Dona Vilma notara certa mudança nos horários da filha. Jóice passara a chegar mais tarde, a dormir até mais tarde, e í s vezes simplesmente não ia trabalhar. A mãe interrogou a menina e ouviu-a culpar o patrão pela mudança de horários, mas, quando insistiu em saber sobre os insólitos dias de folga, ouviu apenas o argumento cabal de todo adolescente autoritário:
“Ah, mãe, vê se não enche!”
Quê fazer com aquela menina? Falar com o pai não adiantava, o velho sempre tomava partido da filha. Além disso, havia motivos mais sérios para não incomodar Seu Oscar. A camisola de seda estava escondida no armário, esperando a noite certa. Antes de executar seu plano de sedução, Dona Vilma não queria correr o risco de perturbar o futuro seduzido. Ela esperou que eles saíssem, foi para o quarto e repetiu o ritual que tanto a animava nos últimos dias. Despiu-se, pegou a pequena camisola de seda ” era preta, com bordas rendadas em cor de rosa ” e vestiu-a vagarosamente, demorando-se em sentir a textura suave do tecido. Depois foi ao espelho verificar o caimento, encontrar ainda algumas desculpas para se esfregar um pouco mais na lisura da roupa. Em seus pensamentos, tentava prever as reações do marido. Primeiro ele se surpreenderia, certamente perguntaria sobre a novidade. Ela inventaria uma desculpa qualquer, diria que viu a peça numa loja e não resistiu à maciez do tecido. Então convidaria o marido a experimentar, tomando suavemente sua mão e levando-a até um de seus flancos. O homem tocaria ao mesmo tempo a textura suave da camisola e o volume arredondado do corpo da mulher. Talvez se excitaria com a mornidão daquela carne ansiosa, talvez notaria que a mulher havia emagrecido ” e Dona Vilma pensava agora que, se ele não notasse, ela não ia se aborrecer, desde que ele intuísse suas intenções secretas. O agrado, o gracejo da camisola certamente o excitaria. Ele perguntaria pela filha, e a mulher, com a satisfação de uma boa estrategista, diria triunfante: saiu toda arrumada; hoje não volta cedo. Ele entenderia o recado, ela apagaria a luz, e os lençóis voltariam a conhecer o líquido morno que havia muito não os umedecia.
Na sua imaginação, tudo ia tão perfeito que ela nem notou que Jóice entrava. A menina passou pelo corredor e estacou ao ver a mãe naqueles trajes, diante do espelho. Em segundos já tinha entendido o que se passava. Sua mãe tentaria um artifício para renovar o desejo do marido. Jóice sentiu um misto de ternura e pena. Ternura pela alegria pueril com que aquela mulher experimentava sua primeira lingerie. Pena pelo fracasso que seu pessimismo a fazia suspeitar.
“Quê é isso, mãe?!?”, Jóice perguntou mais por crueldade que por curiosidade. Havia um prazer deliciosamente cruel em surpreender a mãe católica e moralista usando uma lingerie.
“Isso o que, filha? Eu é que pergunto: você não tinha de estar no trabalho?!?”, Uma tentativa desesperada de se livrar do constrangimento.
“Esqueci o celular.”
“Ah, tá.”
“E essa roupa, mãe?” Risinhos…
“Ah… Esta camisola… Ah, eu achei bonita e comprei… Comprei, ué, quê que tem?! Não posso ter uma camisola?”
“Claro que pode, mãe… Papai já viu?”, E esse foi o golpe fatal em Dona Vilma, que se sentiu completamente desvendada pela filha. Não podendo dis farçar a vergonha, tentou primeiro fazer-se de
desentendida: “Seu pai? Seu pai?” ” depois lançou à menina um olhar pedinte, implorando cumplicidade, e se entregou de vez: “Não, filha. Ainda não viu. Será que ele vai gostar? Muito tocada pela súbita sinceridade da mãe, Jóice acabou tomando seu partido.”
“À… é claro que vai, mãe.”
“Você acha mesmo, filha? Já estou tão velha…” ” E, nessa confissão suspirosa, Jóice sentiu um bom bocado do sofrimento que os anos vergavam í quela mulher.
“Quê é isso, mãe? Não exagera! Você não tem nem cinqí¼enta…”
“À… vamos ver…”
Aquele misto de frustração e esperança logo fez marejar os olhos da menina. Constrangida, com medo de envenenar involuntariamente as esperanças da mãe, ela deixou o quarto, alegando que precisava pegar o celular e ir para o trabalho ” o que, aliás, era verdade, com a emenda de que seu trabalho agora era perambular pela rua esperando o telefonema de algum cliente. Mas aconteceu que, ao pegar o aparelho, Jóice teve algo como uma vertigem. A lembrança de tudo que vinha fazendo nos últimos meses tomou subitamente seu espírito e, por uma razão que ainda lhe escapava, tudo pareceu extremamente feio em contraste com o que vira a mãe fazer segundos atrás. Havia uma beleza
tocante na pergunta da mulher ” “Será que ele vai gostar?” ” que incomodava profundamente a garota, talvez porque ela já não fizesse nada para que alguém gostasse. Até para se maquiar Jóice tinha perdido o gosto. Antes passava longos minutos em frente ao espelho, retocando as sobrancelhas, realçando os cílios, contornando as pálpebras e os lábios, e agora um reles batom e um lápis básico davam o assunto por encerrado. A menina já não queria esmerar um rosto em que os homens pouco iam reparar. Também não se vestia mais com prazer. Escolhia as roupas mais fáceis de tirar e recolocar. Não se perguntava mais se estava bonita. De repente, a visão daquela mulher, preparando-se para o marido, preo- cupada com os sentimentos dele, denunciava todo o desmazelo com que Jóice agora se tratava.
Fechou-se no quarto e, vendo seu rosto no espelho, viu também as lágrimas que começavam a escorrer. Não entendia o que estava sentindo. Tinha pena de si mesma por não ter a ingenuidade da mãe, mas tinha pena da mãe por ser tão ingênua. Será que ela não via a inutilidade daquele plano? Não percebia que uma camisola de seda não esconderia as gorduras e estrias que os homens tanto repudiam? Sentia que o amor da mãe não era correspondido e isso lhe doía de uma forma obscura e
intensa. Revoltada com a própria dor, imaginava-se dizendo à mãe que seu expediente era vão, que o desejo dos homens precisava da juventude, e uma camisola de seda não a faria voltar no tempo. Mas
logo percebeu que nada daquilo precisava ser dito. Mais cedo ou mais tarde a mulher o descobriria por si mesma e passaria a ter dos homens a mesma idéia que Jóice. Este pensamento a confortou: o amor da mãe era bonito, mas era vão; e Jóice, se não amava, pelo menos também não sofria. Refugiou-se nessa conclusão e dela tirou forças para voltar ao trabalho. Sua mãe queria do marido algo que talvez ele não pudesse dar. Jóice queria dos homens algo que eles davam de bom grado. Feitas as contas, sentiu que era ela quem tinha feito a escolha certa; ou, pelo menos, era nisso que precisava acreditar para sair de casa.
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1 resposta
Isto a Ronaldo, continue.
Muito bom seu trabalho e sei que com o tempo vai melhorar mais
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