas douradas.
Num próximo domingo ensolarado, os familiares e amigos estariam reunidos para o esperado ritual no jardim. Abririam uma diminuta cova na terra onde depositariam a semente. Regada pela chuva e visitada pelos entes queridos nasceria uma planta cujo tipo dependeria da essência da pessoa que gerou aquela semente, como por exemplo, um pé de amoras, papoulas , erva-doce ou erva-daninha.
A vida tal como ela não é.
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1 resposta
Deborah sempre nos surpreendendo… E a falta de atenção nos faz muitas vezes cometer injustiças. Parabéns por mais este.
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